LITERATURA
por Luiz Horácio

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27/Janeiro/2001

--CLICHÊS, SUBLIMAÇÃO E SILÊNCIO: A ENCRUZILHADA

-"Não há nada tão estúpido como vencer. A verdadeira glória repousa em convencer."
Victor Hugo

DISSONÂNCIAS de Marilu Valente-ed. Nova Fronteira-Rio 2000 narra, e aqui reside a questão, a via-crucis da protagonista através da psicanálise. E narrar em psicanálise significa ambigüidade. Marilu porém é básica e narra a história manjada. A autora em seu romance de estréia tropeça em armadilhas facilmente identificáveis e se não se deixa apanhar é graças a sua indiscutível capacidade de burilar o texto tornando, mesmo com um enredo comum e moralista, leve o fardo para o leitor.

Marilu segue a discutível tendência de rechear a narrativa com outras informações que permitem ao leitor admirar o conhecimento e a erudição do autor. Mesmo que tal conhecimento seja irrelevante ao enredo. Alguns já difundiram seus conhecimentos sobre sapos, facas, pulseirinhas disso e daquilo. Marilu utiliza-se da música na tentativa de colocar som num enredo onde o silêncio e a sublimação dominam a cena.

A violoncelista Elisa Vradova, russa naturalizada americana, encontra-se em plena crise dos 40 anos. O medo de encarar a platéia estimula a criatividade da moça, não tão moça, e ela inventa desculpas. Concertos são cancelados e Elisa acaba no divã do fatídico e inevitável psicanalista.

Na página 20 o dr. Julius Landau entra em cena acompanhado dos mais batidos clichês, quer literários, quer psicanalíticos.

Observações sobre o mutismo do dr. Landau combinados com a atração mútua colaboram para azedar toda boa vontade que se possa ter com a estreante Marilu Valente. Mas isso ainda não é tudo. No passado Elisa viveu um romance com Max , explodido pela mãe, seu quase padrasto e atualmente leva aos trancos, barrancos e monotonia um romance com Peter que não é nada simpático às suas sessões com o dr. Landau.

Caro leitor você se engana redondamente se pensa que isso é tudo.

Dr .Landau, o silencioso Dr. Landau, reside no mesmo prédio de seu consultório, alguns andares acima, casado, adora música clássica, era um excelente clarinetista ( coincidência?) e tem um casal de filhos.

O caro leitor está pensando que isso é tudo? Falta o clichê dos clichês.

O dr. devidamente treinado para não cair em armadilhas sentimentais já mordeu a isca e o conflito está estabelecido. Como já foi dito o dr Landau é casado. Fica faltando um ingrediente decisivo então. Qual? Acertou se você respondeu " a esposa problemática que impede a felicidade do herói". Pois o obstáculo existe: a esposa do Dr. Landau, vitimada por um derrame que limitou seus movimentos ao movimento de uma cadeira de rodas.

Elisa recupera-se, readquire a confiança, seu romance com Peter ganha fôlego e sua mãe esclarece as razões pelas quais impediu seu romance com Max, décadas mais velho.

Enfim o fim estaria a imaginar o caro leitor? Nada disso.

Falta decidir a vida do Dr. Landau, o ético, o modelo, o exemplar chefe de família, que destino ele dará aos seus sentimentos por Elisa, pela sua paciente?

Terá o dr. direito a felicidade ou a situação de Rachel, sua esposa, lhe destina um mero rascunho da felicidade?

Um acorde moralista e fecham-se as cortinas. Está encerrado DISSONÂNCIAS. Com silêncio e muita sublimação.

Diante dos fatos relatados torna-se indispensável a leitura, e o estudo, da obra do analista didata da Societá Psicoanalítica Italiana e da International Psychoanalytical Association , Antonino Ferro, publicada pela editora IMAGO- Rio-2000, A PSICANÁLISE COMO LITERATURA E TERAPIA. 

 

DISSONÂNCIAS
Autor: Marilu Valente
192 páginas
R$ 19,00
editora Nova Fronteira
www.novafronteira.com.br
tel: 21 537-8770
fax:21 537-2659
Informações: Marlene Martelotte ou Maurício Oliveira
e-mails: martelot@novafronteira.com.br
mauricioliveira@novafronteira.com.br

 

 
 
UM POEMA PARA A POESIA

por Elaine Pauvolid*

Para quem escreve poesia ou se interessa pelo tema encontrará no livro de Alfredo Bosi uma bíblia de bolso. De bolso porque o professor de literatura brasileira da USP não pretende dar conta do fazer poético. Muito ao contrário, em "O ser e tempo da poesia" da editora Companhia das Letras, o autor revê a obra editada pela primeira vez em 1977, Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte no ano seguinte, refazendo a sua incansável pergunta: " o que faz de um poema poesia(...)[?]" e convidando o leitor a buscar a resposta com ele.

O estudioso pretende esmiuçar o fazer poético em seu duplo aspecto, o da forma expressiva e o da temporalidade. O poema em si, como linguagem e objeto de estudo e o poema enquanto manifestação da capacidade humana de comunicação situando a poesia historicamente, salientando sua importância neste processo, ao mesmo tempo, mítico e prático.

É de se notar a contextualização no prefácio, onde realça que no início da elaboração do livro, década de setenta, a corrente acadêmica vigente era a do estruturalismo. Predominava então a noção de sistemas fechados que não se comunicam senão pela existência da mesma lei que os regem, levando o autor a relativizar a poesia no universo dos vários sistemas, o da lingüística, do aparelho psíquico e o do materialismo histórico, permitindo encontrar um entendimento da poesia sem aprisioná-la à idéia de sistema fechado.

Nesta relativização o autor apresenta uma série de contribuições lingüísticas, históricas, psicológicas e mesmo teológicas para falar de seu objeto de estudo demonstrando seu aspecto multifacetado, multidisciplinar e singular.

Ligada à constituição da linguagem oral e escrita, a história da poesia é contada desde os hieróglifos até a poesia concretista, passando por pesquisas a respeito do aparecimento da poesia antes da prosa, assim como o da fantasia antes da razão.

Ser ensaísta é mais do que passar informações. O autor deve buscar o contato íntimo com o leitor, o que Alfredo Bosi faz, não se furtando ao poético de suas mãos no sentido estrito desta palavra, como no capítulo "Os trabalhos da mão".

Falando da atividade motora, realiza uma viagem pelas várias funções das mãos reencontrando-as em seu sentido amplo. Trata-se do pulo do gato ou do sorriso do gato de Lewis Carol. Neste duplo aspecto, palavra e metáfora, transmite sua concepção de poema, buscando um rigor acadêmico sem perder de vista os poderes
da imaginação, ultrapassando e demarcando os limites do método científico.

A partir da terceira parte, embrenha-se na Divina Comédia de Dante e no seu exílio, nos salmos, no método cartesiano e aprofunda-se no estruturalismo de Caude L×vi-Strauss. O leitor não sai apenas como a leitura de tantos ramos do saber, mais do que isso, bebe de fontes artísticas em que o olhar de Alfredo Bosi desvenda novos elos.

Citemos o autor: "contextualizar o poema não é simplesmente datá-lo: é inserir as suas imagens e pensamentos em uma trama que é em si mesma multidimensional; uma trama em que o eu lírico vive ora experiências novas, ora lembranças de infância, ora valores tradicionais, ora anseios de mudança, ora suspensão desoladora de crenças e esperanças. A poesia pertence à História Geral, mas é preciso conhecer qual é a história peculiar imanente e operante em cada poema."

Para fechar esta resenha, vale lembrar que para falar de poesia ou fazer poesia é necessário muito mais que ler poemas ou estudar teorias literárias, é preciso fazer isso e viver a poesia percebendo seus múltiplos aspectos.

*Elaine Pauvolid é poeta e ensaísta.

O ser e tempo da poesia
Autor: Alfredo Bosi,
Editora: Companhia das Letras
275 páginas
preço: R$25,00


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