É chegado o momento de começarmos a analisar o nosso comportamento perante o mundo que nos rodeia, sobretudo nos países de acolhimento, dando a imagem de maturidade e de bom senso nas questões que se afigurem polémicas, tal como a que esteve na origem da controversa nomeação do novo embaixador de Portugal.
É do conhecimento geral que o general Nino Vieira é produto do regime institucionalizado pelo PAIGC de que muitos que hoje clamam por aqui d'el-rei são apoiantes camuflados até à eclosão da guerra que levou o país à tragédia. Estou convencido de que sabiam que o presidente João Bernardo Vieira não se transformou num carrasco do seu povo a partir do momento em que fez apelo aos mercenários estrangeiros contra o seu próprio país, nem é a primeira vez que fez o que bem lhe apetece para a defesa da conveniência pessoal em detrimento de interesses nacionais. Mas estas vozes nunca se ergueram contra o que quer que fosse antes do dia 7 de Junho. Pelo contrário, opunham-se àqueles que o faziam, considerando até o general Nino Vieira um dos maiores estadistas de África.
Ora, sinto-me profundamente espantado e chocado com as «cambalhotas» que algumas pessoas dão, passando do lado de quem perde o poder para o actual senhor da situação. Esta forma de agir é para mim a principal preocupação em termos de futura reconstrução de uma Guiné melhor.
Sempre lutei e continuarei a lutar contra o mal existente no meu país de origem, independentemente de quem esteja no poder, porque a minha luta nunca foi contra as pessoas, mas sim contra o mal que elas fazem. Daí que não compreendo a atitude daqueles que, de forma velada ou expressa, estiveram permanentemente em sintonia com o autor do mal de que o povo guineense, incluindo os seus imigrantes, sofre durante muito tempo, aparecem agora, depois do facto consumado, a gritar: abaixo Nino Vieira.
É verdade que a queda do ainda presidente da Guiné-Bissau é uma condição necessária, mas não suficiente para a realização do nosso ideal colectivo. Ora, nenhum embaixador poderia ir tão longe quanto desejaria para a implementação da política de interesse à nossa imigração na diáspora portuguesa, sem o afastamento definitivo do PAIGC da condução política guineense, o único responsável por todos os males de que enferma a sociedade em geral, após a sua ascensão ao poder. Não devemos confundir uma árvore com a floresta.
Pois bem, há que repor a verdade que foi deturpada num momento de emoções incontroláveis, aquando da manifestação de apoio ao embaixador dr. José Baptista, por um dos organizadores, dizendo que foi o único representante da missão diplomática guineense em Portugal que visitou os bairros residenciais de imigrantes nossos. Isso não é verdade. A defesa de uma pessoa não implica necessariamente a deturpação dos factos.
Ora, o anterior embaixador, dr. Adelino Mano Queta, melhorou substancialmente a relação entre a Embaixada e a Associação Guineense para o bem de toda a comunidade, despolitizando a mentalidade então existente por parte do poder em Bissau contra esta organização que tem apoiado todos os guineenses em Portugal, como todos reconhecem. No entanto, a substituição do indigitado embaixador não suscitou nenhuma polémica no seio da comunidade, porque foi encarada como um acto normal num cargo de nomeação. Aliás, na diplomacia, as pessoas são nomeadas e não eleitas, por isso entendo que não faz sentido aquele espectáculo pouco dignificante da parte de quem veio.
Se fosse eu o embaixador em causa não me sujeitava a uma situação daquelas, porque acima de tudo está a dignidade da pessoa humana. Nunca me manteria num cargo de nomeação por discordar totalmente com quem me nomeou, ainda que esteja a prestar bom serviço ao país. Aliás, pelo contrário, pode-se mesmo abalar a sua credibilidade nas funções que exerce junto das autoridades do país em que está acreditado.
Quarta-feira, 30 de Dezembro de 1998 - Fernando Ka, in «A Capital»