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BUENOS AIRES, quarta, 17 de dezembro de 2003.
| DIAS TOTÁIS DA VIAGEM | 1167 |
| CHEGADA AO BUENOS AIRES | Segunda, 8 de setembro do 2003. |
| ÚLTIMA CIDADE VISITADA DE BICICLETA | Cuenca, no Equador. |
| QUILÔMETROS TOTÁIS FEITOS (contando do DIA 1: 26/06/2000, da Ushuaia, província da Tierra del Fuego, Argentina) | 16.645,67 |
Acho que muitos podem ter ficado supreendidos pelo encontrar-me no Buenos Aires, pois essa cidade fica bem no sul do meu roteiro para chegar ao Alasca. Mas aconteceu que, apesar da minha vontade, o destinho tinha outros planos; o meu pai ficou muito doente e internado no hospital de gravedade, a sua vida em grande perigo. Mas antes de começar o relato do que aconteceu com o meu pai, é bom olhar primeiro o que foi o desenvolvimento desta aventura.
O desafio foi tentar unir, numa viagem de quatro anos de bicicleta, as duas cidades maiores dos extremos opostos do continente americano; Ushuaia, aonde começou a jornada, no sul da Patagônia argentina, com Anchorage, no Alasca. Um dia cheio de neve do junho do ano 2000 a viagem começou; para fazé-lo, eu fez a aposta maior de todas: a minha vida própria.
UMA VOLTINHA PELA AMÉRICA DO SUL
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No setembro do ano 2002, os policiáis do DAS (Direção Administrativa da Seguridade da Colômbia) carimbavam o meu passaporte na Guajira, na divisa de Venezuela, não muito longe do mar Caribe. Eu ainda estava pedalando a bicicleta mesma que tinha começado: nem roubos, nem acidentes. Para o pessoal que não acredita nos milágros, eu posso falar que a minha chegada à Colômbia foi milagrousa com certeza; o desenvolvimento da viagem até o momento tinha sido difícil demais. Começando, antes de entrar ao Brasil a minha mãe ficou doente de cáncer, e morreu meses depois. Eu fiquei destruido (ver do capítulo 20 ao 26 do Diário da Viagem, em Espanhol). Logo após ter ingressado no Brasil, deflagrou-se uma crise econômica no meu país. O dolár diparou-se até o céu. Só numas semanas, a Argentina virou dum país estável para o país da maior pobreza da América do Sul. O meu dinheiro poupado no banco sumiu pela desvalorização do peso argentino. Os meus cartões de crédito foram revogados. O meu pai ficou na pobreza, portanto já não podia esperar ajuda dele. Fiquei sozinho, e agora tinha que fazer as coisas como poder. Então juntei forças, valor, e começei na procura de patrocínio fora do meu país. Graças pela ajuda do muito pessoal, pequenos lojistas e empresários, a minha aventura não terminou. |
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Mesmo assim, quando os pneus da bicicleta morderam o solo colombiano, eu tinha só 40 doláres no meu bolso; estava pobre mesmo. Mas eu estava legal, sem medo (doidão!). Agora, às vezes nas lembranças, eu acho que não tinha medo porque as situações difíceis confrontadas tinham-me feito crescer uma nova força no meu interior. Eu vivia hoje, não perdia o tempo preocupando-me pelo amanhã.
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Em Bogotá, o menor carrosel do mundo todo. |
E na viagem nem tudo era mau; tinha vivido muitas coisas boas também. Tinha descoberto aquela poderousa força que da para a gente o conhecimento do poder inventar a nossa própria realidade. Eu ao fim era un hómem livre. |
Mas (sempre tem um mas) ainda não conhecia que na Colômbia eu tinha uns acontecimentos me esperando, legáis e maus, que trocariam definitivamente a natureza dos meus planos.
O TAMPÃO DO DARIÉN
O primeiro do que aconteceu só três dias após chegar à Colômbia foi conhecer à Catalina. A gente viveu uma muito profunda relação, mesmo quase a gente vai para o casamento e fazer família. Com certeza, a minha viagem quase ficou parada (se quiser saber mais, ver Hogar a Orillas del Mar, em Espanhol, e não tenha pregisa de ler na minha língua; é uma boa oportunidade para melhorar o seu Espanhol!). Mas o casamento não aconteceu, porque eu era extranjeiro e as leis colombianas são muito rígidas ao rispeito. Finalmente, a gente passou pouco mais de três meses juntos na Guajira e ela voltou depois para Bogotá e eu segui a viagem rumando à Cartagena; essa cidade seria o maior ponto ao norte que chegaria de bicicleta.
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A Catalina foi a mulher pela que fiquei doidinho e apaixonado em Colômbia (também tem algumas brasileiras, podem acreditar). A Nossa relação já terminou, mas conhecer ela fez-me pensar o importante que é não fechar-se ao apaixonamento, pois é isso o que faz a vida gostosa, mesmo que às vezes se apaixonar da medo. Para aqueles que gostam das histórias románticas, olhar Hogar a Orillas del Mar, em Espanhol. |
Na Cartagena fiquei na Defesa Civil e não passou muito tempo até confirmar plenamente o meu maior medo: as rodovias tinhan finalizado para mim. A meio da Colômbia e Panamà encontra-se uma região de floresta conhecida como o Darién. Apesar dos governos passados de ambos os países que projetaram fazer a continuação da rodovia Panamericana e assim unir as duas Américas, as coisas só ficaram nos papéis. Hoje, essa região é chamada O Tampão do Darién caracterizando-se pela forte presença de guerrilha, paramilitares e narcotraficantes. É possível mas muito perigoso atravessar pelo Darién, e não tem jeito de fazé-lo de bicicleta pela carência de rodovias ou trilhas. Para passar ao Panamá só ficava pegar avião, mas eu não tinha dinheiro para isso. Apesar das más notícias nem tudo estava perdido; decidi mudar o meu roteiro. De Cartagena olhei para o sul; agora o próximo país seria o Equador, atravessando para isso a Colômbia toda. Nesse novo país, eu tinha a esperança de achar muitos patrocinantes e então após as coletas tentar dali o ingresso ao Panamá, de avião ou barco. |
No roteiro para o Equador, passei pelas regiões mais "quentes" da Colômbia: atravessei povoados fantasma aonde moravam antes o pessoal do ELN (Exército da Liberação Nacional) e das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), agora quase sumidos após a invasão do exército. No entanto, a situação do maior perigo foi quando um cara chegou-se pertinho de mim, de roupas muito pobres e pedalando numa pequena bicicleta. O cara perguntou aonde eu tinha nascido e se eu tinha dinheiro; então falei para ele que eu sou argentino, portanto, mais pobre que o Buda. A seguir, pedalei forte afastando-me dele. Após isso, olhei para atrás e vi o cara falando numa radio... eu fiquei assustado mesmo. Tinha medo que os seus companheiros poderiam ficar me esperando diante na rodovia, mas coisa nenhuma aconteceu. Talvez o cara acreditou nas minhas palavras; mas eu acho, na verdade, que foi pelo exército, já que as rodovías hoje em dia na
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Colômbia tem muita seguridade: você encontra muitos postos do control do Exército colombiano. No entanto, as centinelas falaram para mim que não é bom pedalar após as 18 hs, se não quero amanhecer morto, nu e com uma flor no cu... Beleza cara, eu compreendi mesmo! Cheguei ao Equador sem maiores novidades. |
Percorrido feito entre a Colômbia e o Equador, pela causa do meu impedimento para passar ao Panamá. Tinha planejado passar do Equador direito pelo avião, mas após falar com a Catalina, mudei os meus planos; tentaria da Bogotá, após vé-la. |
Ali passei três meses viajando e a minha vida foi fácil demais porque o governo tinha decidido trocar a moeda nacional, o sucre, pelo dolár direito; portanto o patrocínio não foi difícil e diu certo... mas para muitos equatorianos a situação da muda de moeda foi ruim, pois foi para eles uma perda da soberania. As minhas atividades não foram somente a procura do patrocínio: fez também conversas de Turismo-Aventura nas universidades e percorri parte do Amazonas equatoriano. No Amazonas conheci um local aonde cientistas estão pesquisando a reprodução de animáis da mata em perigo com muito sucesso; fiquei ali trabalhando de voluntário uns dias (para conhecer o local, ver SACHA RUNA, El Viejo de la Selva, em Espanhol).
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Os três meses passaram voando: Vi também garotas muito lindas, mas não conheci nenhuma bem e não pela falta de oportunidades; simplesmente, ainda tinha acima o feitiço da Catalina. As vezes eu ficava olhando pela janela como bobão pensando nela. Ela também tinha muita saudade mesmo. Após uns e-mails muito fortes a gente decidiu voltar a encontrar-se; após coletar o dinheiro necesário, peguei o ônibus até Bogotá. Os planos eram ficar ali mais um mes e meio e após consolidar a nossa relação pegar o avião até o Panamá. O Alasca ainda ficava bem longe. Mas o senhor Destino, mais uma vez, fez uma desagradável jogada. |
Pertinho da cidade de Puyo, no Equador, encontra-se o Centro Fátima, aonde tem pessoal tentando com muito sucesso a reprodução de animáis da floresta em perigo de extinção. Para conhecer as atividades e animáis do lugar, entrar em SACHA RUNA, El Viejo de la Selva, em Espanhol. |
A LIGAÇÃO
Um dia, aproveitando a minha visita no consulado argentino em Bogotá para fazer tramitações, perguntei para falar pelo telefone; fazia quase quatro meses já sem ligar para o meu pai e as minhas duas irmãs, no Buenos Aires. Pegou o fone a minha irmã menor, a Cecilia, e quebrou a minha felicidade quando falou para mim que o nosso pai estava no hospital, na terapia intensiva, muito doente.
A minha irmã começou a relação da história:
O meu pai tinha ingressado pelo problema no meiado do junho. Chegou de urgência, à noite, a cor de pele amarelo canário e desnutrido após cinco días sem experimentar comida nenhuma pelos vômitos. Ele foi de obrigação porque tem muito medo aos doutores (foi enfermeiro...). À pouco de ingressar foi à cirurgia para se operar da vesicula; após a operação parecia tudo legal, mas nos dias seguintes começou piorar. Voltou para cirurgia e após isso foi para terapia intensiva; mas o meu pai não melhorava, então voltou mais uma vez na sala de operações. O cirurgão achou agora uma terrível infecção no seu ventre e também um furo no intestino. Voltou à terapia em coma. O meu pai não tinha muitas esperanças agora.
Eu, enquanto, estava muitos quilômetros longe do Buenos Aires. E apesar de ter chegado com dinheiro coletado do Equador e seguir na procura de patrocínio em Bogotá, tive gastos demáis e agora não tinha para a passagem de avião para Buenos Aires.
Nessa situação, poderia ter encontrado cem jeitos para definir a palavra desespero.
O MILAGRE
Durante os dias primeiros após a notícia, tinha-me virado numa sombra. O meu sentimento era duma grande inutilidade e culpabilidade. O apoio da Catalina foi muito importante naquele momento. Também o apoio do consulado foi decisivo: a cónsul fez uma com o pessoal do consulado e procurou a passagem sem custo para mim para eu voltar para Argentina, numa viagem de sete dias de ônibus atravessando América do Sul até Buenos Aires; uma nova aventura mesmo.
E mais uma coisa.
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Baixando do ônibus na província de Mendoza, Argentina, divisa com Chile: mais uma vez na minha terra. |
Um dia deixei atrás o desespero e pensei que tinha algo que poderia fazer para ajudar; lembrei que tem alguém chamado Deus; lembrei também que o desejo e a força do muito pessoal pode virar os imposíveis em realidades. Não tinha tempo para perder, portanto comecei a escrever os e-mails e mandei para as pessoas todas que conheci na viagem; pessoal do Brasil, Venezuela, |
Colombia, Equador e do meu país mesmo. Nos meus e-mails o pessoal achou um grande rogo: fazer uma oração pedindo pelo meu pai o dia mesmo às dez da noite, concentrando nesse jeito a força e energia toda. Naquele dia às dez Catalina e eu na casa dos seus pais em Bogotá, chorando como crianças e pegados das mãos, começamos a oração. No Buenos Aires a minhas irmãs fizeram isso também, e mesmo assim muito pessoal nos diferentes locáis da América do Sul. Foi impressionante nos dias seguintes a quantidade de e-mails, respostas de apoio tudos, achados na minha caixa.
Enquanto, nesse dia pela tarde em Buenos Aires, no final do relatório médico o doutor falou para as minhas irmãs que era melhor se preparar pela pior coisa.
No entanto, no terceiro dia após a oração, o meu pai abreu o olho.
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Na verdade é ruim olhar as paisagens só pela janela do ônibus, mas ver o deserto da Atacama no norte de Chile é uma experiência inesquecível. |
EPÍLOGO
Já são três meses e meio que estou em Buenos Aires.
O velho, ou seja o meu pai, ainda esta no hospital, na terapia intensiva. Melhorou muito, até começou falar outra vez e caminhou os seus primeiros passos após meses na cama. Mas infelizmente pegou-se faz uns dias uma neumonia e voltou para atrás. Com certeza, Deus está ajudando, porque apesar da neumonia ja passou o pior, e começou a sua melhora novamente. Mas não acho possível que o meu pai possa passar o Natal na nossa casa.
Apesar de ter voltado de obrigação para Buenos Aires, achei que eu estava feliz, porque pude ver novamente as minhas irmãs e as minhas sobrinhas. Ver o meu pai deu para mim tranquilidade mas também dor, porque estava muito magro. Achei a cidade igual e diferente ao mesmo tempo, e fiquei surpreendido ao escutar o sotaque argentino e encontar-me como se eu fosse extranjeiro.
Falando da minha viagem, eu não se. Às vezes fico com muita saudade das rodovias, e após ter conhecido a vida de aventura, acho difícil não voltar cair na tentação duma segunda oportunidade. Viajar é viver mesmo. E tenho um roteiro que terminar.
E muita saudade do Brasil.
Pelo enquanto, eu vou falar para vocês o seguinte: FELIZ NATAL E FELIZ ANO NOVO, COM MUITA PROSPERIDADE!!!!
E, se Deus, quiser, talvez a gente volta a se encontrar. Até mais!
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No fevereiro do 2001 a minha mãe e o meu pai festejaram o seu último aniversário juntos (61 y 65 respeitivamente; os dois tinham nascido no igual dia). A minha mãe já foi embora, mas o meu pai ainda sigue aqui, lutando em contra da morte, lutando de poncho e faca como o gaúcho que ele é. (Fotos da família tiradas pela Cecilia De Los Ángeles Ayala). |
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AGRADECIMENTOS
Com certeza são intermináveis. Sem a ajuda de muito pessoal eu não poderia ter chegado ao local nenhum: muito obrigado a aqueles que deram seu patrocínio para esse projeto. Muito obrigado aos bombeiros, policiáis e soldados que ajudaram, muitas vezes abrindo as portas dos quartéis para mim. Muito obrigado a aqueles que deram para mim o seu coração e a sua amizade, permitindo que eu conhecera as suas costumes e cultura. Finalmente, muito obrigado pelo fazé-me sentir mais o que argentino: obrigado pelo fazé-me sentir latinoamericano.
Na cidade de Ibarra, em Equador, ao lado do monumento ao Anjo Gabriel; atrás o volcano Cotopaxi.
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