Música No Planeta Terra


08/Agosto/2004

ED MOTA x DJAVAN

Essa inusitada comparação foi o ápice de uma discussão em uma lista sobre sintetizadores da qual participo. Tudo começou quando elogiaram e elevaram o talento de ED MOTA. Avisei que tinha problemas pessoais com EM e não gostava. A partir daí tentaram mudar a minha opinião e me chamaram até de cabeça dura (bem, esse foi o mais simples). Cabeça dura eu sou mesmo, até porque quando divulgo uma OPINIÃO, é porque já pensei muito sobre isso. Não se trata de não querer mudar, mas de estar vendo as coisas por um outro ângulo.

A argumentação da outra parte (que chamarei aqui de Eduardo) era de que se o EM era mesmo ruim como eu falava, como tantos músicos queriam tocar com ele?

Misturou-se portanto a minha opinião (pessoal como disse) com o desejo dos trabalhadores (músicos) em trabalharem (tocarem) com um chefe (artista) capaz de lhes arrumar vários projetos (shows/gravações) e fazerem bom dinheiro (dinheiro). Caramba, ta na cara que qualquer um quer tocar com EM, XITÃOZINHO & XORORÓ, SANDI & JUNIOR, VANESSA CAMARGO, ZEZE DI CAMARGO E LUCIANO, ROBERTO CARLOS, etc. Quem não gostaria de ganhar bem? Mas ser este seu sonho...aí é outra coisa.

Se você fosse um tecladista, você com certeza gostaria da “segurança” de tocar com RC do que com JORGE MAUTNER, que faz show esporádicos. Mas muito provavelmente, você vai se divertir muito mais tocando com JEAN MICHEL JARRE do que com CLEONILDO MALTA. E ainda na hipótese de que se você fosse um tecladista, o que você mais gostaria: tocar com JMJ ou te-lo tocando no SEU show?

O PRAZER de tocar pelo PRAZER de tocar não existe segundo a Epistemologia. O que há é o prazer de estar tocando com quem te paga bem, prazer de tocar com um grupo que te trata bem, prazer de tocar por gostar muito do artista....e em momento algum isso foi dito.

Tomei a liberdade de transcrever abaixo, um e-mail do (chamemos de) PILOTO em resposta ao do EDUARDO (as frases dele começam com o sinal “>”).

ABRE ASPAS

>  Sei que isso é meio incerto para julgar, mas pq o Ed faz turnês de 30 shows pela Europa e pelo Japão???

Bota incerto nisso. Afinal, muita gente ruim é um sucesso lá fora e vice-versa.

> O É O TCHAN foi uma vez e não voltou nunca mais.

Posso estar errado, mas ACHO que O TCHAN e Ed Motta não foram disputar o mesmo mercado lá fora, não. Nem foram tocar para o mesmo público.

A não ser que seja justo comparar as turnês no Brasil de MICHAEL JACKSON nos estádios, JOE SATRIANI no Credicard Hall e algum jazzeiro num Bourbon Street, sõ porque todos vem dos EUA.

> Pq ele tem seus cds considerados (lá fora e aqui dentro)  como um dos melhores no mercado ??? E pq a nata dos  músicos aqui do Rio e de São Paulo almejam tocar com  ele ???

Peraí! Gosto é como banda, cada um aqui tem a sua, e não deve impô-la ao outro que as vezes não a aceita (hehehe). Sou mineiro, já morei no Rio e em Sampa, fiz música nos 3 estados, acho que posso falar com um pouco de isenção: Já toquei com amigos no Rio. E eles idolatravam o Ed. Eu era bem relacionado em minha fase carioca de uns anos atrás, e tive a oportunidade de conhecê-lo, ver alguns backstages de apresentação, na época. Ele era quase um cult no rio. Era bom, claro, mas sinceramente, não me emocionou, nem vi nada a altura do andar que o colocavam.

Pode ter algum músico bom de Sampa que queira tocar com ele, mas GARANTO que aqui ele não é este cult todo. Nem imagino a turma da Teodoro Sampaio procurando ou discutindo o último CD de Ed Motta - a não ser, no máximo, como mais um. Nem vejo grande furor entre músicos daqui quando há uma apresentação dele - não mais do que qualquer outra das INÚMERAS boas opções do mundo todo que se apresentam sempre por aqui.

Sampa é muito universalista, boa arte aqui é respeitada, venha do Rio ou de Moscou. Ele também terá seu público aqui. Até porque ele é bom, mas não só por isso. Afinal, uma orquestra da transilvania também teria, porque, pra começar, há MUITOS transilvânicos e cariocas por aqui, assim como lituanos, gaúchos, nordestinos, suíços, japoneses, italianos.

Legal, o Ed. Mas eu também não curto (tanto) o resultado final, nem as bochechações afinadas dele. Tá, pode ser que o ego excessivo afete negativamente a avaliação. Sei ver que há afinação, qualidade, mas não vejo isso tudo.

> Se alguém acha que não, deve estar conhecendo o tecladista do TERRA SAMBA ou algo assim.

Eu não acho, eu tenho certeza de que não há esta briga entre os paulistanos pra ver quem tem a honra de tocar com o Ed - que é bom, mas só é cult no rio. Ah, a propósito: Sou amigo do tecladista do BOM BALANÇO, e co-autor (eu diria culpado) de alguns axés do tipo "Juliana não quer sambar". Santista, ele é gente fina pacas, e faz ótimos new age quando não está TRABALHANDO na Bahia para defender o pão da sua filha. AH, com certeza ele acharia uma honra tocar com o Ed também. Mas decerto não o cultua.

> Os melhores instrumentistas da nossa música, sempre dizem que tocar com o Ed ou com o Djavan, é a melhor gig que pode ter . Porque será isso ???

Porque cada um tem um gosto. (AS: Porque são artistas com muitos shows que pagam bem aos seus músicos)

Eu jamais colocaria Ed no mesmo altar de sensibilidade, romantismo, poesia, harmonia, composição, inspiração onde eu coloco Djavan. Isso sem falar na EGRÉGORA formada por tanta gente que fez de suas músicas trilhas de amor - de bom gosto.Mas isso é tão subjetivo...

Sei lá, talvez eu tenha lido Fernando Pessoa demais e virado um chato. Mas não vejo termo de comparação entre: “Por ser exato / O amor não cabe em si / Por ser encantado / O amor revela-se / Por ser amor /Invade / E fim.

Com as rimas de: "Mia, arranha o céu / Mia, lua de mel, / ao léo, / well well" (?)

Se for pra falar de sexo insinuado, eu ainda acho que há uma pequena diferença entre

"O amor e a agonia / Cerraram fogo no espaço / Brigando horas a fio / O cio vence o cansaço / E o coração de quem ama / Fica faltando um pedaço / Que nem a lua minguando / Que nem o meu nos seus braços"

e a "bela" rima de: “Cidade nua / Noite neon / Gata de rua / faz ron-ron / ao luar ...

Ou comparar

Amar é um deserto / E seus temores / Vida que vai na sela / Dessas dores.../ Você deságua em mim / E eu, oceano (!) / Esqueço que amar / É quase uma dor

com

Ia pro trabalho cansado, às 6 da manhã / Ouvia no seu rádio, calcinhas e sutiã / No rádio era um funk, o trem tava lotado / Se eu fosse americano minha vida não seria assim

e a apoteose poético musical de: “Manuel / Foi pro céu / Manuel / Foi pro céu

Realmente, uma rima que não vi ninguém aqui em Sampa pensar. Pq não ousaria. Até aquela piadinha com nome de novos anjos (Abravanel, Motel, Sarapatel, Aluguel) consegue fazer coisa mais rimada e criativa. Sem querer tocar fogo na ponte aérea, adivinhe de onde vem o verso:

"Eu não nasci pro trabalho / Eu não nasci pra sofrer / Já descobri que a vida / É muito mais que sofrer"

??? Uma dica: NÂO É do mesmo lugar que

"Amar é um deserto / E seus temores / Vida que vai na sela / Dessas dores"

Em todo caso, como muitos aqui gostam de trabalhar - inclusive meu amigo SAULO CALDERON que toca axé na BOM BALANÇO - se a grana for boa, muitos daqui, que nasceram para o trabalho, vão querer sim tocar com o Ed. Que até tem um sonzinho legal.

FECHAS ASPAS

Concluindo esse longa coluna:

1) não levante um assunto polêmico em uma lista de discussão;

2) se o assunto não for polêmico, mas se tornar...esqueça;

3) não divulgue sua opinião, a não ser que já saiba que todos tem a mesma que você, pois caso contrário vai aparecer um querendo que você concorde com ele.

4) concorde com aqueles mais enfáticos e que não arredam pé da própria opinião, pois você não vai muda-lo nem ele a você, ou

5) não participe de listas de dicussão

E afinal: o EDMOTA é tão “bonzão” assim? O que você acha?

Valeu,
T+


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Alex e seus instrumentos

Alex Saba é músico, compositor,
arquiteto, fotógrafo, escritor e muitas outras coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...