Cinema
por Lula Rodrigues

Comentários Anteriores


17/Março/2001

POUCAS E BOAS
 
Os riscos praticamente inexistem quando ao filmar escolhe-se como protagonista a música. Até Clint Eastwood conseguiu marcar seu gol de placa com Bird, Bertrand Tavernier também fez bonito em Por Volta da Meia Noite e Spike Lee acertou na trave com Mais e Melhores Blues.Imaginem quando o filme é dirigido por alguém que realmente conheça o jazz(Woody Allen) apresente um ator no seu melhor papel( Sean Penn) e uma grande atriz (Samantha Morton) como seu irretocável contraponto. Geralmente o contraponto não é o foco das melhores atenções por parte dos diretores e roteiristas. Mas estamos começando a falar de um filme de Woody Allen e é bom esquecer os equívocos infelizmente tão comuns.

É necessário muito talento aliado a uma técnica rigorosa para se destacar no papel de uma muda contracenando com um egocentrico e infantilóide. E Samantha Morton diz tudo com a precisão do olhar das grandes atrizes do cinema mudo.

Allen já declarara seu amor ao jazz em "Setembro" onde a melancolia é acentuada pela trilha sonora.

POUCAS E BOAS assim como "Sonhos de Um Sedutor", "Zelig" e a "Rosa Púrpura do Cairo" formam a confraria dos "filmes ilusionistas" onde Allen experimenta linguagens lançando mão de efeitos especiais embora mantenha na linha de frente o homem e suas agonias.

Os personagens de Allen, principalmente os interperetados por ele próprio, são seres solitários em busca de companhia o que no mais das vezes resulta em fracasso ou confusão. A saída então é a fantasia. Um exemplo é A Rosa Púrpura do Cairo. POUCAS E BOAS não deixa por menos.

Emmet Ray (Sean Penn) e um gênio maluco e não se cansa de se autoproclamar o maior violonista do mundo, excluindo-se um: o cigano francês Django Reinhardt, anda sempre armado e não perde oportunidade para realizar pequenos roubos. Rouba um cinzeiro de um apartamento onde tocava com amigos, ao chegar na rua joga no lixo. Na verdade é mais um patético anti-herói da galeria de Allen.

POUCAS E BOAS ilumina a preseguição desse fantasma. Ray idolatra Django, chora sempre que o escuta tocar. Conta que ao encontrar seu ídolo, a emoção foi tamanha que, desmaiou. Os músicos que acompanham Ray pregam-lhe uma peça antes de entrar em cena, avisando que Django está na platéia. Atordoado Ray tenta fugir pelo telhado.

POUCAS E BOAS é pura farsa, suposto documentário, na verdade mais uma narrativa nada ortodoxa, é costurado por depoimentos que vão espalhando diversas versões das histórias de Ray.

O espectador fica na dúvida sobre o que é verdadeiro e o que é fantasia. E com certeza a definição não faz a mínima falta.

A história de Ray é a história da maioria dos músicos dos anos 20 ricos artisticamente e em permanente crise econômica, minando seus talentos com as drogas. Ray é o Bird de Allen.

Egocêntrico acaba casando com uma muda dedicada e tão expressiva com o olhar que mesmo Ray, um machista , entende o que ela quer dizer. Mais tarde ela será abandonada..

"Gosto da companhia das mulheres, eu as amo mas não preciso delas. O verdadeiro artista é assim"

Suas diversões preferidas: admirar os trens e atirar nos ratos do lixão. Uma sequência das mais hilárias é justamente quando, em companhia da sua segunda mulher, está a admirar os trens.

Uma Thurman vive Blanche que fala pelos cotovelos e não cansa de interrogar Ray, diz estar escrevendo um livro e as horas vagas costuma preenchê-las com o guarda-costas de um gângster.

Chegada às interpretações psicológicas pergunta se aquele amor por trens tem origem na sua infância ou relação com os pais, o que leva Ray, do alto de sua erudição e sensubilidade, a perguntar se ela está a fim de transar com um trem.

"Meus sentimentos estão na minha música", costumava dizer. Mas Blanche não se rende: "Se liberasse seua sentimentos tocaria melhor".

Sean Penn numa grande interpretação dá vida a um Emmet Ray talentoso, egocêntrico,machista e ao mesmo tempo frágil, como costumam ser os machistas. Não desperta ódio muio menos amor.Um pouco de riso e muita pena.

POUCAS E BOAS tem o mérito de não ter sido fotografado pelo mestre das sombras Sven Nikivist e apresenta a fotografia correta de Fei Zaho.

Um intruso tenta chamar a atençao em vários momentos do filme: o microfone que, teimoso, insiste em aparecer.

 

 

 

POUCAS E BOAS
  02 Indicações ao Oscar: Melhor Ator (Sean Penn) e Melhor Atriz Coadjuvante
(Samantha Morton)
      02 Indicações ao Globo de Ouro: Melhor Ator em Comédia / Musical (Sean
Penn) e Melhor Atriz Coadjuvante (Samantha Morton)


Ficha Técnica
Título Original: Sweet and Lowdown
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 95 minutos
Site Oficial: www.alphafilmes.com.br
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Produção: Jean Doumanian
Música: Dick Hyman
Direção de Fotografia: Fei Zhao
Desenho de Produção: Santo Loquasto
Direção de Arte: Tom Warren
Figurino: Laura Cunningham
Edição: Alisa Lepselter
Elenco:
Sean Penn, Samantha Morton, Uma Thurman, Brian Markinson, Anthony LaPaglia, Gretchen Mol, Vincent Guastaferro e John Waters


Dê sua opinião.

  Luiz em meio à sua paixão

Lula Rodrigues (interino) viaja com a Maria João (foto) e vai ao cinema.