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Em: 09-DEZ-1999

Luís Naves

Tontos ou negligentes

A comunidade internacional fracassou na Guiné-Bissau. Abraçou o ditador corrupto; depois, quando este cozinhou eleições, seguiram-se aplausos e elogios; continuaram os negócios, o que explica muitas atitudes durante a guerra civil que se seguiu ao movimento de 7 de Junho de 1998. A população queria a mudança, lutou e morreu por isso, mas recebeu a indiferença dos que insistiam na necessidade de preservar o statu quo.

Daí a desconfiança nos revoltosos. Enfim, exigimos à Junta e ao governo de Fadul o que nunca exigimos a Nino Vieira. Esta foi a justificação para não resolver os problemas do levantamento. Foram feitas promessas de ajuda - apoio aos antigos combatentes, salários condignos para as forças armadas, investimento em quartéis e fardamentos -, mas o dinheiro nunca chegou. A comunidade internacional enviou apenas um cheque para pagar eleições democráticas.

Depois, preocupado com outros importantes assuntos, o mundo ficou à espera da votação, assistindo ao apodrecimento da frágil situação interna. O país tinha saído de uma guerra civil, mas não teve dinheiro para pagar mais do que uma eleição. No dia 28, o processo de votação correu bem. Houve liberdade de expressão e de imprensa, comícios entusiásticos sem incidentes.

No dia seguinte ao da eleição - ainda muitos observadores internacionais não tinham entregue os seus relatórios - a ONU anunciou a honestidade da votação. Apressadamente, porque na contagem houve indícios de fraudes, como acontecera em 1994. O país vive num ambiente de boatos e de intriga. Alguns dos partidos - como o RGB de Hélder Vaz e talvez a UM - foram prejudicados pelas manobras do PAIGC, provavelmente com a conivência do PRS de Kumba Ialá. Ontem, numa banal quarta-feira, jovens ex-Junta, descontentes, desceram à rua e encenaram um motim. Este é um dos muitos grupos de impacientes facilmente manipuláveis.

Os que manipulam são os que temem a mudança, os que tentam evitar a segunda volta ou ainda aqueles que desejam a intervenção de uma das facções dos vários centros de poder em formação. Enfim, a transição tem um percurso bem difícil à sua frente, porque a Guiné é um país instável, tornado mais instável pela guerra e pela demissão do mundo. O resultado pode ser bom para o povo guineense, ou tudo pode terminar numa nova ditadura. Apesar de sabermos isso, até agora recusámos ajuda. O erro singular é privilégio dos negligentes, o sistemático é exclusivo dos tontos.

Luís Naves é redactor do DN

Jornal Diário de Notícias: E-mail: dnot@mail.telepac.pt

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Guiné-Bissau, o Conflito no «site» Terràvista

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