Nossas Figuras Folclóricas 10

 

 

 

Às vezes lembramos de pessoas que viveram por aqui num passado não muito distante e que bem poderiam integrar o quadro de nossas figuras folclóricas. Entretanto nos bate um receio de incluí-los nesse quadro em virtude de um possível mal entendido por parte da família do “homenageado”. São pessoas simples que marcaram época por alguma peculiaridade física ou comportamental. Desses não falaremos, mas sim daqueles cujas famílias entenderão o nosso propósito, que é mostrar pessoas, fatos e coisas que ajudaram a fazer a história desta terra de Maria Pereira.

Lembramos do Seu Sinfrônio, cuja bodega ficava num dos prédios que circundam o antigo mercado central, mais precisamente na parte baixa dos fundos da Casa Irênio e vizinho a loja do Honório Sabino. Pois bem, na bodega do Seu Sinfrônio podia se encontrar quase de tudo, mas nos últimos anos de sua existência o mesmo perdeu um pouco da freguesia em virtude da “cisma” que os consumidores tinham de suas mercadorias em virtude da falta de higiene do ambiente. Nos tititis se afirmavam que aquele estabelecimento  não passava por uma faxina há muito tempo, o que facilitava as visitas noturnas de ratos e baratas e diurnas de um batalhão de moscas. Pudemos pessoalmente constatar a veracidade de parte desses fatos quando nosso pai alugou aquele ponto comercial para ali instalar provisoriamente uma bodega, até que o prédio próprio recém adquirido fosse reformado. Foi necessária então uma grande jornada de trabalho para retirar a camada de sujeira que havia se formado no piso, cuja espessura não era inferior a 1 cm, chegando em alguns pontos a medir 1,5 cm, ou mais. Era melado de rapadura, farinha, açúcar, terra e uma infinidade de partículas identificáveis, ou não. Pessoalmente, era um cidadão respeitável e muito bem relacionado com os vizinhos e amigos, o que o fazia muito conhecido por parte  de moradores da cidade e da zona rural. Faleceu ainda relativamente jovem e sua viúva casou com um jovem de boa família local, tendo o casal e os filhos do 1º casamento  mudado-se para Fortaleza.

Outro comerciante que popularizou-se bastante foi Zé do Ferreirinha, principalmente  por sua afinidade com a “marvada”, fazendo com que grande parte do estoque da mesma fosse consumido por ele. Alguns desses críticos que proliferam nas esquinas contam uma “estorinha” a respeito desse comportamento, afirmando ser a mesma verdadeira. Dizem que Zé, ao abrir diariamente a  bodega, dava bom dia para as prateleiras e ia para trás do balcão, onde respondia: - Bom dia freguês. O que deseja? Se dirigia  em seguida  para o lado externo do balcão e pedia: -Bota uma bicada aí pra mim Seu Zé. Voltava  para a parte interna do balcão e servia a bicada pedida pelo fregûes. Arrodeava outra vez para a parte externa do balcão e sorvia aquele “precioso” líquido, batendo em seguida com o dedo indicador sobre os outros da mesma mão e lançando simultaneamente uma cusparada sobre a parede  mais próxima. Em seguida voltava à posição de comerciante e perguntava se o freguês queria beber outra. Alternava sequênciadamente a condição de comerciante e freguês até que aparecesse um freguês real que, despachado convenientemente, deixasse “os dois” prosseguirem na tarefa agendada até que o “freguês” se embriagasse. Quanto ao Zé, tinha uma embriaguês menor, permitindo-lhe cumprir a ultima tarefa do dia, qual seja, fechar a bodega até o dia seguinte, quando a cena se repetiria. Foi embora com a família para o estado de Rondônia, onde veio a falecer alguns anos depois.

Seu Sinfrônio e Zé do Ferreirinha, duas ótimas figuras humanas, marcaram suas passagens nesta vida.

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WebMaster: David Elias N. Sá Cavalcante

Editor/Redator: Elias Eldo Sá Cavalcante

F O L H A   D E   M O M B A Ç A - Nº 18 - FEVEREIRO/2003