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N.E.- Por se relacionar com a Guiné-Bissau, pensou o Webmaster introduzir nesta Web Page a peça publicada no Jornal Diário de Notícias de hoje..
27 de Novembro de 1998
Francofonia não é rival da lusofonia
"No caso da Guiné-Bissau, houve sempre uma colaboração estreita desde os primeiros dias da crise", diz Ghali
Álvaro Morna Correspondente em Paris
Um dos grandes objectivos que se propôs atingir foi o de introduzir uma dimensão política na Francofonia. Como se traduz, na prática, essa dimensão?
Foram os chefes de Estado reunidos há um ano em Hanói que decidiram introduzir uma dimensão política, ao elegerem pela primeira vez um secretário-geral para a Francofonia. Era necessário dar a conhecer a Francofonia aos não fracófonos, assim como às organizações mundiais e regionais que prosseguem os mesmos objectivos.
Daí o interesse em estabelecer relações com as organizações árabes, com a Lusofonia, com a cimeira ibero-americana e com a Comunidade Britânica. No início do meu mandato, convidei os secretários-gerais de todas as organizações mundiais e regionais.
A pouco e pouco concretiza-se o desejo de nos transformarmos numa Fracofonia plural. Conseguimos estabelecer relações especiais, primeiro com a ONU e participámos na conferência de Julho em Nova Iorque. Fizemos também acordos com a Liga Árabe. Fui já por duas vezes a Lisboa para discutir as relações entre a Francofonia e a Lusofonia.
A propósito da Guiné-Bissau, a imprensa portuguesa deu a entender que a Francofonia apoiava o Presidente Vieira, enquanto a Lusofonia estava ao lado do brigadeiro Mané. Na realidade, houve sempre uma colaboração estreita e, desde os primeiros dias da crise, telefonei ao meu colega da CPLP para evitar todos os mal-entendidos. Penso também que é importante que alguns Estados pertençam às duas instituições, como é o caso da Guiné-Bissau.
O meu país, o Egipto, faz parte da Francofonia, da Liga Árabe, da OUA e da Conferência Islâmica e ainda dos não Alinhados. Através desta imbricação, criam-se redes de solidariedade mais fortes que podem ajudar a ONU a realizar os seus objectivos. É esta a dimensão política que pretendemos dar à Francofonia.
Voltando à Guiné-Bissau, não se pode negar que houve uma rivalidade entre a CEDEAO, maioritariamente francófona, e a CPLP...
A CEDEAO não é a Francofonia, mesmo se muitos países que a integram são francófonos. Não sei se houve ou não rivalidade. O importante é que as organizações trabalhem em conjunto, no interesse do país em conflito. O que acontece é que, além do conflito entre os protagonistas, existe nos bastidores um conflito de segundo grau: o dos mediadores. Penso que no caso de Bissau houve uma boa colaboração, mas é preciso ter em conta os riscos da multiplicidade das mediações. Um objectivo da Francofonia política é o de nunca intervir em nenhuma crise quando já há um mediador.
Além da nova dimensão política, quais são os grandes objectivos que a Francofonia propõe atingir?
A Francofonia, se, por um lado, defende uma língua e uma cultura, deve também defender um conceito mais largo e ecuménico, a diversidade cultural e plurilinguística. Quando defendemos a língua francesa, defendemos também a língua portuguesa. A mesma coisa para a cultura. Não nos esqueçamos que estamos assim a defender a democracia. Portugal, que soube ultrapassar etapas difíceis, sabe bem o quanto a democracia é importante.
O facto é que ninguém fala de democracia internacional. Perante a mundialização, o Estado-Nação vai perder cada vez mais o seu poder, que será transferido para forças novas que podem ser as multinacionais ou os grandes interesses económicos que não são submetidos a um controlo parlamentar ou popular.
Se quisermos proteger a democracia dos Estados, devemos também proteger a democracia internacional. E, para chegarmos a esta, impõe-se o respeito pelas diversidades culturais. Quando a Francofonia defende essa diversidade, defende também os objectidos da Lusofonia, do grupo ibero-americano e de todos os conjuntos culturais.
Não é o antigo secretário-geral da ONU que está agora a falar?
Sim. No final do meu mandato publiquei a terceira agenda consagrada à democratização. Para mim, há um conceito: não pode haver paz sem desenvolvimento e o desenvolvimento é inexistente sem paz. É este conceito que defendíamos ontem na ONU e que defendemos hoje na Francofonia.
Quais são os limites da Franconfonia e da Lusofonia perante a invasão do inglês?
Tudo depende da vontade política dos Estados membros. Sem ela, não podemos fazer nada. A Francofonia, como a Lusofonia ou a ONU, não tem dinheiro próprio. São os Estados membros que contribuem. O sucesso da nossa resistência perante as ameaças da globalização depende da vontade política que é indispensável para que possamos defender os valores que nos são próprios.
ONU PODE APROXIMAR LISBOA E JACARTA Sente-se sensibilizado pela questão de Timor-Leste?
Na minha antiga qualidade de secretário-geral das Nações Unidas, durante cinco anos, mantive encontros bianuais com os ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal e da Indonésia. Estas conferências não obtiveram grandes resultados. Mas o facto de ter havido vontade política da parte dos dois ministros de discutirem regularmente provava que existia o desejo de encontrarem uma solução para esse grave problema. Penso que a nomeação de um representante especial da ONU, um embaixador paquistanês de grande qualidade, poderá contribuir de forma importante para encontrar uma solução que tenha em conta os dois pontos de vista, mesmo sendo diametralmente opostos.
PERIGO DE MARGINALIZAR ÁFRICA Quais os limites da ONU na procura de soluções para as crises internacionais, nomeadamente a que opõe o Iraque aos EUA?
A ONU está à disposição dos Estados. Se estes entendem reforçar a sua acção devem fazer tudo para que ela seja mais forte e eficaz. Acontece que alguns Estados querem fazer da ONU uma espécie de bode expiatório, acusando-a de falhar nas suas intervenções. Uma posição cómoda que serve apenas para a enfraquecer. Tal como a lusofonia e a francofonia, a força da ONU depende também da vontade política dos Estados.
Existe um sentimento generalizado de que não realizou totalmente a sua missão na ONU. Sente ressentimento em relação aos EUA?
Não. Mas sou um homem político que, como todos os outros, conheceu altos e baixos. Há momentos em que detemos o poder e outros que não são mais do que uma simples travessia do deserto. O mais importante é continuarmos os combates para atingirmos os nossos objectivos. Sinto-me hoje perfeitamente bem na Francofonia.
Espero conseguir fazer desta organização uma verdadeira instituição susceptível de mobilizar a opinião pública e encontrar soluções para um diálogo mais construtivo entre o Norte e o Sul. Não podemos esquecer que há francófonos do Norte e do Sul.
O que lhe inspira a actual situação em África quando se inicia em Paris a cimeira franco-africana?
A importância desta conferência é a de mobilizar a opinião pública internacional e de recordar que o continete africano é de todos o mais pobre, o mais marginalizado e que corre o risco de o ser ainda mais devido à globalização.
A Europa e o mundo correm o risco de construírem um novo Muro de Berlim, não entre o Oeste e o Leste, mas no Mediterrâneo, que deveria ser um mar para aproximar o Norte e o Sul.
Não é demasiado pessimista?
Não. Se não tomarmos consciência dos perigos da marginalização da África, se a Europa não fizer mais esforços de investimento, é isso que corre o risco de acontecer mais cedo ou mais tarde. Temos muitas esperanças na conferência entre a Europa e a África a realizar no ano 2000 em Lisboa, quando Portugal presidir a UE. Aí, a Europa poderá tomar consciência dos perigos de uma maior marginalização de África.
A cara da notícia BUTROS BUTROS-GHALI
76 anos Secretário-geral da Francofonia
Descendente de uma família da alta aristocracia cairota, Butros Butros-Ghali nasceu na capital egípcia em 1922. Este antigo secretário-geral das Nações Unidas, elegante e cortês, conhece bem os combates políticos e diplomáticos.
Nomeado ministro dos Negócios estrangeiros do Presidente Sadate, Butros-Ghali consagrou-se às relações entre o Egipto e o resto de África. Grande artesão, com o antigo Presidente egípcio, dos acordos de Camp David em 1979, Butros-Ghali continuou a desempenhar, com o actual Presidente Mubarak, o papel de moderador num continente então dividido pela guerra fria.
Mas o combate mais difícil para este diplomata, que soube mostrar-se muitas vezes inflexível, foi travado nas Nações Unidas. Candidato à sua própria sucessão em 1997, Butros-Ghali não resistiu ao diktat de Washington que impediu a sua reeleição, após ter criticado os métodos de gestão e a ineficácia do sistema das Nações Unidas.
A morte de 18 militares americanos na Somália em 1992, no quadro de uma operação da ONU, viria a ser-lhe fatal. Eleito em Novembro de 1997 secretário-geral da Francofonia, Butros-Ghali introduziu imediatamente uma dimensão política naquela instituição.
Jornal Diário de Notícias: E-mail: dnot@mail.telepac.pt
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Guiné-Bissau, o Conflito no «site» FortuneCity
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