LITERATURA
por Luiz Horácio

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13/Janeiro/2001

BA - ER - ZA - KE, a força e a beleza das palavras

"Podia me dizer, por favor, qual é o caminho para sair daqui?"
"Isso depende muito do lugar para onde você quer ir", disse o Gato.
(Alice no País das Maravilhas, capituloVI)

Ampliando detalhes Balzac construiu A Comédia Humana, um mundo onde tudo é possível, onde o operário de hoje pode ser o patrão de amanhã sem com isso eliminar da estrutura social a figura do operário. O homem explorando o homem. Tal observação em harmonia com a imaginação pode implicar em grande perigo caso o governo não respeite as discordâncias, as aspirações, frutos da imaginação e em última instância,cultive um menosprezo pelas liberdades individuais. Nada mais sintomático que o livro do cineasta chinês, que relata um singelo acontecimento durante o período sob o comando do "grande timoneiro", trazer no título o nome do escritor francês tão preocupado com a condição humana.

BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA de Dai Sijie com tradução de Vera L. Dos Reis-Ed. Objetiva-Rio-2000 é a estréia literária desse cineasta chinês que reside na França há 15 anos onde dirigiu três filmes. Em breve, BALZAC E A COSTUREIRINHA estará nos cinemas.

BALZAC E A COSTUREIRINHA é um pequeno corte da vida na China durante a revolução de 1968 quando Mao Tse-Tung funda as bases de Revolução Cultural e ergue a muralha do isolamento. Universidades foram fechadas e professores e universitários são enviados aos campos para serem "reeducados por camponeses". Livros são proscritos. Menos os do próprio Mao,os técnicos e as obras que pregam o comunismo.

É esse o cenário onde o narrador e seu amigo, Luo, classificados como intelectuais, "inimigos do povo" são jogados aos camponeses para serem reeducados.Os amigos amassam seus dias arando a terra, soterrados em uma mina de carvão ou transportando esterco na montanha da Fênix Celestial.

Como o futuro é produto da liberdade o futuro da dupla está sempre muito próximo, o novo amanhecer. E mais nada. A expectativa e confiança em retornar à vida normal se materializa no chaveiro do narrador onde ele carrega seu canivete e as chaves de sua casa em Chengu. Confiança que quase se desfaz na pergunta:

"Quem um dia me libertará desta montanha?"

Unindo o não tão útil ao menos desagradável inventam artifícios que os afaste da aldeia na montanha onde sofriam a "reeducação"

Mantinham um acordo com o chefe do "reeducandário". Iam até a cidade mais próxima assistir a filmes que depois seriam narrados à uma platéia cujo isolamento a privava de qualquer atrativo fora a sobrevivência.

Luo, embora desnutrido, angustiado com o futuro e sofrendo com a insônia, não parava de crescer e na companhia do seu amigo foi procurar o alfaiate para alongar sua calça em cinco centímetros. O alfaiate estava viajando mas os dois amigos não perderam a viagem.Conhecem sua filha, a Costureirinha, a moça mais bonita e atraente daquela cinzenta região que acenderá intensas emoções em ambos.

Mas os dois amigos tinham um outro amigo, também condenado à reeducação, Quatro-olhos que vivia morrendo de medo e escondia cuidadosamente uma valise secreta.

TRECHO

"Aproximamo-nos da valise. Estava amarrada com uma grossa corda de palha, em forma de cruz. Desfizemos os nós e abrimos silenciosamente. Dentro da valise, pilhas de livros iluminaram-se sob o feixe de luz da lanterna. Grandes escritores ocidentais nos acolheram de braços abertos: à frente, estava nosso velho amigo Balzac, com cinco ou seis romances, seguido de Victor Hugo, Stendhal, Dumas, Flaubert, Baudelaire, Romain Rolland, Rousseau, Tolstoi, Gogol, Dostoievski, além dos ingleses, como Dickens, Kipling, Emily Brontë...

Que deslumbramento! Tive a sensação de desmaiar nas brumas da embriaguez. Tirei um por um todos os romances da valise; abri-os, contemplei os retratos dos autores e passei-os a Luo. Só de tocá-los com a ponta dos dedos tinha a impressão de que minhas mãos, que empalideceram, estavam em contato com vidas humanas."

Da descoberta da valise até o final BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA transforma-se numa fábula semelhante a todas fábulas, simplistas por vezes tendenciosas, onde o oprimido de hoje será o opressor de amanhã. Mas é para o bem do outro que ele faz isso alguém justificará. Concorda então que os amigos estavam condenados para seu próprio bem?

"-Mas eu quero ler todos eles - teimou Luo.

Fechou a maleta e , pondo a mão sobre ela, como um Cristão faz um juramento, declarou:

- Com estes livros, vou transformar a Costureirinha. Ela nunca mais será uma simples montanhesa."

O poder da leitura como deflagrador de transformações. No caso dos amigos em "asas para a liberdade".

O contato, permanente, com a literatura de ba-er-za-ke equilibra aqueles seres que até então são meros corpos, quase marionetes, despertando-lhes a consciência para um mundo além do "livro vermelho".

A Costureirinha, com seu encanto e sedução, é na verdade a grande metáfora da "palavra" e seus encantos : mimetismo, força e incostância.

" - Ela me disse que Balzac fez com que compreendesse uma coisa: a beleza de uma mulher é um tesouro que não tem preço."

Dai Sijie narra com a isenção de quem não faz apologia deste ou daquele princípio político mas deixa clara a convicção das suas palavras em defesa da liberdade.

BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA
Título Original: Balzac et la petite tailleuse chinoise
Autor: Daí Sijie
Tradução : Vera Lúcia dos Reis
156 páginas
R$ 18,90
Editora Objetiva
Tel: 21 556-7824
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www.objetiva.com.br
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