Começa a tornar-se claro que Abuja foi uma forma expedita encontrada pelos mediadores, por forma a impor interregno a uma guerra e a permitir o rearmamento do carrascoNino Vieira, e tudo com o intuito de poder sobreviver mais uma vez à crise de que ele é o principal autor. Aliás, o dito acordo surgiu exactamente num momento em que era notória a dinâmica da vitória por parte da Junta Militar sobre o terrorista sanguinário, apoiado por mercenários fantoches a soldo da França, que tem sido o verdadeiro vampiro do continente negro e é um autêntico império do mal das sociedades africanas, pelo menos nas sub-regiões ditas zonas de influência francófona.
Perante a tragédia a que fomos conduzidos por um partido terrorista, chefiado por um sádico louco, que não olha a meios para atingir os fins, lançou a Guiné-Bissau nas mãos dos piores colonialistas de que há memória na história do colonialismo, somos hoje levados a reconhecer quem são os nossos verdadeiros amigos, e inimigos - estes, muitas vezes, disfarçados de cordeirinhos generosos.
A França não tem pejo em utilizar de uma forma sub-reptícia os seus fantoches coloniais senegaleses, a fim de dominar a Guiné e encurralá-la no seu domínio territorial. Mas está enganada. Tal como foi corrida do Vietname e da Argélia, també,, mais cedo ou mais tarde, será escorraçada com os seus «cães de fila» do meu país de origem. As autoridades francesas têm-se portado sem dignidade e revelado uma grande hipocrisia no conflito guineense. Agora, não conseguem esconder as suas maquiavélicas intenções e aparecem sem vergonha a tentar impor condições que violam o acordo de Abuja.
Sabemos que os actuais líderes dos países africanos da sub-região que engloba a Guiné-Bissau são títeres dos franceses e mais nada fazem do que obedecer cegamente ao imperialismo sem escrúpulos, que vive sugando o sangue dos africanos e destabilizando a paz necessária ao desenvolvimento dos povos. É do conhecimento da opinião pública internacional que a ECOMOG, estrutura político-militar dos países da CEDEAO, não passa de um instrumento de opressão para servir a clique do poder na Costa Ocidental da África. Basta ver o que se passa tanto na Libéria como na Serra Leoa, onde são perpetrados verdadeiros crimes contra a humanidade por parte daqueles que se dizem pacificadores. É um paradoxo um país como a Nigéria, que nunca soube o que é a verdadeira democracia ao longo dos anos da sua independência, aparecer entretanto a arvorar-se em defensora dos regimes pluralistas em terras alheias, enquanto elimina opositores democráticos no próprio país.
Que confiança poderá merecer essa gente como mediadores de conflitos, quando dá provas irrefutáveis de ser mais desestabilizadora do que pacificadora em situações semelhantes à Guiné-Bissau? Como é que se pode entregar o ouro ao bandido para o utilizar em proveito comum? A culpa é das Nações Unidas, que frustaram as expectativas dos amantes da paz, porque não souberam honrar os princípios que nortearam a sua criação.
E agora é chegado o momento de grande desafio à diplomacia portuguesa para mostrar o que vale efectivamente. Porque foi ela que, por duas vezes, salvou a derrota humilhante do terrorista Nino Vieira e dos seus mercenários, abrindo perspectivas para uma solução pacífica do conflito, mas que tem sido sistematicamente violada pelo general guerrilheiro, apoiado pela CEDEAO. Por isso, Portugal não pode, por uma questão de ética, alhear-se do processo em curso e lavar as mãos como Pilatos, dizendo: «a culpa é deles, porque não se querem entender». Ora, a intervenção do Governo português foi escrupulosamente respeitada pela Junta Militar, que estava em situação de vantagem de levar por diante e com êxito a guerra, porém entendeu que é melhor a solução política que a vitória militar, portanto não se fez rogada para calar as armas. Assim sendo, a nossa diplomacia deve continuar a envidar esforços no sentido de serem cumpridos sem equívoco os princípios estabelecidos no acordo de Abuja, que estão a ser claramente violados pelos próprios mediadores.
Ao contrário de Angola, onde a opção interna das duas partes em conflito é pela continuidade da guerra, na Guiné-Bissau os promotores da guerra são exactamente os mediadores externos. Ora, quem não é pela paz não se pode configurar como negociador e muito menos ainda como garante da concórdia nacional.
Por isso, deveria haver um maior envolvimento por parte das Nações Unidas e até da União Europeia por forma a pôr cobto à situação de conflito na Guiné-Bissau, país completamente paralisado há oito meses, onde a sua população passa fome e muita gente morre diariamente de doenças curáveis e de fome, os campos sem produção e milhares de pessoas ainda deslocadas, além de milhares de refugiados por este mundo fora. A Guiné, país pobre e sem grandes recursos, não pode por muito mais tempo ficar à espera que o destino seja decidido por uma cambada de gente destituída do mínimo de sentimento humanista, sob pena de se tornar num Estado inviável.
Quarta-feira, 27 de Janeiro de 1999, Fernando Ka, in «A Capital»