Cinema
por Lula Rodrigues

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13/Janeiro/2001

Um lugar sem cinema é um buraco em algum lugar

Quem narra esta história é um cadáver* de quase vinte anos e ao contrário dos espíritas ele me faz crer que os cadáveres não trazem mensagens positivas. Com a palavra o cadáver do cine Fênix de Rosário do Sul, uma simpática cidade ao sul do Brasil governada por seres avessos ao cinema.
Faço uso das mãos dessa criatura igual a tantas outras na sua insignificância e diferente de tantas no uso de seu tempo. Uma criatura que aprendeu a amar a literatura e o cinema ao mesmo tempo, admirando os filmes que seu pai projetava em uma improvisada tela de lençol.. Por isso me utilizo dela que inúmeras vezes trocou gibis sob meu olhar sem futuro. E como esta criatura tantas outras repetiram tal atitude, entre elas o atual prefeito e seu vice que de outras vezes também foram prefeito e vice, e hoje desfilam a minha frente, respiram meu ar putrefato de cadáver violado diversas vezes. Chegaram ao extremo de hospedarem uma igreja onde outrora minhas entranhas elaboravam cultura. No espaço do conhecimento e expressão cultural colocaram a expressão máxima da alienação e submissão: a religião.

Esta criatura que digita minhas palavras cansou de ver em meu interior, ainda com as luzes acesas que antecediam a projeção, o doutor Galileu do Vale aproveitando o tempo lendo a TIME, a própria criatura ainda estudante de piano em sua primeira audição musical numa inocente peça a quatro mãos.

Hoje nada mais resta, a criatura foi embora mas ao menos lembra de mim e permite este desabafo, quantos dariam ouvidos, mãos e voz a um morto?

E quantos cadáveres iguais aos meus estarão jogados por aí, quantos lugares não tiveram sequer a oportunidade de experimentar a emoção que esta criatura experimentou? Existe um lugar chamado Durandé, Vale do Caparaó, pertinho do Pico da Bandeira, lá vivem perto de cinco mil almas privadas de cinema.Alguns lugares merecem uns loucos que estendem lençóis e projetam filmes para uma população que nunca esquecerá tamanha emoção. A emoção da criatura ao ver A Lira do Desejo, Amuleto de Ogum, A Noviça Rebelde e os dois piores filmes de sua vida Coração de Luto e Como Era Gostoso Meu Francês. Seu sorriso com Mazzaropi e Cantinflas, a vibração com Tarzan e Robin Hood. E a satisfação em ir ao cinema à noite, primeiro na companhia dos pais e irmão e a seguir junto da imprescindível solidão que a criatura julga merecedora uma sessão de cinema. E não vou falar da surpresa da criatura ante a reação da sua primeira irmã diante de seu primeiro filme. São essas emoções que me dão a liberdade de verter estas lágrimas utilizando-me dos olhos distantes da criatura amiga que não me esquece.

Pois aqui esta dupla, prefeito e vice, vai para sua terceira administração e nem lençol estendem para a população carente da magia do cinema. Mas eles têm casa, saneamento e escola, sairão alguns correligionários em defesa da dupla. E daí? Eles e tantos outros se contentam com o básico apenas? Mas tem video, DVD, antena parabólica, etc...E daí? Só falta o prefeito e seu coadjuvante serem donos de uma locadora! Mas se a cultura não é uma prerrogativa dos políticos, seres adeptos do mais nefasto populismo, então por que os acuso? Por que são eles cabeça, corpo e alma de uma população que os elegeu e os merece. No entanto quantos inocentes pagam por isso, a própria criatura tem irmãs que nunca foram ao cinema e isso a revolta pois a ela ama esta cidade que ainda abriga sua infância. Caso não esteja ao alcance dos comandantes da cidade soprar vida neste cadáver que ao menos forme uma comissão com tal finalidade. É um absurdo uma cidade sem cinema e lembro de uma vez que a criatura aqui esteve e não compreendia como um lugar sem cinema estava a reivindicar uma universidade. Absurdos de uma cidade sem cinema.

Peço perdão a criatura se me ocupo de suas mãos por motivo tão banal, quem está se preocupando com cinema se tantas pessoas não têm o que comer? Não será o cinema que as deixará mais ou menos famintas, mas toda forma de arte torna mais leve o fardo existencial e no mais das vezes abre olhos e mentes de um povo anestesiado pela preguiça mental de seus comandantes. E uma sala de cinema também gera empregos.

Cinema é cinema, só essas tristes gerações que cospem em minha direção e não tiveram o gosto de olhar para uma tela grande podem se contentar com vídeos dispensando a magia  singular de uma sala de cinema.

A cidade mais próxima daqui progride a 60km de distância e para lá viajam casais escusos rumo ao anonimato dos motéis. Algum pai viaja com seus filhos para levá-los ao cinema?

 *Homenagem a Billy Wilder que gostava de ter um cadáver como narrador em seus roteiros e Fred Zinnemann em cujo filme A Sétima Cruz (The Seventh Cross-EUA-1944) faz uso do mesmo expediente.

   
A Amazônia Kirimbau

Primeiro foi a invasão, depois o massacre, a seguir a exploração dos sobreviventes seguida de abandono. E assim de eufemismo em eufemismo, descobrimento, catequese, educação e liberdade o Brasil vai disfarçando a grande opressão, a grande covardia. Ao falar de índio não podemos esquecer a grande, senão a maior, praga que quase os elimina: a igreja católica. E a famigerada insiste, um dia ela logra seu intento....

O erro de Cristóvão Colombo batizou esse povo de "indios", erro que os "notáveis" livros escolares adotaram e conservam. Vai da língua à religião passando pelos ecossitemas que habitam a sucessão de equívocos perpetrada pela preguiça do homem "não tão branco" quando o tema envolve os verdadeiros brasileiros.A integração dos "indios" com o meio ambiente e consequentemente sua preservação é uma das várias lições que esse pobre povo tem a nos dar.

É justamente uma lição o que podemos ver na tela com TAINÁ - UMA AVENTURA NA AMAZÔNIA filme de Tânia Lamarca e Sérgio Bloch -Brasil-2000.  O filme ganhou o prêmio de melhor longa metragem no Festival do Rio BR

A história é simples, como costumam ser as histórias que encerram grande significado: Tainá (a simpática e talentosa Eunice Baia) é uma indiazinha órfã que vive na Amazônia com Tigê (Rui Polanah) seu avô, um sábio que não perde oportunidade para lhe transmitir conhecimento e ensinar a ouvir e amar a natureza. Mas Tigê escuta o "chamado do rio", sua hora chega e Tainá está só.

Mas não por muito tempo, em seguida começa a "ouvir" e aplicar os ensinamentos do avô Tigê e ao salvar um macaquinho das jaulas de um contrabandista de animais, ganha um amigo e passa a chamá-lo Catu. Os contrabandistas avistam TAINÁ libertando Catu e saem em sua perseguição. Daí em diante a perversidade do homem urbano, alheio a vida em última instância mas perfeitamente sintonizado com o mundo mercantilista, entrará em choque com os sentimentos mais simples e "novamente" de vital importância: respeito,preservação, amor à vida.

TAINÁ encontrará novos amigos mas o elo mais forte será formado justamente por aquele que, excetuando seus perseguidores, que lhe fora mais hostil. Juninho, um garoto da cidade grande completamente inadaptado a selva amazônica. TAINÁ abandona a casa de Juninho e este insatisfeito em seu exílio segue TAINÁ. Logo as diferenças serão superadas e Juninho escuta TAINÁ: " Agora Juninho é Kirimbau". Ambos tinham a coragem necessária para enfrentar e superar os inescrupulosos traficantes de animais.

TAINÁ apresenta todas aquelas imagens indispensáveis à todo filme do gênero natureza: onça passeando, close no tucano, peripécias de inúmeros macaquinhos, o homem "não tãobranco" mau e o bom selvagem.

TAINÁ mostra o belo e avisa que ele pode acabar, uma visão interessante de dois sensiveis cineastas. Não deixa de ser mais um momento de grande maniqueismo do cinema brasileiro mas como denunciar sem ser maniqueísta?

Um detalhe por demais significativo, e por isso é detalhe, merece a devida atenção;Iben Hjejle, atriz dinamarquesa que vive o papel de Laura e quando está em cena surpreende com seu talento que ficara à deriva em "Mifune" de Soren Kragh Jacobsen. Com Laura, momentos obrigatórios de olhos bem abertos

Tainá - Uma Aventura na Amazônia

(Tainá - Uma Aventura na Amazônia, Brasil, 2000)

Duração: 90 min

Elenco: 
Eunice Baia 
Caio Romei
Rui Polanah
Branca Camargo
Jairo Mattos
Betty Erthal
Luiz Carlos Tourinho
Alexandre Zachia 

Diretor(es):
Tânia Lamarca e Sérgio Bloch

Roteirista(s):
Cláudia Levay, Reinaldo Moraes


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