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Celina Sodré surpreendente
por Elaine Pauvolid*
Celina Sodré surpreende uma vez mais com a
peça: Ispíritu Incarnadu. Na verdade, uma experimentação ao estilo
das instalações de Lygia Clark, levando-se em conta as diferenças
de linguagem e fazendo a analogia seguindo o impacto causado no
público.
No caso de Lygia que interage por meio da ação do
fruidor sobre as instalações, no caso de Celina Sodré, na
elaboração interna do espectador ao longo da performance, o que
seguindo o conceito de obra aberta de Umberto Eco, nada mais é que
ação em seu sentido mais estrito.
Assim como o visitante das peças interativas e sensórias de Lygia,
que ainda podem ser fruídas no Museu de Arte Moderna, na exposição Sensorial
Lygia Clark até dezembro, o espectador de IspírituIncarnadu
experimenta aparentes novas sensações e se descobre outro ao
reconhecê-las como bastante familiares.
O outro que somos todos, o outro universal, o sensório, o espiritual
em sentido amplo.
Na performance, somos tingidos diretamente por cinco frases de
Guimarães Rosa repetidas por um ser amarrado num banco com as solas
dos pés voltadas para cima em um cenário armado apenas com ele mesmo
e luzes que variam no decorrer da apresentação.
Um espetáculo de horror onde as solas dos pés ao contrário nos
remetem ao inferno dantesco onde os traidores dilaceram-se em avessos
e sufocamentos.
O espectador é confrontado com sentimentos contraditórios do mal, do
desespero do erro consciente e o apaziguamento que não só estão nas
frases do nosso maior autor nacional como na entoação da voz na
atriz, nos movimentos e na luz presentes na peça.
A performance atinge a comunicação com o público uma vez que
saímos da encenação de alma lavada, purgados pelo sofrimento do
outro, na verdade íntimo nosso. E por não nos sentirmos mais tão
sozinhos na dor, é que podemos dizer que C.S. se comunica com o
público liberto, juntamente com ela, através da sublimação da
compulsão à realização do mal a si mesmo, pois o pobre diabo
sempre será responsável pela sua danação.
A duração é de 20 min. e a atriz está totalmente cega por uma
venda. O público não percebe esta cegueira pois a venda está
disfarçada em máscara. Só depois, no debate que acontece depois da
peça, é que sabemos disso. Esta nossa ignorância se deve mais à
intenção autoral do que a nossa sensibilidade. Todos os movimentos
são estudados e os "olhares" direcionados a cada pessoa da
platéia, cujos bancos estão posicionados estrategicamente.
Saber do diabo cego é ainda um complemento para o efeito produzido
pelo espetáculo. O público encarado pelo demônio, sustenta o olhar
ou recua dele. Então, se a o demônio estava cego, que foi encarado
ou temido? Mas logo pensamos: não, quem estava cega era a atriz, que
sem maquiagem e a roupa rústica apresenta-se como mulher delicada e
risonha. O demônio estava lá.
Após o espetáculo, quis saber como chegaram ao
texto de Guimarães Rosa que assim como se fez em Tanestruft, o
país do medo, comentado neste site, também não sofreu nenhuma
modificação. Lembremos que mesmo assim, isto já é uma adaptação,
pois trata-se de teatro e o teatro só se realiza com a
transformação do texto literário em dramático e para que isso
aconteça não se precisa mexer no texto literalmente.
O importante é que o texto tal qual o autor escreveu permaneceu
imutável. C.S. possui a capacidade de levar peças que ao mesmo tempo
contemplam as necessidades do teatro e ressaltam a potência do texto
literário.
Em Tanestruft, o texto de Clarice Lispector, A Paixão
Segundo G.H. foi pinçado pela atriz e estudiosa de Literatura
(doutoranda da UFRJ) Gabriela Lírio sem nenhuma paráfrase, nada
além do recorte e da colagem.
Nesta nova encenação, em que Guimarães Rosa é o mestre, as frases
foram retiradas de um Glossário da obra do autor. Ou seja, pouco
importa de que obra surgiram, o sentido delas recortadas de seu
contexto foi o que interessou às duas artistas, que partiram
literalmente do nada e chegaram a construção da cena que levou ao
texto fechando um ciclo temático que nunca termina, o da
responsabilidade do viver e do desespero de nunca saber.
* Elaine Pauvolid coordena o
Sarau João do Rio, encontro semanal entre poetas e escritores, para
saber disso: 205-1706, não há nenhuma espécie de cobrança senão a
que se refere à busca da qualidade literária e poética.
Ficha técnica
Direção: Celina Sodré
Atriz: Denise Stutz
Dramaturgia física: Celina Sodré e Denise
Stutz
Iluminação: Mauricio Cardoso
Assistência de direção: Gustavo Barros
Programação visual:Keller Veiga
Espaço e figurino: Celina Sodré
Imagem Slide: Le scribe accroupi, Museu do
Louvre
Frases: Guimarães Rosa
Trabalho dedicado à memória de Guimarães Rosa
Informações: 225-5512 |