Crônica: "Causos do Padre Zé"

 

Para variar, o delegado era também um político local e, como político, não queria perder a oportunidade de “aparecer”. Fazia de tudo para atrair público para o espetáculo que estava sendo apresentado diariamente à custa do pobre sujeito, que recebeu então a alcunha de Manoel Piauí. Foi instalado no alto do prédio da delegacia de policia local uma “radiadora” (sistema de alto-falantes) com o intuito de que fosse transmitido para o publico postado na pracinha em frente, todo o interrogatório (agora oficial) do “perigoso bandido”. 
O mais impressionante de tudo aquilo é que esse interrogatório só acontecia no período noturno. Talvez porque naquele horário houvesse mais gente sem ter o que fazer, indo esses se juntarem aos eternos desocupados. Ou talvez concorresse para isso o sistema de iluminação elétrica da cidade, sistema esse que funcionava somente no horário compreendido entre 6 horas da noite (18 horas) às 10 horas da noite (22 horas). Como havia um sinal de que seria desligado o sistema, 15 minutos antes, consistindo esse em três cortes rápidos de luz, todo movimento nas ruas cessava às 9:45 horas, para que desse tempo de se chegar em casa antes de que a escuridão predominasse sobre a cidade. Haveria assim à noite pouco tempo disponível, o que prolongaria o inquérito policial por vários dias.
A rotina era assim: 18 horas - ligação da energia elétrica; 18:30 horas início das atividades da “radiadora”, com a execução musical de um dobrado, que hoje sabemos ser o Hino da Marinha do Brasil, musica essa “tocada” em todos os intervalos do interrogatório; 19 horas início do interrogatório, com constantes interrupções; 21:30 horas encerramento das atividades da “radiadora”, permanecendo, entretanto o publico na praça, trocando suas impressões sobre as declarações do Manoel Piauí, até que fosse dado o “sinal da luz”.
Numa dessas rotineiras noitadas, quando o Manoel Piauí “confessava” estar ali para matar o Coronel Chico Félix, alguém alertou:
- Lá vem o Pe. Zé! E vem armado!
Aquilo foi o bastante para provocar um tumulto de conseqüências quase desastrosas, pois na correria e no “salve-se quem puder”, muitas pessoas caíram e foram pisoteadas pelas outras que buscavam abrigo fosse lá onde fosse, mas de preferência as casas residenciais mais próximas. Esse acontecimento foi o bastante para que o “circo fosse desarmado” e o Manoel Piauí fosse transferido para Fortaleza, onde finalmente uma “pretensa verdade” foi estabelecida e os competentes investigadores da capital chegaram a conclusão que Manoel Piauí era um pobre sujeito, vítima das politicagens interioranas. Foi liberado e retornou pro seu estado natal.
Ficou então a dúvida: aquilo era ou não realidade. Se sim, por que parou? Se não, por que humilhar tanto um cristão quanto humilharem o pobre Manoel Piauí?

 

 

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Editor/Redator: Elias Eldo Sá Cavalcante

F O L H A   D E   M O M B A Ç A - Nº 22 - JUNHO/2003