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Voltamos a ter nesta edição nossas figuras
folclóricas como enfoque, descrevendo algumas curiosidades sobre as
vidas de dois CIÇOS (apelido
popular para o nome Cícero). Um já é falecido há alguns anos,
enquanto que o outro ainda freqüenta assídua e semanalmente as
ruas da cidade.
Comecemos então falando no Ciço Aleijado
o já falecido-, morador do “outro lado do rio”, onde se
localiza hoje a Vila São José
ou Vila Batista, como a chamam algumas pessoas. Ciço andava
sempre montado em um jumento, já que era deficiente das duas pernas
e portanto, aquele era seu mais favorável meio de locomoção. Não
tinha acompanhante, já que não precisava “desapiar” de sua
montaria durante o trajeto, como seja, percorrendo a cidade
diariamente, cada dia em uma rua diferente da do anterior, a pedir
esmolas, necessárias à sua sobrevivência, já que naqueles tempos
ainda não existia a chamada aposentadoria
- ou pensão?- para deficientes. Era um cidadão bem
humorado, tendo sempre um sorriso no agradecimento da esmola e não
fazendo cara feia quando essa lhe era negada. Não andava
maltrapilho nem tinha a “resposta bruta” característica de
alguns pedintes que não têm atendido sua solicitação. Enfim, era
uma pessoa querida na pequena Mombaça dos anos sessenta, tendo
marcado sua presença cá entre nós.
O outro Ciço ainda é vivo e reside no Sitio Banquinhas,
Distrito de Carnaúbas, vindo uma vez por semana à cidade buscar
suas esmolas, sempre na companhia de um “guia”, vez que é
“cego de nascença”, o que lhe valeu o
apelido de Ciço Cego. Já pedia esmolas desde o tempo do Ciço
Aleijado e continua pedindo até os dias de hoje apesar de receber
benefícios do INSS desde que foi iniciada essa modalidade de ajuda
para pessoas portadoras de deficiências. Também não é agressivo,
chegando mesmo a ser simpático, motivo pelo qual muitos ainda lhe dão
esmolas, mesmo sabendo que o mesmo tem seu “dinheirinho certo”
vindo da pensão supra citada. Uma das suas características é usar
sempre no ambiente em que está pedindo, a frase: “e aquele
outro?”, numa fala arrastada, interpelando assim um possível
doador, mesmo que no local haja apenas um. Falamos “uma de suas
características” porque corre de boca em boca a notícia de que
Ciço Cego é um tremendo namorador, sendo sempre muito cortejado até
mesmo por mulheres casadas não satisfeitas com o que têm nem casa. |