Teatro
por Gustav Marhaban

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1º/Dezembro/2000

Celina Sodré surpreendente
por Elaine Pauvolid*

Celina Sodré surpreende uma vez mais com a peça: Ispíritu Incarnadu. Na verdade, uma experimentação ao estilo das instalações de Lygia Clark, levando-se em conta as diferenças de linguagem e fazendo a analogia seguindo o impacto causado no público.

No caso de Lygia que interage por meio da ação do fruidor sobre as instalações, no caso de Celina Sodré, na elaboração interna do espectador ao longo da performance, o que seguindo o conceito de obra aberta de Umberto Eco, nada mais é que ação em seu sentido mais estrito.

Assim como o visitante das peças interativas e sensórias de Lygia, que ainda podem ser fruídas no Museu de Arte Moderna, na exposição Sensorial Lygia Clark até dezembro, o espectador de IspírituIncarnadu experimenta aparentes novas sensações e se descobre outro ao reconhecê-las como bastante familiares.

O outro que somos todos, o outro universal, o sensório, o espiritual em sentido amplo.

Na performance, somos tingidos diretamente por cinco frases de Guimarães Rosa repetidas por um ser amarrado num banco com as solas dos pés voltadas para cima em um cenário armado apenas com ele mesmo e luzes que variam no decorrer da apresentação.

Um espetáculo de horror onde as solas dos pés ao contrário nos remetem ao inferno dantesco onde os traidores dilaceram-se em avessos e sufocamentos.

O espectador é confrontado com sentimentos contraditórios do mal, do desespero do erro consciente e o apaziguamento que não só estão nas frases do nosso maior autor nacional como na entoação da voz na atriz, nos movimentos e na luz presentes na peça.

A performance atinge a comunicação com o público uma vez que saímos da encenação de alma lavada, purgados pelo sofrimento do outro, na verdade íntimo nosso. E por não nos sentirmos mais tão sozinhos na dor, é que podemos dizer que C.S. se comunica com o público liberto, juntamente com ela, através da sublimação da compulsão à realização do mal a si mesmo, pois o pobre diabo sempre será responsável pela sua danação.

A duração é de 20 min. e a atriz está totalmente cega por uma venda. O público não percebe esta cegueira pois a venda está disfarçada em máscara. Só depois, no debate que acontece depois da peça, é que sabemos disso. Esta nossa ignorância se deve mais à intenção autoral do que a nossa sensibilidade. Todos os movimentos são estudados e os "olhares" direcionados a cada pessoa da platéia, cujos bancos estão posicionados estrategicamente.

Saber do diabo cego é ainda um complemento para o efeito produzido pelo espetáculo. O público encarado pelo demônio, sustenta o olhar ou recua dele. Então, se a o demônio estava cego, que foi encarado ou temido? Mas logo pensamos: não, quem estava cega era a atriz, que sem maquiagem e a roupa rústica apresenta-se como mulher delicada e risonha. O demônio estava lá.

Após o espetáculo, quis saber como chegaram ao texto de Guimarães Rosa que assim como se fez em Tanestruft, o país do medo, comentado neste site, também não sofreu nenhuma modificação. Lembremos que mesmo assim, isto já é uma adaptação, pois trata-se de teatro e o teatro só se realiza com a transformação do texto literário em dramático e para que isso aconteça não se precisa mexer no texto literalmente.

O importante é que o texto tal qual o autor escreveu permaneceu imutável. C.S. possui a capacidade de levar peças que ao mesmo tempo contemplam as necessidades do teatro e ressaltam a potência do texto literário.

Em Tanestruft, o texto de Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H. foi pinçado pela atriz e estudiosa de Literatura (doutoranda da UFRJ) Gabriela Lírio sem nenhuma paráfrase, nada além do recorte e da colagem.

Nesta nova encenação, em que Guimarães Rosa é o mestre, as frases foram retiradas de um Glossário da obra do autor. Ou seja, pouco importa de que obra surgiram, o sentido delas recortadas de seu contexto foi o que interessou às duas artistas, que partiram literalmente do nada e chegaram a construção da cena que levou ao texto fechando um ciclo temático que nunca termina, o da responsabilidade do viver e do desespero de nunca saber.

 

* Elaine Pauvolid coordena o Sarau João do Rio, encontro semanal entre poetas e escritores, para saber disso: 205-1706, não há nenhuma espécie de cobrança senão a que se refere à busca da qualidade literária e poética.

 

Ficha técnica

Direção: Celina Sodré
Atriz: Denise Stutz
Dramaturgia física: Celina Sodré e Denise Stutz
Iluminação: Mauricio Cardoso
Assistência de direção: Gustavo Barros
Programação visual:Keller Veiga
Espaço e figurino: Celina Sodré
Imagem Slide:
Le scribe accroupi, Museu do Louvre
Frases: Guimarães Rosa
Trabalho dedicado à memória de Guimarães Rosa
Informações: 225-5512


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Luiz em meio à sua paixão

Gustav Marhaban adora teatro.