From: "Umaro Djau"
To: guineabissau@list.forward.net
Subject: Guiné-Bissau
Date: Mon, 26 Oct 1998 11:53:31 PST
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1. Situação político-militar
Ao final da tarde de 6ªf, dia 23, a Junta Militar anunciou uma trégua de 48 horas, com vista a "permitir ao Presidente Nino uma definição sobre a presença de tropas estrangeiras".
Esta trégua foi aproveitada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros português para se deslocar à Guiné-Bissau, num último esforço de mediação, após contactos com os seus homólogos da CPLP, do Senegal e com a CEDEAO. A Junta Militar decidiu abrir o aeroporto para a aterragem do avião C130 que transportou Jaime Gama. No mesmo dia deslocou-se a Bissau o Ministro do interior do Senegal, que esteve reunido tambem com a Junta Militar.
No final da visita do MNE português foi informado ter ficado marcada uma reunião entre Nino Vieira e Absumane Mané para amanhã, dia 27, de manhã e outra entre delegações militares dos dois lados, para amanhã, à tarde.
As reuniões realizar-se-ão na linha da frente, junto ao Poilão de Brá. As duas partes comprometeram-se tambem a manter o cessar fogo, para permitir estas duas reuniões.
Hoje de manhã ouviram-se alguns tiros de metralhadora, com origem
desconhecida e que não tiveram resposta.
3. Sociedade civil
Durante a tarde de domingo relizou-se em Bissau uma manifestação
promovida por forças da sociedade civil. Em cartazes e palavras de ordem foi pedida a paz, comida e retirada das tropas estrangeiras. Na manifestação participaram muitas crianças, tambem.
4. Situação humanitária em Bissau
As condições de vida em Bissau estão a agravar-se, com aumentos de preços e falta de combustível, para abastecer a central eléctrica.
Segundo a agência de notícias Lusa, está previsto um reabastecimento só para a segunda semana de Novembro. Os preços disparam - o pão passou de 150 CFA para 200, a batata passou a custar 25 FF o kg, a cebola 30 FF e a dúzia de ovos 75 FF. Os contactos telefónicos com o exterior continuam cortados. Até à assinatura do cessar fogo tinham sido recenseadas 211 casas de habitação como completamente destruidas, mas os últimos combates agravaram muito a situação. Os funcionários públicos têm cerca de 5 meses de salários em atraso.
5. Situação humanitária no país
Testemunhos de religiosos dão conta dum enorme agravamento da situação humanitária, em particular com o aumento do número de refugiados na periferia de Bissau. Por exemplo, Cumura tem neste momento cerca de 50.000 refugiados, e, segundo o Embaixador português em Bissau, Prábis tem mais de 100.000.
Em Cumura há já uma situação grave com paludismo e diarreias. Estão a morrer cerca de 2-3% das crianças com menos de 5 anos, com falta de alimentação. As tropas senegalesas bloquearam um envio de arroz para Prábis. No leste do país, após os combates em Bafatá e Gabu, milhares de pessoas fugiram para a Guiné-Conakry. Segundo responsáveis de Connakry, em contacto com a Lusa, só na localidade de Gaoual, 350km a noroeste de Conakry, foram registadas mais de 3.000 refugiados, a maior parte sem documentos de identificação e sem quaisquer meios de sobrevivência. Em praticamente todo o país a colheita de arroz só se iniciará dentro de um mês e meio, pois as chuvas começaram tarde. O milho, cuja colheita se iniciou, só foi cultivado por cerca de 30% da população camponesa.
Existem regiões onde, para alem disso, não foi possível cultivar, por razões de segurança e que são, sobretudo, as regiões periféricas de Bissau e as zonas junto à fronteira com o Senegal. Os géneros
alimentares cuja carência é mais grave para as crianças são o açúcar, o leite e as papas.
Pela Rede de Solidariedade com o Povo da Guiné-Bissau
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