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-E aí Rena, que bicho deu hoje?
- Rena o que nego safado! Eu não te dei essa
liberdade pra você botar apelido em mim, seu cachaceiro.
- Calma Rena, não se afobe!
Esse era um diálogo costumeiro entre o Fumaça, uma das
nossas figuras folclóricas já citada em edições anteriores e
Renato Machado, alvo dos nossos comentários nesta edição. Na
verdade o fumaça queria apenas saber o resultado do jogo do bicho
naquele dia, pois havia feito uma fezinha logo cedo, antes de se
empanturrar de cachaça. Seu interlocutor era coletor de apostas do
jogo do bicho.
Renato era uma figura humana extraordinária.
Bonachão, quieto, conversador em raros momentos, mas que aqui e
acolá ficava bravo com alguma coisa da qual não gostava. E uma
dessas coisas era a prosa que o Fumaça, já em estado etílico
bastante avançado, queria entravar com Renato.
Primeiro veio lhe tirar um pouco do sossego a construção da
estrada CE-55 (hoje, inexplicavelmente CE-60) que cortou as terras
de sua família ao meio, no trecho que vai do balão até o bairro
Tejubana e depois a construção do terminal rodoviário, pois parte
do terreno onde essas obras foram construídas pertencia a família
Machado e era dali que Renato tirava o seu sustento, com grande
parte do dinheiro sendo empregada na aquisição do seu inseparável
cigarro, o qual era consumido em número superior a cinqüenta
unidades diárias. Sua principal atividade nesse terreno era a
fabricação de tijolos. Beber não bebia e era esse um dos segredos
de suas esquisitices. Conta-se que na juventude, nos anos cinqüenta
era Renato um dos bons páreos para as moças casadoiras daquela época,
mas sua timidez impedia que o mesmo aproximasse-se dessas, motivo
pelo qual procurou encorajamento na bebida. Mas o diabo foi que ele
acabou gostando mesmo da bebida mais do que podia, embora essa não
provocasse maiores contratempos.
Porém, como é de praxe, “ela” um dia atinge seus
objetivos e o fez numa bela manhã de domingo com nosso amigo Renato
que, passando da conta, não conseguiu chegar em casa e caiu numa
coxia ali pelo centro da cidade. Ninguém lhe prestou socorro ou
mesmo o importunou, permanecendo ali, ébrio, caído até o final da
tarde, quando então retornou do seu “cochilo”, sacudindo a
poeira, corado de vergonha, já que naquele momento passavam famílias
e as moçoilas, com destino à missa das seis.
É imensurável o grau de vergonha, decepção, ódio para
consigo mesmo, que se fizera presente em Renato. Seria aquela a última
vez que ele pisara no centro da cidade, enclausurando-se daquele dia
em diante nas terras de seu pai, da qual afastava-se no máximo cinqüenta
metros “em roda”.
Com o advento da estrada (trecho denominado Av. Beira Rio) e
do terminal rodoviário, Renato voltou aos poucos a ter um pouco de
contato com “o mundo” e tomar pé de alguns avanços
progressistas, entre os quais, mini-saias que povoavam as noites no
terminal rodoviário, pois por alguns anos aquela área foi o local
de encontro preferidos por jovens e boêmios citadinos. Renato
amansou um pouco e algumas vezes, nas tardes de menos freqüência
arriscava uma “sentada” na calçada sem contudo passar dos “50
metros”.
Quando de seu diálogo com Fumaça, no início desta, Renato
era aposentado pelo FUNRURAL e dormia num quarto em frente a casa
onde nasceu e foi criado. Fazia as refeições em casa, mas passava
o resto do dia no seu quartinho, onde vendia bananas e
esporadicamente outras frutas e fazia jogo do bicho. Lucro com o
jogo não tinha, pois sua comissão nas apostas era investida ( e
mais uma parte do aposento) no jogo, tendo raras oportunidades de
“acertar no bicho”, apesar de sempre afirmar ter formulas
mirabolantes para ganhar. E um certo tempo ele até andou ganhando,
pois numa de suas formulas, acreditava que jogando a mesma quantia
em pelo menos vinte bichos, raramente não acertava. Sem fazer balanço
de lucros e perdas, fez isso por algum tempo até que explicações
dadas pelos amigos e a perda constante de parte do aposento fizeram
com que passasse algum tempo fazendo apenas “uma fezinha”. Aqui
acolá tinha uma recaída.
Morreu ainda relativamente jovem, vítima do seu querido
cigarro que não o poupou nos últimos anos, imprimindo-lhe uma
tosse constante acrescida de cansaço e um pouco de falta de ar.
Ficou o exemplo de um homem opinioso, de vergonha, do qual o mundo
atual anda tão carente.
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