| Música No Planeta Terra |
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OS
ALFINETES E AS GRAVADORAS Tenha um pouco de paciência hoje e acompanhe a
seguinte estória: No mundo todo existe uma fábrica de alfinetes. Ela
funciona oito horas por dia e é capaz de suprir as necessidades
mundiais de alfinetes. Um dia inventam uma máquina que é capaz de
produzir o dobro de alfinetes no mesmo tempo. Se esta máquina entrar
em funcionamento, o dobro de alfinetes será ofertado ao mercado e por
conseguinte o preço do alfinete irá cair, podendo inclusive levar a
fábrica a falência. O mais sensato seria colocar a máquina para
funcionar por quatro horas, a metade do tempo da antiga, pois
fabricariam-se os alfinetes necessários e não haveria riscos de falência.
Mas porque essa opção não seria a escolhida? Porque os empresários
não saberiam o que fazer com as quatro horas que sobrariam. Parece um
problema? Claro que não. Eu e você sabemos muito bem o que faríamos
se tivéssemos mais quatro horas no nosso dia para dispormos como quiséssemos.
Mas os empresários são uma raça à parte (salvo raríssimas exceções). Falemos de música: As gravadoras estão prontas a dar mais um tiro no próprio
pé com a criação dos CDs “protegidos”. Antes de mais nada, nós
consumidores somos logo chamados de ladrões, piratas e outros
adjetivos pouco afetuosos. O CD protegido impedirá sua cópia e com
isso as gravadoras esperam conter o surto de pirataria. Que pirataria
cara pálida? Ah, aqueles camelos vendendo CD nos centros das cidades!
Você acredita que aquilo está abalando o mercado de discos mundial? Lembra do vinil? Se você não é desse tempo, vou
contar rapidinho como era comprar um disco. A gente saía da loja,
correndo pra chegar em casa e abrir o lacre da capa. Pra exemplificar
mais ainda: quando saiu Wish You Were Here do PINK FLOYD, comprei o
importado, que vinha com um lacre preto, impedindo de ver a capa e um
adesivo identificando o disco e o grupo. Cheguei em casa, rompi o
lacre, tirei o disco e vi a capa, que você sabe bem qual é. De
dentro dela saíram dois cartões postais e um encarte com as letras e
mais fotos. Eram brindes. Quantos CDs você compra com brindes? Nem as letras
eles andam colocando. O encarte é de uma pobreza franciscana. Até os
LPs do Chico Buarque tinham mais charme do que esses CDs sem graça
que as gravadoras vendem (e caro). Sabem porque é caro? Porque eles
querem lucrar. O custo de fabricação (excluídos estúdio e músicos)
de 1000 CDs é de R$ 1,85. Pagamos R$ 9,90 em algumas promoções
de supermercado, por coletâneas sem informação alguma. Alguém está
tendo prejuízo? Claro que não. A fabricação de CDs é muito mais barata do que a
de LPs, mas as gravadoras querem manter a mesma margem de lucro e se não
estão naufragando, estão boiando na incompreensão de um mercado
completamente novo que surgiu nos últimos anos. Elas não sabem o que
fazer, ou melhor, acham que sabem. Imagino quantas reuniões os
executivos andam tendo sobre o que, como, pra que, porque, etc fazer.
Igual às quatro horas que sobram se colocarem a nova máquina de
fabricar alfinetes para funcionar. E a resposta pode ser muito
simples: mais. Elas se acostumaram a nos empurrar um produto,
respaldadas no sucesso do artista – não vou entrar no mérito de
que muitos são falsos pra não complicar mais ainda – tudo bem,
gostamos daquele artista e queremos saber mais sobre aquele disco. Há
o site
dele, há a página do fã clube, informações da própria gravadora
e até é possível pegar uma MP3, talvez duas, três...bem, que tal o
álbum inteiro? UAU aí eu não preciso comprar o disco, baixo as MP3
e “queimo” um CD no meu micro (como se todo mundo tivesse um
gravador de CD). Ok, você fez isso, mas no CD da gravadora
vem...vem...Ora, não vem nada mais. Quando eu comprei o LP do PF, um amigo foi lá em
casa e gravou uma fita K7. Achou o encarte legal, mas que não valia a
pena fazer uma cópia porque seria P&B (não haviam inventado
muita coisa nessa época, muito menos as copiadoras a cores). Pra ele
o som do K7 bastava, mas pra muita gente não. Esse é o ponto. As gravadoras deveriam preocupar-se
em oferecer junto com seus produtos, mais informações, mais
encartes, mais originalidade e principalmente mais qualidade.
Qualidade sonora e visual. Andam por aí o SuperCD, o DVD áudio e
outros formatos onde é possível guardar mais informações e
portanto, maior qualidade auditiva. Alguns caixas de CD (como a Shy On do
próprio PF) vem acompanhadas de livros, postais e CDs bônus. Porque
não tornar isso um hábito? Quando se abria um LP, era uma experiência
visual bastante forte, principalmente aqueles álbuns duplos como
TOMMY do THE WHO. Hoje eles chamam de enhanced CD um que vem com fotos ou um vídeo para assistir no
computador. Caramba, as pessoas não querem ficar o tempo todo diante
de um micro. Já imaginou que saco mostrar o novo CD da sua banda
favorita pra sua namorada no seu micro? Se fosse um LP, vocês se
sentariam (!) na cama do seu quarto e apreciariam a música, o
encarte, etc. As gravadoras estão acabando até com o romance. :-) Por outro lado, se elas acham isso tudo impossível,
então abaixem o preço. A história de que não dá porque os custos
são altos não funciona. Parem de inventar artistas! Há décadas que
fazem isso e sabem que o percentual de acerto é baixíssimo. O
problema dos artistas inventados é que sobra gente boa pra todo lado
enquanto uns “malas” aparecem do nada. Exemplo recente é a geração
“treme-treme” do Fama, onde todos cantam igual, com o mesmo
irritante tremulo na voz. Vamos continuar baixando nossos MP3 como sempre e
comprando os CDs daqueles caras que realmente gostamos. Podem colocar
a proteção que for, pois logo vem alguém e a quebra (lembra do que
aconteceu com DVD? – por falar nisso, se é mais barato vender na
banca, porque não criar a banca de discos, a exemplo da banca de
jornais?). No final das contas, isso tudo me dá muita raiva. É
o mesmo velho princípio de não querer perder centavos e ganhar
sempre. Está na hora de colocar a máquina nova pra funcionar e
descansar nas outras quatro horas. Mas acho que isso é demais pra
eles. Valeu Ps:
a estória da máquina de alfinete é de um pensador do início do século
XX chamado Bertrand Russeul. |
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Alex Saba é músico, compositor, |