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Nossas Figuras Folclóricas 7 Há poucos dias, observei numa oficina mecânica local, o trabalho de um jovem para montar o motor de seu próprio caminhão, o que fazia pela carência de recursos financeiros para pagar a um especialista, bem como da atenção do chefe da oficina que lhe cedia as ferramentas necessárias para a montagem. Uma pessoa chamou sua atenção, aconselhando-o a procurar ajuda, pois não acreditava que ele pudesse fazer aquele serviço com a precisão aconselhável. O jovem respondeu,dizendo que sabia fazer, e que o motor funcionaria a contento. Poucos dias depois pude vê-lo fazendo fretes no seu caminhão, cujo barulho do motor deixava transparecer que o mesmo estava funcionando normalmente. Aquilo não me causou nenhuma surpresa, visto saber que aquele jovem fora criado vendo seu Pai, já falecido, desmontar e montar motores, caixas de câmbio, engrenagens e até mesmo o caminhão completo. Um exemplo era o próprio caminhão supra citado, que fora construído por seu Pai, com peças de diferentes veículos. Embora o Pai merecesse ser o enfoque desta crônica, não declinaremos os nomes dos mesmos, nos preservando de qualquer mal entendido. Foi nesse fato corriqueiro do interior nordestino, que nos veio à lembrança algumas figuras que marcaram um pouco de nossa infância e adolescência. Entre elas, o velho Praniano, um verdadeiro gênio na arte de consertar, fabricar e até mesmo inventar artefatos diversos. Morava numa casa de “pau a pique” ali pelos lados do cemitério, rodeado por um grande número de filhos, outra coisa de que também parece que dava conta. Não havia defeito numa velha máquina de costura que o Praniano não “desse jeito”, cuidando inclusive de fabricar a própria peça causadora da pane, se necessário fosse. Armas de fogo ? Era sua ocupação predileta, consertando qualquer tipo, deixando-as até melhor que “de fábrica”. Essas espingardas, tipo “socadeira”, fazia-as sob encomenda, com garantia sem limites. Entretanto, parece que não sabia cobrar pelos serviços executados, pois levava uma vida de extrema pobreza. Talvez por sentir que seus serviços poderiam ser melhores remunerados em outras terras, um dia, anoiteceu e não amanheceu mais por aqui, passando então a ter uma vida um pouco nômade, segundo informações dadas por um de seus filhos que ainda esteve de passagem por uma ou duas vezes. Aqui não ficaram descendentes, e parece que nem ascendentes. Outra figura de grande importância local, foi o Sr. Manoel Praxedes, ferreiro dos bons, com serviços garantidos. Fabricava e recuperava: ferro de marcar gado, foices, roçadeiras, chibancas, picaretas, enxadas e outros diversos instrumentos de uso rural, bem como também consertava diversos tipos de máquinas e armas de fogo. Às vezes o serviço era demorado em virtude da grande procura por seus serviços, mas quando pronto, era a certeza de que estava “tinindo” para uso.Alguns fregueses preferiam ficar até o dia todo aguardando o término do serviço, enfrentando o calor do sol e do velho fole de ferreiro, sendo porém recompensados com a prosa do velho Manoel, para o qual não faltava assunto. Após sua morte, os filhos deram continuidade às suas atividades, já agora enfrentando forte concorrência. Já mais recentemente, tivemos o Seu Melquíades, um gênio do torno mecânico, capaz de criar e refazer peças e objetos dos mais diversos tipos. Era também um especialista em armas de fogo, não havendo portanto dificuldades para consertar uma, qualquer que fosse seu calibre e marca. Faltavam peças ? Rapidinho o velho torno era acionado e a peça necessária era fabricada. Era também de muita presença de espírito e espontaneidade, e tal como o Seu Lunga (do qual não conhecia suas estórias), “não gostava de pergunta besta”.
E-mail: hpmombaca@zipmail.com.br WebMaster: David Elias N. Sá Cavalcante Editor/Redator: Elias Eldo Sá Cavalcante F O L H A D E M O M B A Ç A - Nº 13 - SETEMBRO/2002 |