Teatro
por Gustav Marhaban

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20/Janeiro/2001

A COISA VAI MAL, MINHA GENTE, MUITO MAL...

Tenho sido acometido ultimamente de um ódio quase que xiita da classe artística, sem exceções: não tenho poupado atores, diretores, músicos, bailarinos e poetas. Ninguém. Tenho tido delírios noturnos de um homicídio lento e doloroso, de um massacre coletivo. Meu ódio aumenta, quando não posso tomar uma atitude fria e distanciada, já que sou ator formado e faço parte deste "time". Ou melhor, não faço. Mesmo que eu queira.

Deixe eu me explicar: faço parte de um grupo que escolheu um caminho- o único que acredito possível- lento e árduo para se autoproclamar artista. Fiz uma faculdade. Que muito pouca gente que se diz apreciadora de teatro conhece: A Uni-Rio. Ali, durante quatro anos, estudamos o teatro e a arte da representação diariamente e passamos por várias níveis de aprendizado para subir ao palco. Estudamos História da Arte, do Teatro Moderno, Estética Clássica, Psicologia, Artes Plásticas, Folclore, Técnicas de Expressão Vocal e lemos, lemos muito. Quando nos formamos, estamos aptos para encarar qualquer desafio e derramar nossos talentos pelos palcos e telas de todo o país e do mundo, mas, nos faltou uma aula: educação física. Esquecemo-nos de ficar com o corpinho perfeito. Demos tanto valor aos livros e conceitos teatrais que nossos corpinhos não nos acompanharam.

Alguns colegas de faculdade com o corpo bonitinho até tem conseguido um ou outro trabalho na tv, mas nunca como protagonistas, porque, infelizmente, nos anos de estudo, adquiriram algum talento, coisa que muito dificulta para que você consiga um bom papel numa novela.

Eu achava que este fenômeno acéfalo era próprio da televisão e que o teatro era um templo inatingível e indomável; claro que sempre existiram espetáculos absurdamente comerciais que lotaram salas com rostos conhecidos e "comediantes" vulgares que tinham como único função, fazer rir um público que se contentava com um texto chulo e uma interpretação simplória e caricata. Mas isto era uma parcela muito insignificante. Porém, o "templo teatral" tem sido profanado por uma horda de rostinhos bonitos, corpos perfeitos e inexperientes de todos os tipos que juram amar ao teatro sobre todas as coisas. Até diretores que por muito tempo respeitei e admirei têm se apoiado no sucesso destes "artistas" para obter mais sucesso ainda ( $$$ ) em suas peças. A grande maioria dos espetáculos oferecidos e indicados ( ! ) nas últimas temporadas fazem parte deste fenômeno. Galãs sorridentes e mocinhas carismáticas, corpos bonitos, nu artístico, texto consagrado ou de fácil assimilação, nomes conhecidos na ficha técnica, muita grana de um patrocínio ou incentivo cultural cruel e mafioso e... voilá: sucesso garantido! O público ama, a crítica elogia, a mídia dá espaço demais e os verdadeiros artistas estão na platéia ( se tiverem grana pro ingresso ) ou trabalhando atrás de um balcão de shopping center.

Tenho conversado com alguns amigos que também se formaram e nenhum está trabalhando, não em teatro. São animadores infantis ( que ódio desta profissão, quem inventou tinha que levar um tiro na testa! ), professores de aulinhas de teatro em cursinhos de pouca repercussão, fazem "projeto escola" ( antes, a morte! ), trabalham em telemarketing, pensam em fazer concurso público ou estão desempregados mesmo. Todos assistindo pasmos ao nosso espaço sendo invadido e ocupado por indivíduos que nunca poderiam desempenhar a função, simplesmente porque não estão habilitados. Um médico não opera sem seus anos de estudo, sem residência, diploma, habilidade. Com um ator não poderia ser diferente. E não é.

Vivemos num país onde qualquer pessoa se torna notória do dia pra noite, basta ser político, piranha, traficante, jogador de futebol ou ator da Globo. Não importa o seu passado, sua índole, seu talento, se você matou sua família e foi ao cinema ou tem pacto com o demo, tá na mídia, tá valendo.

A coisa vai mal, muito mal e a tendência é piorar. E quem tiver soluções, dicas, ou qualquer luz para esta situação, que aja rápido. Espalhe sua indignação por emails, fax, fanzines, ondas piratas, telepatia, cartas aos jornais ou código morse. Vale tudo pra salvar o planeta. A arte agradece.

 


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Gustav Marhaban adora teatro.