Cinema
por Lula Rodrigues

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20/Janeiro/2001

---DIMÔNIO, DEMONHO E DE-MÔ-NI-O

Humanismo era, e ainda é, com Truffaut. Os Incompreendidos é um exemplo da sua tentativa de entender a revolta e amargura de Doinel, o garoto abandonado.A infância violentada por problemas familiares, pelos transtornos ocasionados pela ocupação. Ao peso da temática Truffaut impôs a leveza de dua sensibilidade e talento. E seguiram-se outros filmes, A Idade da Inocência, O Garoto Selvagem... Poucos trataram a infância com a rispidez necessária e o carinho obrigatório dispendido por François Truffaut.

Robert Bresson faz a tentativa, a seu modo, em Mouchette mas é mais duro do que Truffaut, quase sórdido pode se dizer ao descrever o calvário de Mouchette uma garota em idade escolar.

Com O Balão Branco do Iraniano Jafar Panahi e roteiro de Abas Kiarostami a infância ganha outro tratamento, as crianças em sua pureza e vulnerabilidade deparando-se com os perigos do mundo adulto.Repleto de moralismo tenta impor goela abaixo uma radiografia da humanidade. Mas infância não é só isso, fragilidade e inocência , e O Balão Branco se presta à catarse dos adultos.

O real papel da infância está muito bem retratado, tanto na sua função como em sua dimensão psicológica, por Cecílio Neto com "A Reunião dos Demônios" rebatizada de "OS TRÊS ZURETAS".

Os três "demônios", Joaquim, Zézo e Pelé, se encontram numa cidade do interior de São Paulo em plenos anos 60. O trio tem em comum os problemas em casa e são chamados de demônios por seus pais.E de tanto serem chamados de demõnio passam a acreditar que têm um pacto com o "chifrudo".

Não podia faltar a figura do avô bonachão e liberal interpretada pela habitual competência de Cláudio Marzo, da avó carola e repressora, quase beata, defendida por Walderez de Barros e a doméstica problemática, que costuma bater com a cabeça na parede após se despedir do namorado, vivida por Ilana Kaplan no eterno papel da engraçada mais sem graça do Brasil: Ilana Kaplan.

Cecílio, também autor do roteiro, não pinta a infância com cores suaves e inocentes, OS TRÊS ZURETAS são cruéis com o mundo que os rodeia, com seus sonhos e com eles próprios: Os "demônios" se reunem frente a uma máscara de demônio ,que cultuam, e "oram" pedindo a morte

de um professor, xingam um deficiente mental cada vez que passam em frente à janela que emoldura sua tristeza e diante do inevitável enigma, "o que ser quando crescer", plaiboy um, rico o outro , Pelé diz que seu sonho é ser piloto de avião e Zezo, com sua séria maldade, diz ser impossível pois onde já se viu um "piloto preto"!

OS TRÊS ZURETAS abre os olhos da criançada das grandes cidades adeptas dos video games, computadores e Tvs que esquecem da vida real e o indispensável aprendizado fruto do convívio entre iguais e do trivial diálogo entre pais, avós, amigos, etc...Mas os demônios também obrigam os pais a "cerrarem" suas pálpebras na missão de ajudar que a primeira lágrima nostálgica nos abandone. As outras sairão sem esforço. Fundamentais.

E depois de OS TRÊS ZURETAS vejam TAINÁ, UM ANJO TRAPALHÃO e quem não se emocionar tem mais é que ver a xuxa.

 

OS TRÊS ZURETAS

Direção
Cecilio Neto

Elenco
Cláudio Marzo
Walderez de Barros
Ilana Kaplan

participação especial

Lygia Cortez
Assunta Perez
Angelo Brandini
Wandi

apresentando os meninos

Guto Coelho
Júlio Torres
Ronaldo França

Equipe Técnica

Roteiro e produção: A. S. Cecilio Neto
Assistentes de direção: Luís Dálmata Pinheiro e Hamilton Zini Jr.
Fotografia: Aloysio Raulino e Joel Lopes
Música: Leo Henkin e Oswaldo Sperandio



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