MÚSICA


01/Fevereiro/2004

PRA INÍCIO DE CONVERSA (Coluna publicada originalmente no site www.promusic-rio.com.br)

 Estava eu na PRO-Music (aquela loja em Copacabana que tem tudo que os músicos e os tocadores de instrumento precisam... conhece?) agarrado a um violão Yamaha de 12 cordas pelo qual acabar de me apaixonar quando entra um garoto de uns 12 anos. Queria comprar corda de violão e como na loja só estavam dois ilustres (quase) compradores testando instrumentos, o Anderson deu total atenção ao garoto e mostrou cordas, preços... Até que entrou a Zélia e perguntou (educadamente): “Qual seu nome?” – ao que ele respondeu: “Eric!”. Sabiamente ela não se entregou ao engano fácil de confundi-la com uma menina, mas não resistiu a falar do cabelo (“lindo assim”) dele dizer que achou que ele era...

(Bem, isso não tem nada com música... por enquanto.).

O garoto saiu da loja e voltou 15 minutos depois. O preço do concorrente era mais alto e lá estava ele comprando cordas para seu violão (e eu ainda agarrado com o Yamaha). Meti-me na conversa com Anderson e sugeri umas outras cordas e acabamos (como sempre acontece na PM) engatando uma conversa.

(Aqui começamos a falar de música.).

O garoto tinha 14 anos e não fazia o gênero alienado. Foi curioso quando ele começou a discorrer sobre os estilos que gostava: blues, rock “mas sós anos 60, 70 e 80...” e Pink Floyd “mas a fase psicodélica deles”. Conversa vai conversa vem, ele diz que gosta de B.B. King (uma unanimidade), mas prefere “MÃDI UATER” !?!? Tudo bem, a pronúncia pode não ter sido das melhores, mas a escolha é excelente.

A dúvida que fica é se eu estava diante de uma exceção ou de uma regra. Maioria ou minoria?

Meu filho André, aos 11 anos adora uma banda chamada (THE) GONE JACKALS, principalmente o álbum de 1995 “BONE TO PICK”. Até hoje não descobri se eles são uma banda ou uma gang, mas não faz muita diferença; é rock, pesado e bom. Coisa pra ouvir em cima de uma Haley a 120km/h, ou então dentro do quarto se imaginando em uma H...

Tirando o Eric e o André quantos mais tem acesso à “outros” sons? (Convenhamos que listar a fase psicodélica do PF nessa idade é difícil!). O que mais essa geração pode ouvir? Se depender dos meios ditos tradicionais de comunicação vai ser difícil fugir do vazio musical que assola o planeta.

Vazio musical? Caramba tem tanta gente boa fazendo tanto som bom por aí! Porque será que temos sempre que ouvir a mesma coisa na rádio?

Algumas histórias me vêm à memória. Conta à lenda, que quando os ROLLING STONES foram fazer a primeira série de shows nos EUA, ao chegarem, perguntaram que eles gostariam de conhecer. KEITH e MIKE falaram em coro (é uma lenda, ok?) “MUDDY WATERS!”. Imaginem um americano com jeito de “americano”, fazendo cara de “americano” e perguntando: “Quem?”. (Novo coro dos STONES): “UAI (a tradução é minha e o sotaque é tão livre quanto) o cara que influenciou nosso som!”.

Há muita coisa pra ser preservada e muita coisa a ser “revelada”. Precisamos é sair dos nossos cantinhos e contar pras pessoas o que é boa música. Alguém já fez isso com o Eric, com o André e com mais alguns garotos e garotas. A partir daí é que poderemos “produzir melhores músicos”.

Tem muita coisa boa rodando por aí. Tem muita banda independente com trabalho muito melhor que das ditas “grandes”. A idéia deste espaço é trazer isso pra um pouco mais perto de você. Se você já conhece o que eu escrevo aqui, mostra pr’aquele seu amigo que disse que “ninguém” conhecia os GONE JACKALS (só como exemplo) e prova que você estava certo sim!

Valeu
T+


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Alex Saba é músico, compositor,
arquiteto, fotógrafo, escritor e muitas outras coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...