É necessário muito
talento aliado a uma técnica rigorosa para se
destacar no papel de uma muda contracenando com um
egocentrico e infantilóide. E Samantha Morton diz
tudo com a precisão do olhar das grandes atrizes do
cinema mudo.
Allen já declarara
seu amor ao jazz em "Setembro" onde a
melancolia é acentuada pela trilha sonora.
POUCAS E BOAS assim
como "Sonhos de Um Sedutor", "Zelig"
e a "Rosa Púrpura do Cairo" formam a
confraria dos "filmes ilusionistas" onde
Allen experimenta linguagens lançando mão de
efeitos especiais embora mantenha na linha de frente
o homem e suas agonias.
Os personagens de
Allen, principalmente os interperetados por ele próprio,
são seres solitários em busca de companhia o que
no mais das vezes resulta em fracasso ou confusão.
A saída então é a fantasia. Um exemplo é A Rosa
Púrpura do Cairo. POUCAS E BOAS não deixa por
menos.
Emmet Ray (Sean Penn)
e um gênio maluco e não se cansa de se
autoproclamar o maior violonista do mundo,
excluindo-se um: o cigano francês Django Reinhardt,
anda sempre armado e não perde oportunidade para
realizar pequenos roubos. Rouba um cinzeiro de um
apartamento onde tocava com amigos, ao chegar na rua
joga no lixo. Na verdade é mais um patético
anti-herói da galeria de Allen.
POUCAS E BOAS ilumina
a preseguição desse fantasma. Ray idolatra Django,
chora sempre que o escuta tocar. Conta que ao
encontrar seu ídolo, a emoção foi tamanha que,
desmaiou. Os músicos que acompanham Ray pregam-lhe
uma peça antes de entrar em cena, avisando que
Django está na platéia. Atordoado Ray tenta fugir
pelo telhado.
POUCAS E BOAS é pura
farsa, suposto documentário, na verdade mais uma
narrativa nada ortodoxa, é costurado por
depoimentos que vão espalhando diversas versões
das histórias de Ray.
O espectador fica na
dúvida sobre o que é verdadeiro e o que é
fantasia. E com certeza a definição não faz a mínima
falta.
A história de Ray é
a história da maioria dos músicos dos anos 20
ricos artisticamente e em permanente crise econômica,
minando seus talentos com as drogas. Ray é o Bird
de Allen.
Egocêntrico acaba
casando com uma muda dedicada e tão expressiva com
o olhar que mesmo Ray, um machista , entende o que
ela quer dizer. Mais tarde ela será abandonada..
"Gosto da
companhia das mulheres, eu as amo mas não preciso
delas. O verdadeiro artista é assim"
Suas diversões
preferidas: admirar os trens e atirar nos ratos do
lixão. Uma sequência das mais hilárias é
justamente quando, em companhia da sua segunda
mulher, está a admirar os trens.
Uma Thurman vive
Blanche que fala pelos cotovelos e não cansa de
interrogar Ray, diz estar escrevendo um livro e as
horas vagas costuma preenchê-las com o
guarda-costas de um gângster.
Chegada às
interpretações psicológicas pergunta se aquele
amor por trens tem origem na sua infância ou relação
com os pais, o que leva Ray, do alto de sua erudição
e sensubilidade, a perguntar se ela está a fim de
transar com um trem.
"Meus
sentimentos estão na minha música", costumava
dizer. Mas Blanche não se rende: "Se liberasse
seua sentimentos tocaria melhor".
Sean Penn numa grande
interpretação dá vida a um Emmet Ray talentoso,
egocêntrico,machista e ao mesmo tempo frágil, como
costumam ser os machistas. Não desperta ódio muio
menos amor.Um pouco de riso e muita pena.
POUCAS E BOAS tem o mérito
de não ter sido fotografado pelo mestre das sombras
Sven Nikivist e apresenta a fotografia correta de
Fei Zaho.
Um intruso tenta
chamar a atençao em vários momentos do filme: o
microfone que, teimoso, insiste em aparecer.