Música No Planeta Terra


14/Maio/2004

OS ALFINETES E AS GRAVADORAS

Tenha um pouco de paciência hoje e acompanhe a seguinte estória:

No mundo todo existe uma fábrica de alfinetes. Ela funciona oito horas por dia e é capaz de suprir as necessidades mundiais de alfinetes. Um dia inventam uma máquina que é capaz de produzir o dobro de alfinetes no mesmo tempo. Se esta máquina entrar em funcionamento, o dobro de alfinetes será ofertado ao mercado e por conseguinte o preço do alfinete irá cair, podendo inclusive levar a fábrica a falência. O mais sensato seria colocar a máquina para funcionar por quatro horas, a metade do tempo da antiga, pois fabricariam-se os alfinetes necessários e não haveria riscos de falência. Mas porque essa opção não seria a escolhida? Porque os empresários não saberiam o que fazer com as quatro horas que sobrariam. Parece um problema? Claro que não. Eu e você sabemos muito bem o que faríamos se tivéssemos mais quatro horas no nosso dia para dispormos como quiséssemos. Mas os empresários são uma raça à parte (salvo raríssimas exceções).

Falemos de música:

As gravadoras estão prontas a dar mais um tiro no próprio pé com a criação dos CDs “protegidos”. Antes de mais nada, nós consumidores somos logo chamados de ladrões, piratas e outros adjetivos pouco afetuosos. O CD protegido impedirá sua cópia e com isso as gravadoras esperam conter o surto de pirataria. Que pirataria cara pálida? Ah, aqueles camelos vendendo CD nos centros das cidades! Você acredita que aquilo está abalando o mercado de discos mundial?

Lembra do vinil? Se você não é desse tempo, vou contar rapidinho como era comprar um disco. A gente saía da loja, correndo pra chegar em casa e abrir o lacre da capa. Pra exemplificar mais ainda: quando saiu Wish You Were Here do PINK FLOYD, comprei o importado, que vinha com um lacre preto, impedindo de ver a capa e um adesivo identificando o disco e o grupo. Cheguei em casa, rompi o lacre, tirei o disco e vi a capa, que você sabe bem qual é. De dentro dela saíram dois cartões postais e um encarte com as letras e mais fotos. Eram brindes.

Quantos CDs você compra com brindes? Nem as letras eles andam colocando. O encarte é de uma pobreza franciscana. Até os LPs do Chico Buarque tinham mais charme do que esses CDs sem graça que as gravadoras vendem (e caro). Sabem porque é caro? Porque eles querem lucrar. O custo de fabricação (excluídos estúdio e músicos) de 1000 CDs é de R$ 1,85. Pagamos R$ 9,90 em algumas promoções de supermercado, por coletâneas sem informação alguma. Alguém está tendo prejuízo? Claro que não.

A fabricação de CDs é muito mais barata do que a de LPs, mas as gravadoras querem manter a mesma margem de lucro e se não estão naufragando, estão boiando na incompreensão de um mercado completamente novo que surgiu nos últimos anos. Elas não sabem o que fazer, ou melhor, acham que sabem. Imagino quantas reuniões os executivos andam tendo sobre o que, como, pra que, porque, etc fazer. Igual às quatro horas que sobram se colocarem a nova máquina de fabricar alfinetes para funcionar. E a resposta pode ser muito simples: mais.

Elas se acostumaram a nos empurrar um produto, respaldadas no sucesso do artista – não vou entrar no mérito de que muitos são falsos pra não complicar mais ainda – tudo bem, gostamos daquele artista e queremos saber mais sobre aquele disco. Há o site dele, há a página do fã clube, informações da própria gravadora e até é possível pegar uma MP3, talvez duas, três...bem, que tal o álbum inteiro? UAU aí eu não preciso comprar o disco, baixo as MP3 e “queimo” um CD no meu micro (como se todo mundo tivesse um gravador de CD). Ok, você fez isso, mas no CD da gravadora vem...vem...Ora, não vem nada mais.

Quando eu comprei o LP do PF, um amigo foi lá em casa e gravou uma fita K7. Achou o encarte legal, mas que não valia a pena fazer uma cópia porque seria P&B (não haviam inventado muita coisa nessa época, muito menos as copiadoras a cores). Pra ele o som do K7 bastava, mas pra muita gente não.

Esse é o ponto. As gravadoras deveriam preocupar-se em oferecer junto com seus produtos, mais informações, mais encartes, mais originalidade e principalmente mais qualidade. Qualidade sonora e visual. Andam por aí o SuperCD, o DVD áudio e outros formatos onde é possível guardar mais informações e portanto, maior qualidade auditiva. Alguns caixas de CD (como a Shy On do próprio PF) vem acompanhadas de livros, postais e CDs bônus. Porque não tornar isso um hábito? Quando se abria um LP, era uma experiência visual bastante forte, principalmente aqueles álbuns duplos como TOMMY do THE WHO. Hoje eles chamam de enhanced CD um que vem com fotos ou um vídeo para assistir no computador. Caramba, as pessoas não querem ficar o tempo todo diante de um micro. Já imaginou que saco mostrar o novo CD da sua banda favorita pra sua namorada no seu micro? Se fosse um LP, vocês se sentariam (!) na cama do seu quarto e apreciariam a música, o encarte, etc. As gravadoras estão acabando até com o romance. :-)

Por outro lado, se elas acham isso tudo impossível, então abaixem o preço. A história de que não dá porque os custos são altos não funciona. Parem de inventar artistas! Há décadas que fazem isso e sabem que o percentual de acerto é baixíssimo. O problema dos artistas inventados é que sobra gente boa pra todo lado enquanto uns “malas” aparecem do nada. Exemplo recente é a geração “treme-treme” do Fama, onde todos cantam igual, com o mesmo irritante tremulo na voz.

Vamos continuar baixando nossos MP3 como sempre e comprando os CDs daqueles caras que realmente gostamos. Podem colocar a proteção que for, pois logo vem alguém e a quebra (lembra do que aconteceu com DVD? – por falar nisso, se é mais barato vender na banca, porque não criar a banca de discos, a exemplo da banca de jornais?).

No final das contas, isso tudo me dá muita raiva. É o mesmo velho princípio de não querer perder centavos e ganhar sempre. Está na hora de colocar a máquina nova pra funcionar e descansar nas outras quatro horas. Mas acho que isso é demais pra eles.

Valeu
T+

Ps: a estória da máquina de alfinete é de um pensador do início do século XX chamado Bertrand Russeul.


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Alex e seus instrumentos

Alex Saba é músico, compositor,
arquiteto, fotógrafo, escritor e muitas outras coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...