| Teatro por Gustav Marhaban |
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| ESPERANDO UMA ATRIZ por Luíz Horácio O resumo do curto (menos mal) espetáculo é o seguinte: os atores são figurantes e uma entrevistadora de TV interpretando a si própria é a protagonista. Dedicada debate-se entre o esforço desmedido e o patético na frustrada intenção de representar. Durante quase 50 minutos os espectadores testemunham uma apresentação digna de uma aluna iniciante do curso de artes cêncicas,obediente e voluntariosa. No caso em questão acrescente uma pitada, nada modesta, de arrogância. Entre caretas , um bem ensaiado roteiro de passos e gestos, além de um texto "decorado", a entrevistadora faz de tudo, menos interpretar. Afinal de contas, estando no papel dela mesmo ( no espetáculo atende por Gabi ) bastaria decorar o texto para ser teatro? E estando Gabi, que não é atriz e está muito longe de ser, no centro do palco a desfiar um texto e a tal chamar de teatro, é justo a cobrança de ingresso? E o sindicato, geralmente tão atuante em questões menores e extremamente corporativista, não se opõe? ESPERANDO BECKETT em cartaz no Teatro do SESC- Copacabana é um espetáculo onde tudo é falso, o único suspiro de verdade é Gabi(infelizmente) e seu clown sem alma. Gerald Thomas na função de diretor está irrepreensível pois faz da "entrevistadora" o que bem entende, desconfio que inclusive a monitora utilizando-se de ponto eletrônico, o que não fugiria à realidade da protagonista. Mais uma vez o dedo do horror de Thomas está presente , agora menos sanguinolento, em seu espetáculo. Gabi abre a geladeira revelando em seu interior o tronco de uma mulher loira. Em Quartett, de Heiner Müller os dois personagens movimentam-se entre enormes pedaços de carne suspensos num cenário onde escorre sangue por todos os lados lembrando um açougue, em Matogrosso havia pedaços de corpos espalhados pelo chão, coração e cabeça arrancado em The flash and crash days e o pseudo cadáver em Nowhere man. Mas o espetáculo não é ESPERANDO BECKETT, o que Beckett tem a ver com isso? Muito pouco, quase nada. "Nada a fazer" O que fazer, ou melhor o que dizer quando num estúdio, exageradamente escuro ,de TV por onde circulam obscuros elementos, aqui o desperdício da Cia.de Ópera Seca, em trajes de gosto discutível, uma alinhadíssima entrevistadora em seu terno preto confere os últimos detalhes e aguarda a chegada de seu entrevistado? Enquanto isso, sentada e bem iluminada, a maquiadora passeia seus olhos por uma revista que estratégicamente traz na capa Gabi e seu namorado. Várias vezes abandona seu banquinho e na pele da mesma e caricata personagem vivida por ela em NxW e Ventriloquist vai até Gabi e retoca cabelo, maquilagem... "Nada a fazer" O cenário não tem nada a ver com o universo da desesperança de Beckett e o texto, embora a dicção exemplar de Gabi, perde o tom assustador da poética beckettiana. Em ESPERANDO BECKETT não se faz notar a imprescindível relação teatral entre palavras e imagens. O diretor optou pelo efeito em detrimento de uma humanidade que poderia ser conferida por Gabi caso esta tivesse condições para conceder uma dimensão interpretativa à altura do texto. Os personagens de Beckett são homens presos em seus corpos que evitam ao máximo a integração com o restante da humanidade, contemplar já é o bastante, têm em comum o desprezo pela vida. Por exemplo, em Fim de Jogo temos Hamm-paralítico e cego,Clov que não pode sentar. Os pais de Hamm, Nagg e Nell-não têm pernas e moram em latas de lixo,Winnie em Dias Felizes está enterrada na areia. Em ESPERANDO BECKETT percebe-se uma tênue presença de Beckett justamente no tendão de Aquiles da peça: a suposta atriz. Se Beckett teve em Billie White sua atriz fetiche, aquela que melhor o compreendeu e com ela encenou diversos textos para tanto ensaiando a exaustão mesmo quando aparecia apenas sua boca, Gerald teve em Gabi sua Billie, com um agravante: desprovida de talento. Algumas atrizes talentosas não conseguiram se adaptar ao rigor de Becket. Pelo visto Marília Gabriela, que em seu elegante terno preto nada condizente a um personagem de Beckett, conseguiu se adaptar sem problemas ao método Gerald. Falta à Marília Gabriela talento e formação, à sua voz singular falta técnica vocal. Ao excesso de ruídos e trilha sonora faltou o silêncio, a escuridão e o esquecimento próprios do teatro de Beckett. O espectáculo cujo único momento teatral ocorre quando da chegada de Beckett, embora lembre cena de "O Exorcista", deixa a desejar justamente onde o teatro de Beckett é pródigo, o uso dos sons e suas repetições na construção de um mundo sem saída. Ah! Gabi não é um persongem de Beckett. Pois bem. É um personagem de Gerald vivendo um texto de Beckett? Não. Mas é a própria Gabi que está no palco, vivendo Gabi. Ah! Então ela é personagem dela mesma. Mas e o texto? Ora esqueça o texto. Enfim, tenha a certeza caro espectador que ao terminar ESPERANDO BECKETT duas pessoas estarão rindo de você. Uma totalmente vestida de preto, a outra de longos cabelos crespos, óculos e seu inseparável cigarro. |
Concepção e Direção Colaboração no texto Participação Iluminação Figurinos
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ESPERANDO PARA VER...A VOZ
ESPERANDO BECKETT apresenta Maríla Gabriela como uma entrevistadora de TV que está esperando seu convidado, Beckett. Marília contou que não foi a primeira vez, embora pouquíssimas, que recebeu um convite para interpretar mas que dessa vez com Gerald deu vontade. "Pois se ele viu uma possibilidade então valeria a pena. Era uma experiência que eu gostaria de ter" MONÓLOGO - "Eu acho uma viagem solo mais fácil pra quem vai começar. Contracenar poderia atrapalhar alguém. Como tenho paixão pelas palavras, facilidade com elas...achei que bem dirigida me sairia bem" FACILIDADES - "Tem sido bom, não é fácil. O Gerald permite a iniciativa do ator e depois corrige. Sempre com muito carinho" CRÍTICAS - "Provavelmente aos 50 eu esteja mais preparada do que aos 30. Provavelmente eu venha a me aborrecer com uma coisa ou outra. Costumo dizer que a opinião dos outros é dos outros. A opinião dos outros é um problema deles mesmos. Gosto demais do que faço e estou atriz com muita alegria. Acho difícil abandonar uma carreira e começar outra." GERALD - Parece mentira mas Geald pouco falou, manifestou-se quando solicitado a contar o espisódio de seu encontro com Beckett em Paris e justificou a escolha de Maríla por causa da voz "Quem está no palco não é um personagem é Marília Gabriela. Eu jamais conseguiria esta fusão de uma pessoa que tem uma voz no cenário da cultura brasileira e ela é a voz. A PERGUNTA IMBECIL SEMPRE PRESENTE - "Eu sempre quis saber como é esse processo de criação. Eu tenho uma colcha de retalhos de informações. Perguntei a Marília Pêra e a Ana Carolina como é que se decora. E estou utilizando esses dois processos que tirei das entrevistada" SER BECKTIANO - "Eu me considero um ser becktiano, uma pessoa como outra qualquer, cheia de indagações e que se permite "pirar". Se nos momentos de crise cada um de nós disser em voz alta o que nos incomoda então saberemos que somos todos becktianos" É ver para crer! Ou não. |
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Gustav Marhaban adora teatro. |