| A Última do Gilberto por Gilberto Strapazon |
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EU ODEIO JAZZ!!!!
Olha só
que barbaridade. Assistam ao vídeo da maravilhosa artista Hiromi
antes de continuarem a leitura Notaram
que o vídeo prima antes de qualquer coisa pela música apenas, não
é um vídeo, é apenas som de boa qualidade com fotos estáticas!
Cadê a artista? Cadê a performance? Quem fez
o vídeo estava mais preocupado com a qualidade sonora, quantos
bits, a equalização, isto e aquilo... Daria perfeitamente para
diminuir um pouquinho a qualidade do som e aumentar a qualidade das
imagens com movimento. A mulher
toca pra caramba, faz uma mescla de estilos, inclusive muito do
arsenal sonoro que ela apresenta tem raízes latinas e brasileiras. Mas no vídeo
infelizmente faltou a presença cênica da artista, por sinal uma
bela mulher, que antes de tudo, demonstra enorme capacidade
instrumental. E é bonita, uhmmmmm.... (estou disponível e a
procura). Faltou
mostrar a ambientação da banda, reduzida a estáticos flashes,
faltou o ruído do público, faltaram a sempre incontornáveis
desfocagens e tantas outras coisas. Ficou “clean” (limpinho)
demais. Quem fez
aquele vídeo deve gostar muito de Jazz, mas não gosta de mulheres,
nem de banda, nem de apresentações. Provavelmente toma um banho de
meia hora antes do sexo, usa luvas durante e imediatamente depois
toma outro banho de duas... Pode ter
coisa mais chata que aqueles que sabem o nome de todos acordes
dissonantes que tem neste ou naquele raríssimo disco de fulano ou
ciclano? Personalidades distintas que talvez você tenha escutado no
elevador ou nalguma sala de espera. Pior
ainda, se você fizer uma cara de desespero e revirar os olhos, eles
prontamente vão pensar que você está usando uma técnica de PNL
para estimular mais ainda o cérebro e com isto ficam prontamente
estimulados para discorrer longamente sobre os períodos de
ansiedade e depressão que Mr. Maravilha teve durante aquela fatídica
e longa noite que passou solitário com seus oito mil e quinhentos
tocos de cigarros de marcas variadas, tentando decidir se a dissonância
seria numa quarta aumentada ou numa décima terceira com nona sobre
si no baixo... Interrompendo,
só para quem não conhece, PNL é a sigla para Programação
Neo-Linguística, uma técnica que usa elementos originais da
hipnose, para que você conte segredos íntimos e depois te atordoar
até que teu cérebro comece a concordar com todas as coisas que o
terapeuta está falando. Isto inclui todo tipo de frases de efeito e
até algumas daquelas mensagens expertas que certos publicitários
estão usando para nos convencer que um automóvel pouco maior que
uma caixa de laranjas é algo enorme como aquela coisa que algumas
pessoas gostam. Na prática, é claro que precisa um tamanho razoável
sim, senão nem encosta dos lados, mas se for grande demais todo
mundo diz que machuca e fica com pouca movimentação. Além de ser
possível causa do deslocamento do maxilar, o que seria impensável
para uma daquelas maravilhosas divas do Jazz, que fazem a gente
lembrar porque o Sol é lindo e que Deus teve mais do que sete dias
para criar o mundo e fazer estas coisas tão belas. Só que
com este tempo adicional, os chatos tiveram mais tempo para analisar
a posição de postura da Diva de Jazz e concentra-se em tirar 416
fotos para apresentar, numa solene exposição, em que apenas toca a
música de fundo, com pouquíssimas fotos, geralmente meio escuras,
invariavelmente pequenas, em que o detalhe da sombra é tão
supervalorizado que às vezes precisa uma seta para saber aonde a
Diva aparece na foto. Pior ainda, é quando precisamos ler o catálogo
inteiro da exposição e mais alguns livros, e todo tipo de comentário
dos críticos de arte (geralmente amantes de Jazz) que confundiram
inadvertidamente a mostra com uma feira de padrões de roupas para
pingüins em preto e branco, e terminam por avolumar ainda mais a
confusão. Passada a ressaca cultural, conseguimos perceber que
aquele close de um momento tão íntimo com a platéia foi na
verdade uma resvalada do fotógrafo que captou a intensidade do
movimento acústico visualizado através do copo de plástico que
caiu na mesa... Mas tudo
bem, a qualidade sonora da música de fundo (CD) está ótima, é o
que mais importa. Melhor ainda se for um obscuro vinil, daqueles de
colecionador mesmo, sem nenhum arranhão, o que seria uma heresia
para a concorrida exposição de fotos. Quer dizer, pelo menos no
dia da abertura quando tem vinho de graça pra todo mundo. Mas tudo
bem, para que enxergar os músicos? O a bela Hiromi tocando piano?
Principalmente quando houver muitas pessoas com deficiência visual
na platéia. O importante é ouvir e sentir né? Se as pessoas são
interessantes, se o trabalho tem uma marcação cênica, ou bonitas
artistas, isto deve ser secundário, afinal de contas, quem disse
que quem gosta de Jazz também gosta de mulheres bonitas deve ter
entrado no show errado. E quem disse que a beleza não é
importante, nunca acordou no meio da noite com um dragão do lado,
nem teve um banho gelado ao abrirem-se os botões... E também
não tem nada a ver com a banalização do sexo. É só notar a
quantidade de jazz que toca em elevadores e filmes pornôs
norte-americanos. Pelo menos para música os gringos têm bom gosto,
porque sinto muito, pornô americano é uma droga. A maioria das
mulheres tem tanto silicone que dá a impressão que se baterem
nalguma coisa vão sair picando feito bola de praia. E a
performance? Ficam lá estáticas posando no pior estilo Playboy ou
Penthouse enquanto um coitado se despedaça numa expressão facial
que fica claro que deve estar chamando a imaginação no seu grau
mais elevado para conseguir alguma inspiração. Tem os
mais artísticos pornôs franceses, aliás, lá eles chamam de
soft-porno, com artistas mais famosas, mas que também gostam de
tocar jazz de fundo. Isto dá mais credibilidade de que estão
fazendo só pela arte. Algumas até são razoáveis, enquanto ficam
naquela expressão facial distante, pensativas, combinando com os
belíssimos arranjos dos melhores compositores de Jazz que já
tivemos neste planeta. Poucos
movimentos, olhares vagos e distantes, Jazz de fundo. É, acho que
isto combina... Só para
não deixar ninguém em desvantagem, os filmes alemães e italianos
são mais animados e a turma parece que está se divertindo mesmo. Não
raro tem muitas garrafas de bebida alcoólica pela cena, mas é para
beber mesmo viu? Isto aqui é um artigo sério seus pervertidos!
Muitos daqueles filmes são as filmagens de uma festa e, bem... Acho
que o assunto agora é outro. Claro que
o pequeno vídeo da Hiromi é uma desculpa. Tem DVDs, programas de
Jazz na TV, geralmente em horários em que a maioria das pessoas
normais estão precisando de alguma cafeína a mais no sangue para
ficar acordados, ou justamente no mesmo horário que tem outras
atividades que a maioria das pessoas daria prioridade. E claro,
os bares de Jazz. Boa parte toca música de primeiríssima, para um
público sonolento, ao redor da bebida da moda, ou algum Whiskey 12
anos, debatendo a singularidade da expressividade sistemática no
pensamento do compositor Sr. Y, que inovou a utilização da nota
semi-breve no trombone de vara lá pelos anos 30, consagrando um
estilo de tocar que foi fundamental no embasamento de algum novo
estado americano, portanto está nas raízes da música atual. Todo
este intenso debate é claro, acompanhado de pessoas interessantes e
inteligentes como ele, e que usam o tempo todo de técnicas de PNL
para buscar um melhor funcionamento de seus cérebros e... Alguns até
vão assistir meio extasiado aos músicos tocando, alguns fazendo
malabarismos com o corpo e mãos sobre o instrumento, que deixariam
minha fisioterapeuta ansiosa. Aproveitando o ensejo, estou fazendo
RPG e se se alguém precisar de uma ótima profissional aqui em
Porto Alegre posso indicá-la. Estarão em boas mãos profissionais.
RPG é uma técnica de correção de problemas de coluna, postura,
etc, muito supimpa. Terminado
o intervalo, assistir aos músicos de Jazz num desses recantos
privilegiados é algo de outro mundo. Sim, de outro mundo. Nenhum
fanaticão por Jazz acreditaria que é tão humano quanto qualquer
outra pessoa e que a carne e osso são diferentes. Tem lugar por aí
que só aceita convidados escolhidos tão criteriosamente, por
indicação (e um caro ingresso), assegurando o público será
formado previamente por pessoas que vão gostar do que vai ser
tocado, e também assegura que realmente só estará presente quem
vai aplaudir. Ou seja, risco zero. Aqui em Porto Alegre tem uma
senhora já de certa idade que tem um famoso show que é feito
assim. Pode ter suas qualidades musicais, mas o risco de ter alguém
na platéia que vai estar ouvindo algo inédito, e que talvez possa
democraticamente não gostar tanto, é zero. Só convidem que vai
aplaudir viu? Não sei quem pede isto, se os protetores, todos
amantes do Jazz, ou é tipo programa de TV em que ou aplaude ou rua! Muito fácil
tocar assim, isolando nossos ídolos do público. Colocando-os
escondidos atrás de fotos com som de fundo. Deixe-nos escutá-los,
mas como quem está com um amante, sentindo a pessoa, vendo,
compartilhando um pouco mais da sua qualidade humana. Ah claro
tem os músicos de Jazz também! São de dois tipos: os que são músicos
e o que são amantes do Jazz. Ai, ai. Fácil perceber qual o tipo
está tocando. Os amantes do Jazz não vão perder nenhuma chance de
mostrar que sabem aqueles acordes rebuscados com doze notas na mão
esquerda, estão concentrados demais no que estão fazendo e, é
comum que olhem a maior parte do tempo para os outros fazendo algum
tipo de sinal de que eles naquele instante devem prestar imensa atenção
ao mega-star para não perder nenhuma das 216 notas do próximo
compasso, ou para trocar um sorrisinho cheio de cumplicidade
indicando que conseguiram fazer de novo alguma coisa que treinaram
longamente e intimidade de seus quartos, digo, seus estúdios e, de
forma geral, parecem estar tocando na TV, pois desconhecem
amplamente o público presente, ao qual obviamente compete ficar o
mais extático possível, sem atrapalhar a performance, ou pelo
menos, não pedir ao garçom para tocar “Parabéns a você” pelo
colega aniversariante ou “aquela” música especial do filme que
ganhou o prêmio nalgum sofisticado e elitizado Festival Europeu de
Cinema Neo-Independente. Mas
claro, que cenas do tipo “Play it again Sam” são factíveis, e
como qualquer um que toque na noite, ninguém está imune a sofrer
abordagens deste tipo, o que não significa que vão atender alguma.
Às vezes sim. Sei que
tem gente que só faz amor (ou trepa mesmo) no escuro. Mas ainda
assim, tem sensações físicas, tato, cheiros, gostos, etc. Agora,
pegam uma coisa tão sensorialmente ampla como o Jazz, apagam a luz,
tiram a sensação física, tudo, e sobra o quê? Estímulo acústico
sexual somente no fundo da orelha? Variante de cotonete lubrificado? O pior do
Jazz é o pessoal que gosta de Jazz. Costumo dizer que esta gente não
gosta de Jazz, o que ele gostam é de “Jéééiiizzzz...”
fazendo biquinho, levantando a ponta do mindinho direito num sinal
intelectual secreto dos antigos sábios de alguma oculta
universidade mais conhecida pelas suas participações na evocação
da permeabilidade cultural do antagonismo estético sobre as labutações
orgânicas. É como
goiaba. Quem não gosta de comer bicho, não come goiaba. Se tivesse
Jazz sem tanto chato, seria como goiaba sem bicho. Sim, eu como
algum sorvete de goiaba às vezes, mas os chatos, digo, os bichos não
estão aparentes e posso desfrutar do meu Jazz, digo, meu sorvete de
goiaba em paz. Como toda
música que tem raízes na cultura negra, acredito que este
delicioso enlevo sonoro será um dia libertado, e poderemos apreciar
Jazz sem tantos acessórios estéticos que servem apenas como
amarras aos ouvintes. E sem bicho da goiaba, digo, os chatos. Gilberto
Strapazon |
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Gilberto
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