Faço uso das mãos dessa criatura igual a tantas outras
na sua insignificância e diferente de tantas no uso de
seu tempo. Uma criatura que aprendeu a amar a literatura
e o cinema ao mesmo tempo, admirando os filmes que seu
pai projetava em uma improvisada tela de lençol.. Por
isso me utilizo dela que inúmeras vezes trocou gibis
sob meu olhar sem futuro. E como esta criatura tantas
outras repetiram tal atitude, entre elas o atual
prefeito e seu vice que de outras vezes também foram
prefeito e vice, e hoje desfilam a minha frente,
respiram meu ar putrefato de cadáver violado diversas
vezes. Chegaram ao extremo de hospedarem uma igreja onde
outrora minhas entranhas elaboravam cultura. No espaço
do conhecimento e expressão cultural colocaram a
expressão máxima da alienação e submissão: a religião.
Esta criatura que digita minhas palavras cansou de
ver em meu interior, ainda com as luzes acesas que
antecediam a projeção, o doutor Galileu do Vale
aproveitando o tempo lendo a TIME, a própria criatura
ainda estudante de piano em sua primeira audição
musical numa inocente peça a quatro mãos.
Hoje nada mais resta, a criatura foi embora mas ao
menos lembra de mim e permite este desabafo, quantos
dariam ouvidos, mãos e voz a um morto?
E quantos cadáveres iguais aos meus estarão jogados
por aí, quantos lugares não tiveram sequer a
oportunidade de experimentar a emoção que esta
criatura experimentou? Existe um lugar chamado Durandé,
Vale do Caparaó, pertinho do Pico da Bandeira, lá
vivem perto de cinco mil almas privadas de cinema.Alguns
lugares merecem uns loucos que estendem lençóis e
projetam filmes para uma população que nunca esquecerá
tamanha emoção. A emoção da criatura ao ver A Lira
do Desejo, Amuleto de Ogum, A Noviça Rebelde e os dois
piores filmes de sua vida Coração de Luto e Como Era
Gostoso Meu Francês. Seu sorriso com Mazzaropi e
Cantinflas, a vibração com Tarzan e Robin Hood. E a
satisfação em ir ao cinema à noite, primeiro na
companhia dos pais e irmão e a seguir junto da
imprescindível solidão que a criatura julga merecedora
uma sessão de cinema. E não vou falar da surpresa da
criatura ante a reação da sua primeira irmã diante de
seu primeiro filme. São essas emoções que me dão a
liberdade de verter estas lágrimas utilizando-me dos
olhos distantes da criatura amiga que não me esquece.
Pois aqui esta dupla, prefeito e vice, vai para sua
terceira administração e nem lençol estendem para a
população carente da magia do cinema. Mas eles têm
casa, saneamento e escola, sairão alguns correligionários
em defesa da dupla. E daí? Eles e tantos outros se
contentam com o básico apenas? Mas tem video, DVD,
antena parabólica, etc...E daí? Só falta o prefeito e
seu coadjuvante serem donos de uma locadora! Mas se a
cultura não é uma prerrogativa dos políticos, seres
adeptos do mais nefasto populismo, então por que os
acuso? Por que são eles cabeça, corpo e alma de uma
população que os elegeu e os merece. No entanto
quantos inocentes pagam por isso, a própria criatura
tem irmãs que nunca foram ao cinema e isso a revolta
pois a ela ama esta cidade que ainda abriga sua infância.
Caso não esteja ao alcance dos comandantes da cidade
soprar vida neste cadáver que ao menos forme uma comissão
com tal finalidade. É um absurdo uma cidade sem cinema
e lembro de uma vez que a criatura aqui esteve e não
compreendia como um lugar sem cinema estava a
reivindicar uma universidade. Absurdos de uma cidade sem
cinema.
Peço perdão a criatura se me ocupo de suas mãos
por motivo tão banal, quem está se preocupando com
cinema se tantas pessoas não têm o que comer? Não será
o cinema que as deixará mais ou menos famintas, mas
toda forma de arte torna mais leve o fardo existencial e
no mais das vezes abre olhos e mentes de um povo
anestesiado pela preguiça mental de seus comandantes. E
uma sala de cinema também gera empregos.
Cinema é cinema, só essas tristes gerações que
cospem em minha direção e não tiveram o gosto de
olhar para uma tela grande podem se contentar com vídeos
dispensando a magia singular de uma sala de
cinema.
A cidade mais próxima daqui progride a 60km de distância
e para lá viajam casais escusos rumo ao anonimato dos
motéis. Algum pai viaja com seus filhos para levá-los
ao cinema?
*Homenagem
a Billy Wilder que gostava de ter um cadáver como
narrador em seus roteiros e Fred Zinnemann em cujo filme
A Sétima Cruz (The Seventh Cross-EUA-1944) faz uso do
mesmo expediente.