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em: 30-OUT-1998
O abraço de Nino e Mané
A Banjul chegou primeiro o líder da Junta Militar, seguido hora e meia depois pelo chefe de Estado, num helicóptero francês

Arquivo DN FRENTE-A-FRENTE.
Encontro para tentar ultrapassar o conflito na Guiné-Bissau
O Presidente Nino Vieira e o comandante supremo da Junta Militar, Ansumane Mané, abraçaram-se ontem, à noite, em Banjul, em sinal de paz, depois de um veemente apelo para a solução da crise guineense feito pelo Presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh.
Nino Vieira e Ansumane Mané participavam numa sessão solene promovida pelo Presidente gambiano, e que decorreu no Hotel Kairaba. Além dos membros das duas delegações, estiveram presentes o ministro do Interior do Senegal, Lamine Cissé, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Conacri, Lamine Camará, e da Gâmbia, Sadat Jobe, e vários diplomatas, como o embaixador de Portugal e a encarregada de negócios da Suécia em Bissau, respectivamente Fernando Henriques da Silva e Ulla Andren, bem como diversos líderes religiosos.
A reunião, de 45 minutos, foi aberta pelo Presidente gambiano, Yahya Jammeh, depois de algumas palavras de introdução proferidas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros gambiano, Sadat Jobe, que realçou o empenho gambiano na resolução do conflito guineense desde o primeiro dia. Ao usar da palavra, o Presidente da Gâmbia, dirigindo-se aos dois beligerantes, afirmou que é um homem de paz, que vive pela paz e que quer morrer pela paz.
O Chefe de Estado gambiano condenou a violência na África, afirmando ser triste para os africanos ver situações como aquelas que estão a passar-se na Guiné-Bissau e que levam à destruição de um país e ao alastramento da fome e das doenças. Yahya Jammeh defendeu um novo relacionamento entre os africanos assente no respeito mútuo, já que, conforme sublinhou, cada bala que nós lançamos é mais uma paragem no nosso desenvolvimento.
O Chefe de Estado gambiano chamou a atenção dos dois líderes para o comportamento dos animais da mesma espécie no caso africano, salientando que apesar de espalhados por vários países nunca se guerreiam. Isto para chamar ao bom senso, tanto Nino Vieira como Ansumane Mané, que considerou dois irmãos que já passaram "bons momentos", numa alusão aos 37 anos de convívio entre ambos.
Por outro lado, Yahya Jammeh afirmou não desejar que a Guiné-Bissau se transforme numa nova Libéria, um exemplo que condenou na África e que o fez renovar o seu apelo à paz e à negociação entre os dois rivais. Depois do Chefe de Estado gambiano, falou o Presidente Nino Vieira que atribuiu ao destino a crise que se instalou no país. "Nunca pensei que um dia irmãos guineenses pegassem em armas para se baterem", afirmou Nino Vieira, sublinhando que o seu pensamento foi sempre no sentido de que a democracia instalada no país fosse a forma de resolver os problemas.
Nino reconheceu que a actual guerra está a destroçar o país e pediu a Deus perdão pelo que está a acontecer, solicitando ainda a compreensão dos guineenses "do outro lado" para que a paz seja possível. "Viemos aqui pela paz e para que a paz reine definitivamente na Guiné-Bissau", concluiu.
O brigadeiro Ansumane Mané, por seu turno, começou por explicar ao auditório algumas das razões da revolta militar e recordou o facto de a Junta militar sempre se ter disponibilizado para o diálogo a fim de acabar com a crise no país. "Esperamos que hoje se chegue ao fim", disse Ansumane Mané, salientando contudo que isso vai depender em muito do Presidente Yahya Jammeh e do Presidente guineense Nino Vieira. Isto porque, segundo Ansumane Mané, para que a guerra na Guiné-Bissau acabe de uma forma rápida é imperativo a saída das tropas estrangeiras. Nino e Ansumane Mané vão voltar a reunir-se hoje sob a mediação do Presidente gambiano.
Cruz Vermelha retira crianças de Bissau
O Comité Internacional da Cruz Vermelha retirou 122 crianças e seus acompanhantes da organização não governamental Children Kinderdorf da cidade de Bissau, levando-os até ao posto fronteiriço de Wassalou, informou ontem o CICR em Dacar.
A coluna de veículos transportando as crianças atravessou as linhas da frente de combate, sob protecção da Cruz Vermelha. A retirada foi decidia na sequência de um pedido daquela organização não governamental, que pretendia abandonar a capital guineense face ao renovar recente dos combates, e de uma solicitação do Ministério do Interior guineense.
As crianças agora retiradas de Bissau deverão permanecer em Banjul (Gâmbia), na sede regional da Children Kinderdorf, até que a paz regresse à Guiné-Bissau, indicou ainda o Comité Internacional da Cruz Vermelha.
E-mail: dnot@mail.telepac.pt
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