--CLICHÊS,
SUBLIMAÇÃO E SILÊNCIO: A ENCRUZILHADA
-"Não há nada tão estúpido
como vencer. A verdadeira glória repousa em
convencer."
Victor Hugo
DISSONÂNCIAS
de Marilu Valente-ed. Nova Fronteira-Rio 2000 narra, e
aqui reside a questão, a via-crucis da protagonista
através da psicanálise. E narrar em psicanálise
significa ambigüidade. Marilu porém é básica e narra
a história manjada. A autora em seu romance de estréia
tropeça em armadilhas facilmente identificáveis e se
não se deixa apanhar é graças a sua indiscutível
capacidade de burilar o texto tornando, mesmo com um
enredo comum e moralista, leve o fardo para o leitor.
Marilu segue a
discutível tendência de rechear a narrativa com outras
informações que permitem ao leitor admirar o
conhecimento e a erudição do autor. Mesmo que tal
conhecimento seja irrelevante ao enredo. Alguns já
difundiram seus conhecimentos sobre sapos, facas,
pulseirinhas disso e daquilo. Marilu utiliza-se da música
na tentativa de colocar som num enredo onde o silêncio
e a sublimação dominam a cena.
A violoncelista
Elisa Vradova, russa naturalizada americana, encontra-se
em plena crise dos 40 anos. O medo de encarar a platéia
estimula a criatividade da moça, não tão moça, e ela
inventa desculpas. Concertos são cancelados e Elisa
acaba no divã do fatídico e inevitável psicanalista.
Na página 20 o
dr. Julius Landau entra em cena acompanhado dos mais
batidos clichês, quer literários, quer psicanalíticos.
Observações
sobre o mutismo do dr. Landau combinados com a atração
mútua colaboram para azedar toda boa vontade que se
possa ter com a estreante Marilu Valente. Mas isso ainda
não é tudo. No passado Elisa viveu um romance com Max
, explodido pela mãe, seu quase padrasto e atualmente
leva aos trancos, barrancos e monotonia um romance com
Peter que não é nada simpático às suas sessões com
o dr. Landau.
Caro leitor você
se engana redondamente se pensa que isso é tudo.
Dr .Landau, o
silencioso Dr. Landau, reside no mesmo prédio de seu
consultório, alguns andares acima, casado, adora música
clássica, era um excelente clarinetista ( coincidência?)
e tem um casal de filhos.
O caro leitor
está pensando que isso é tudo? Falta o clichê dos
clichês.
O dr.
devidamente treinado para não cair em armadilhas
sentimentais já mordeu a isca e o conflito está
estabelecido. Como já foi dito o dr Landau é casado.
Fica faltando um ingrediente decisivo então. Qual?
Acertou se você respondeu " a esposa problemática
que impede a felicidade do herói". Pois o obstáculo
existe: a esposa do Dr. Landau, vitimada por um derrame
que limitou seus movimentos ao movimento de uma cadeira
de rodas.
Elisa
recupera-se, readquire a confiança, seu romance com
Peter ganha fôlego e sua mãe esclarece as razões pelas
quais impediu seu romance com Max, décadas mais velho.
Enfim o fim
estaria a imaginar o caro leitor? Nada disso.
Falta decidir a
vida do Dr. Landau, o ético, o modelo, o exemplar chefe
de família, que destino ele dará aos seus sentimentos
por Elisa, pela sua paciente?
Terá o dr.
direito a felicidade ou a situação de Rachel, sua
esposa, lhe destina um mero rascunho da felicidade?
Um acorde
moralista e fecham-se as cortinas. Está encerrado
DISSONÂNCIAS. Com silêncio e muita sublimação.
Diante dos
fatos relatados torna-se indispensável a leitura, e o
estudo, da obra do analista didata da Societá Psicoanalítica
Italiana e da International Psychoanalytical Association
, Antonino Ferro, publicada pela editora IMAGO-
Rio-2000, A PSICANÁLISE COMO LITERATURA E TERAPIA.