LITERATURA
por Luiz Horácio

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17/Março/2001

AS VITRINES E AS ILUSÕES FUNDAMENTAIS
Oito e quinze, sol forte, praia repleta e eu saindo para fazer a última visita ao José Alípio. Última no atual endereço e com certeza encontrarei o Zé pelo menos alegre pois hoje estará realizando seu grande objetivo desde sua mudança, a contra gosto, para aquele lugar.

Zé cumpre pena graças a uma atitude muito bem pensada e fundamentada.

Hoje ele estará pelo menos alegre pois desde ontem encontra-se numa cela especial, daquelas destinadas à portadores de curso superior onde será fotografado e será dessa forma que sua filha, agora com sete anos, conhecerá o lugar que escondeu seu pai durante intermináveis cinco anos.

E foram cinco anos de fracassadas e sucessivas tentativas para transferir o Zé que não ostenta nenhum curso superior. Nem de advogado.

Mas seu currículo é o SEU currículo! Não conheço ninguém que tenha dado a partida em 17 cursos superiores sem ter recebido a bandeirada final em nenhum.

"-Mas 17 cursos começados tem que valer pra alguma coisa, mostra que alguma coisa me separa tanto dessa horda de assassinos analfabetos quanto de ladrões bacharéis".

Enfim após tanta luta um juiz permitiu que Zé atravessasse o último dos seua 1825 dias numa cela especial. Ao meu lado está o fotógrafo profissional com a missão de documentar alguns desses momentos.

Zé é um grande admirador do filósofo romeno Emil Cioran que disse: "- a sociedade burguesa é, na realidade, a quintessência da injustiça".

E o meu amigo só não avistava injustiça na sua coleção de frustrações. Para ele as vitrines das lojas alimentavam frustrações. Detestava ver famílias adorando vitrines e costumava dizer: "- um dia ainda empurro um idiota desses vidro a dentro".

Casado com Lygia amava Cláudia, calipígea madrinha da bateria da Viradouro no início dos anos 90, que quase o amou.

Numa manhã qualquer de um triste domingo Zé avista uma família daquelas das vitrines. Quando postou-se atrás do casal com seu casal de filhos, pode ver refletido no vidro a sua Cláudia desfilando enrolada no abraço de um gringo. Pensou rápido e agiu velozmente. Empurrou os 4 vidro a dentro. As crianças morreram ali mesmo sobre os sapatos de cromo alemão, o patriarca não morreu mas doravante não perturbaria viv’alma sexualmente; o que não deixar de ser uma das maneiras de morrer e à mulher, última a ser empurrada, restou o trauma. O que também não acrecenta muito ao currículo de uma mulher.

Cláudia escutou o barulho e ajudou Zé a se entregar na 12DP ali na Hilário de Gouveia em Copacabana. Assim como eu Cláudia visitou o Zé dia após dia enquanto Lygia dava as cara uma vez por mês.

Agora Cláudia ama Zé, Lygia pensa que ama um médico, estúpido como costumam ser os médicos, e Zé não ama ninguém. Nem a liberdade que conforme disse Cioran: "- só pode se manisfestar no vazio de crenças, na ausência de axiomas".

Bem, já fotografamos o Zé .

Confio no meu amigo que sempre teve paixões e raras convicções, seus ódios, como os de Cioran, eram a fonte de suas alegrias. Ele me abraça, me beija mas não chora. Arrumou tudo em caixas e disse que deixará tudo ali mesmo. "As coisas não trazem substância à vida, nem os livros."

Alimento a esperança que o Zé não me esqueça e que após experimentar a prisão se transforme no escritor e no jornalista livre que ele sempre sonhou. Liberdade é o único sonho de alguém inteligente.

Confesso ,que assim como o Zé, detesto vitrines e se eu fosse corajoso como meu amigo repetiria infinitamente o seu gesto.

Enfim, alimento a ilusão de ver a sociedade burguesa morta. Ou pelo menos sofrendo muito.

Mera ilusão.

Embora o José Alípio tenha me ensinado que certas ilusões são fundamentais.


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