Nossa Palavra

 

Não é esta a primeira vez que mudamos o rumo desse editorial, de uma hora para outra, em função de um fato ou assunto que nos chega ao conhecimento de alguma forma. Em conversa informal com um pequeno apicultor do município, o mesmo comentou sobre a baixa produtividade dos enxames neste ano, usando esse em sua conversa a expressão: “parece coisa botada”. Numa ocasião dessas o pensamento, cuja velocidade é maior que a da luz -dizem, nos leva por diversos caminhos, a rever situações passadas, presentes e imaginar futuras.
Fomos parar nos anos 70, quando Mombaça era um dos maiores produtores de algodão do Ceará e do Nordeste do Brasil. Havia uma situação de progresso com a geração de empregos quase o ano todo, quer nos campos de algodão, quer nas usinas de beneficiamento - por aqui eram duas de pluma de algodão e uma de extração de óleo e torta de algodão. De repente chega um tal de “bicudo” que só existia no lado norte-americano, vindo parar aqui só Deus - e os fabricantes de defensivos agrícolas - sabem como. Desabou uma estrutura agrícola já frágil pela própria localização na região semi-árida do País, promovendo assim a instalação de uma relativa condição de pobreza no homem do campo que buscou então centros maiores onde pudesse buscar o sustento próprio e da família. Veio junto o advento das aposentadorias rurais e com ele uma enorme gama de “agregados” seguiu junto para as periferias das pequenas cidades, entre elas, a nossa. Pouco foi feito pelos poderes públicos constituídos para melhorar essa situação e ainda assim, com ações privilegiamentes localizadas em detrimento de outras.
No fim do século passado, uma ação da pequena iniciativa privada possibilitou a instalação de um projeto apícola em algumas cidades cearenses, entre as quais a nossa. Foram beneficiados cerca de 220 pequenos apicultores que, por algum tempo ficaram abandonados de uma assistência maior no que se refere a comercialização do mel por eles produzidos, de excelente qualidade, diga-se de passagem. Eis que no ano de 2002, foram detectadas substâncias nocivas à saúde humana no mel produzido na China, o maior exportador do produto para a Europa, com cerca de 80.000 tonelada/ano. Na busca de um novo fornecedor para substituir o mercado chinês, os exportadores descobriram que o mel produzido na região Nordeste atingia um altíssimo padrão de qualidade, com um produto livre de quaisquer resíduos de defensivos agrícolas e metais pesados. Isso foi uma verdadeira redenção para os rurícolas nordestinos, com o Brasil exportando no ano passado algo em torno de 20.000 toneladas, bem aquém das necessidades dos consumidores europeus, mas com excelente reflexo positivo para a economia regional. E entre nós, foram exportadas cerca de 160 toneladas, chegando o produto atingir um preço justo, de cerca de R$ 6,00 o quilograma.
Isso causou uma grande euforia nos já produtores e até mesmo em alguns proprietários rurais, fazendo com que fossem feitos investimentos, com recursos próprios, na aquisição de colméias e equipamentos apícolas. Claro que entre esses, alguns aventureiros, que sem nenhuma qualificação técnica, buscavam apenas o que pensavam ser “lucro fácil”.
Tudo ia muito bem até que a “natureza” pregou uma peça na atividade apícola regional, pois, apesar do chamado “bom inverno”, com chuvas regularmente distribuídas, o que proporcionou uma boa safra de grãos, a florada ficou prejudicada por um grande ataque de lagarta na mata, não havendo assim néctar necessário para o fortalecimento dos enxames e conseqüentemente uma boa produção de mel, com a previsão de queda de mais de 60% em relação ao ano passado, havendo localidades em que essa queda de produção será ainda maior.
É realmente uma situação muito esquisita, chegando a despertar entre nós uma desconfiança em relação a essa atitude “espontânea” da mãe natureza. Ou isso seria 'COISA BOTADA” como o foi com o algodão? Existem muitos interesses contrariados numa relação dessas e muita gente privilegiando o interesse financeiro acima de qualquer outro.

                                                

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WebMaster: David Elias N. Sá Cavalcante

Editor/Redator: Elias Eldo Sá Cavalcante

F O L H A   D E   M O M B A Ç A - Nº 22 - JUNHO/2003