Para a S. Exa.
Senhor Francisco José Fadul
Primeiro Ministro
Excelência,
Aproveito esta oprtunidade para endereçar-lhe as minhas felicitações pela
acertada e corajosa escolha que sobre si recaíu, de chefiar os próximo
governo do nosso estimado país. Deus/Alah lhe ilumine e lhe aconselhe na
tomada de importantes decisões, em busca de melhores vias e meios para
oferecer ao valente mas “mufenado” povo da Guiné, a felicidade, paz e
progresso.
Os dias passam e muitos guineenses estão convencidos de que Nino Vieira
tenta embrulhar a Junta Militar durante a aplicação dos acordos de Abuja,
realidade que se viesse a se concretizar consistiria um rude golpe às
expectativas daquele humilde povo que, pesados sacrifícios, mais uma vez
consentiu em busca de dias melhores.
Até aqui Ansumane Mané tem-se mostrado um fino político e grande estratega
militar ao encurralar e derrotar os exércitos invasores da República da
Guiné e do Senegal, que vieram em socorro do ditador guineense.
A manobra dilatória de Nino Vieira consiste, por um lado, em tentar ganhar
tempo para se reforçar militarmente e, por outro, tentando explorar de
maneira extremada, aspectos menos explícitos do acordo de Abuja para
reforçar os seus poderes constitucionais e reais.
No tocante ao primeiro ponto, apesar dos vários acordos, ele multiplicou nos
últimos tempos os ofícios visando a compra de armamento sofisticado e outros
materiais de fins militares, como sejam; sistemas de comunicação, vários
aparelhos satélite (missão cumprida por Tcherno, Faty e Selo com um fundo
proveniente do pagamento de uma dívida pela RFA, ligada à venda da
Semapesca, num valor de sessenta milhões de Francos). Nesta mesma
estratégia, o general enviou várias missões a Africa do Sul, nomeadamente
Avito Silva acompanhado de um senegalês, que se pretende conselheiro
especial de Nino, chamado Inussa. O objectivo é de recrutar mercenários
através da empresa Executif Outcomes.
Indicações provenientes de fontes concordantes indicam que o negócio estaria
mais ou menos concluído, não fosse a inquebrantável recusa do BCEAO em
desbloquear a astronómica soma de dinheiro solicitado (15/12/98). Consta que
uma missão do Ministério das Finanças se deslocará a Paris para levantar um
antigo dinheiro (meio milhão de dólares) bloqueado pela Société Générale, no
rescaldo dos desentendimentos entre o Tesouro Público guineense e essa
instituição bancária francesa provocados por uma dívida faraminosa deixada
por Leonel Vieira. Esta soma, mais uma parte do fundo levantado por Delfim
em Macau (um milhão de dólares) serão utilizados para o efeito.
Estas espertezas de Nino Vieira são provas de abuso dos governantes ante a
inexperiência político-governativa da Junta que, a esta data, devia
"bloquear" todos os movimentos financeiros que implicassem o Tesouro
Público, quanto mais não seja para garantir meios absolutamente
indispensáveis à execução das reformas públicas e à solução dos problemas
sociais mais candentes da população e, em particular, dos antigos
combatentes, uma vez adquirida a paz definitiva. Quem sabe se Nino Vieira
não esteja precisamente a criar condições para o agravamento da situação
financeira do governo pós-conflito, desembocando no agravamento das tensões
e de conflitos sociais, tendo por mira mostrar que o país é ingovernável sem
ele. Não de descartar esta hipótese, tendo em linha de conta a estratégia
subjacente ao programa radiofónico animado por Bassiro Dabó, intitulado
"Watcha Catcheu".
Nino Vieira perdeu o controlo da importante pasta das finanças em Lomé, mas
tenta a todo o custo preservar o controlo da bolsa guineense, através dos
mais variados “lobies” para impingir a recondução de Issufo Sanhá. Esta é
uma velha história da lebre e da loba. Recorde-se que Roma venceu a Grécia
pelas armas, mas a Grécia manteve-se senhora da Roma culturalmente.
A técnica de Nino Vieira consiste em veicular Junto dos círculos próximos da
junta a falaciosa e infantil ideia de que os doadores exigem Issufo Sanhá
nas Finanças, como se tivéssemos lutado para preservar alienada a nossa
soberania, em qualquer matéria que seja. Como se não houvessem mais
economistas ou quadros de outra craveira susceptível de projectar o nosso
desenvolvimento e ter simultâneamente em conta o princício do ajustamento
estrutural.
Até aqui o lema era Nino não tem substituto. Agora estão criando mais um
mito de insubstituibilidade. Mas, afinal, feitas as contas, o objetivo até
não é de manter o Issufo para o bem da Guiné ou porque reconhecem uma
qualquer qualidade inigualável neste senhor.
São dois os objectivos desta campanha de intoxicação: antes do mais, a
clique de Nino Vieira não quer que os negócios super-sujos que andaram a
fazer venha à baila com a nomeação de um novo ministro. Se Issufo for
reconduzido, como é que vamos poder fazer um sério inquérito sobre os
desvios de fundos públicos antes e principalmente durante a Guerra? Como
podera ele ser árbitro e jogador. Investigador e objecto de investigação?
Não. Não seria sensato, para além de defraudar os propósitos e as
expectativas do processo revolucionário. Se há uma coisa que aprendemos com
esta guerra e que deve ficar é que ninguém é insubstituível. Se Issufo
quisesse ser reconduzido não teria participado no financiamento da guerra
contra os nossos valorosos combatentes da liberdade da pátria.
Mas o objectivo principal de Nino Vieira em preservar o pelouro das finanças
visa, como dissemos mais acima, manter o controlo do património financeiro
do país, ganhando, finalmente, pela astúcia, o que perdeu no campo da
batalha. Ele ficaria controlando 6 ministérios e 5 Secretarias de Estado. É
bom não perder de vista que vamos a caminho de novas eleições e que Nino
Vieira manifesfestou publicamente a sua determinação em recandidatar-se.
Pa no dal As ku Sete? Isto seria uma autêntica Matemática de Boé,
parafraseando Koumba Ialá.
Ademais, acho que é urgente esclarecer a questão da detenção das pastas da
Procuradoria e do STJ, as quais, por causa da omisão parecem continuar nas
mãos de Nino Vieira. Será assim? Cuidado!
Não podia terminar esta minha missiva sem felicitar os membros da Junta, em
primeiro lugar o Brigadeiro Ansumane Mané, pela sua valorosa luta pela
defesa da pátria e da dignidade dos guineenses.
José da Silva
Dakar
Domingo, 3 de Janeiro de 1999, via e-mail