Ao Professor
Estas são algumas palavras dirigidas a quem se dedica à produção do conhecimento. Ensinar é uma arte difícil, e o processo de ensino - aprendizagem é um desafio constante. Não se pretende questionar aqui o que você, professor, está fazendo, mas apenas lhe fornecer algumas dicas a respeito de como poder auxiliar seu aluno na produção de um pensamento crítico a respeito da experimentação animal.
Uma das primeiras dicas que sugerimos concerne uma questão que muitas vezes esquecemos de prestar atenção: o próprio espaço físico. Frota-Pessoa et al. (1997) lembram que para que haja um bom aproveitamento na aula, não se deve ultrapassar o máximo de trinta alunos por grupo de laboratório. Existem algumas razões para tal preocupação. A primeira delas refere-se ao próprio aproveitamento dos alunos: trinta alunos em uma sala de laboratório, para somente um professor, pode prejudicar a boa aprendizagem do conteúdo. A segunda, refere-se à segurança dos alunos e professores. Dependendo do tamanho do laboratório, mais de trinta pessoas entre vasos de vidros e líquidos perigosos, pode ser um potencial para algum "acidente de trabalho".
A terceira razão remete-se ao próprio animal, e nos faz lembrar uma outra sugestão. Os animais são seres que, tal como nós humanos, têm sentimentos. Um ambiente com muitas pessoas, os assusta, a temperatura e a umidade modificam, e os "bichinhos" sofrem sem necessidade. Alguns animais, como o rato, muito utilizado em laboratório, são extremamente sensíveis à estas mudanças, o que pode acarretar em um prejuízo na própria experimentação.
Mas, para quê se deve prestar atenção nestes cuidados dos animais, se eles serão mortos mesmo? Bom, primeiro porque, antes de serem sacrificados, são seres vivos, e, como já mencionado, eles sofrem como nós. Segundo, porque fazer um animal sofrer desnecessariamente é contra a lei, como explicitado neste site (vide parte legal), e terceiro, porque pode prejudicar o experimento. Vamos supor que você e seus alunos estão estudando o efeito de uma droga "x" no organismo de um rato. Esta droga, por mais que seja a mesma solução, na mesma quantidade, surtirá efeitos diferentes se ministrada em um dia ensolarado, em um dia chuvoso e úmido, em uma sala com 10 ou uma sala com 40 alunos. Todas estas são variáveis que interferem na experimentação, e que são, muitas vezes, neglicenciadas da discussão entre professores e alunos.
Muitos professores comentam a respeito da falta de motivação dos alunos quando na experimentação animal. Os alunos criticam, porém sem fundamentos, algumas vezes lançando-se mão da religião e do pecado, o fato de se sacrificar um animal. Esta postura por parte dos alunos pode ser devido à uma falta de informação sobre a própria importância ou não da experimentação animal.
Uma maneira de conscientizar a respeito da experimentação animal é, antes de começar a prática em si, ministrar uma aula sobre a história, os benefícios, os "prós" e os "contras" da experimentação animal. Seguir o roteiro deste site pode ser uma dica; realizar debates entre a turma, dividindo-a em duas partes e analisando os argumentos "prós" e "contras"; pedir que os alunos realizem uma pesquisa sobre a experimentação animal; um estudo dirigido sobre a importância desta em seu curso, e sugestões sobre alternativas podem ser de extrema valia para o aumento da motivação dos alunos em suas aulas. Isto porque, quando um aluno sabe o porquê está realizando uma prática, a funcionalidade de tal conhecimento, seu interesse aumenta, e consequentemente sua participação e desempenho também.
Com certeza este pode ser um grande desafio para você, como professor. Muitas vezes os professores não são motivados a questionar e a levantar pensamentos críticos em seus alunos, mas a continuar com a tradicional metodologia de ensino. Ou se mantêm nos mesmos conhecimentos, sem atualização, realizando as mesmas práticas há anos. Morejón (1997) comenta que geralmente o professor se guia mais por critério próprio para ensinar do que pelos critérios de seus estudantes, devido às dificuldades dos procedimentos e estratégias para estimular o processo de aprendizagem dos alunos. Para que haja uma maior mobilidade no processo de produção de conhecimento, Frota-Pessoa (1982) nos lembra da necessidade da atualização constante do professor. Assim, o professor deve estar sempre se reciclando e trazendo para seus alunos novas alternativas de aprendizagem.
Isto, aliás, refere-se a uma outra sugestão: professor, você já procurou saber se realmente sacrificar tais animais é estritamente necessário? Quando falamos em termos de atualização, queremos dizer que hoje existem computadores, moldes de gesso, de espuma, animais empalhados, várias outras técnicas que permitem auxiliá-lo em suas aulas sem ter de, necessariamente, matar tantos animais. E, caso seja necessário, a quantidade de animais sacrificados pode ser reduzida? Matar cinco rãs para cinco alunos pode ser de um extremo desperdício. Fazer grupos de quatro ou cinco pessoas para cada animal sacrificado pode resultar em uma discussão mais rica do trabalho, bem como em diminuir o número de animais sacrificados.
Assim, estamos lhe sugerindo um desafio, grande, de ajudar a ciência na produção de conhecimento, sem se esquecer da natureza, quando na utilização de tais animais. Muito obrigada pela visita e por aceitar tal desafio!
"Estamos trabalhando com seres sensíveis, e que a rotina não nos faça perder a sensibilidade"
Bibliografia:
Frota-Pessoa, Oswaldo. Como ensinar ciências. São Paulo. Ed. Nacional, 1982
Morejón, Julian B. Pensar y crear Educar para el cambio. La Habana. Editorial Academia, 1997