Nossas Figuras Folclóricas - 12

 

-E aí Rena, que bicho deu hoje?

- Rena o que nego safado! Eu não te dei essa liberdade pra você botar apelido em mim, seu cachaceiro.

- Calma Rena, não se afobe!

            Esse era um diálogo costumeiro entre o Fumaça, uma das nossas figuras folclóricas já citada em edições anteriores e Renato Machado, alvo dos nossos comentários nesta edição. Na verdade o fumaça queria apenas saber o resultado do jogo do bicho naquele dia, pois havia feito uma fezinha logo cedo, antes de se empanturrar de cachaça. Seu interlocutor era coletor de apostas do jogo do bicho.

Renato era uma figura humana extraordinária. Bonachão, quieto, conversador em raros momentos, mas que aqui e acolá ficava bravo com alguma coisa da qual não gostava. E uma dessas coisas era a prosa que o Fumaça, já em estado etílico bastante avançado, queria entravar com Renato.

            Primeiro veio lhe tirar um pouco do sossego a construção da estrada CE-55 (hoje, inexplicavelmente CE-60) que cortou as terras de sua família ao meio, no trecho que vai do balão até o bairro Tejubana e depois a construção do terminal rodoviário, pois parte do terreno onde essas obras foram construídas pertencia a família Machado e era dali que Renato tirava o seu sustento, com grande parte do dinheiro sendo empregada na aquisição do seu inseparável cigarro, o qual era consumido em número superior a cinqüenta unidades diárias. Sua principal atividade nesse terreno era a fabricação de tijolos. Beber não bebia e era esse um dos segredos de suas esquisitices. Conta-se que na juventude, nos anos cinqüenta era Renato um dos bons páreos para as moças casadoiras daquela época, mas sua timidez impedia que o mesmo aproximasse-se dessas, motivo pelo qual procurou encorajamento na bebida. Mas o diabo foi que ele acabou gostando mesmo da bebida mais do que podia, embora essa não provocasse maiores contratempos.

            Porém, como é de praxe, “ela” um dia atinge seus objetivos e o fez numa bela manhã de domingo com nosso amigo Renato que, passando da conta, não conseguiu chegar em casa e caiu numa coxia ali pelo centro da cidade. Ninguém lhe prestou socorro ou mesmo o importunou, permanecendo ali, ébrio, caído até o final da tarde, quando então retornou do seu “cochilo”, sacudindo a poeira, corado de vergonha, já que naquele momento passavam famílias e as moçoilas, com destino à missa das seis.

            É imensurável o grau de vergonha, decepção, ódio para consigo mesmo, que se fizera presente em Renato. Seria aquela a última vez que ele pisara no centro da cidade, enclausurando-se daquele dia em diante nas terras de seu pai, da qual afastava-se no máximo cinqüenta metros “em roda”.

            Com o advento da estrada (trecho denominado Av. Beira Rio) e do terminal rodoviário, Renato voltou aos poucos a ter um pouco de contato com “o mundo” e tomar pé de alguns avanços progressistas, entre os quais, mini-saias que povoavam as noites no terminal rodoviário, pois por alguns anos aquela área foi o local de encontro preferidos por jovens e boêmios citadinos. Renato amansou um pouco e algumas vezes, nas tardes de menos freqüência arriscava uma “sentada” na calçada sem contudo passar dos “50 metros”.

            Quando de seu diálogo com Fumaça, no início desta, Renato era aposentado pelo FUNRURAL e dormia num quarto em frente a casa onde nasceu e foi criado. Fazia as refeições em casa, mas passava o resto do dia no seu quartinho, onde vendia bananas e esporadicamente outras frutas e fazia jogo do bicho. Lucro com o jogo não tinha, pois sua comissão nas apostas era investida ( e mais uma parte do aposento) no jogo, tendo raras oportunidades de “acertar no bicho”, apesar de sempre afirmar ter formulas mirabolantes para ganhar. E um certo tempo ele até andou ganhando, pois numa de suas formulas, acreditava que jogando a mesma quantia em pelo menos vinte bichos, raramente não acertava. Sem fazer balanço de lucros e perdas, fez isso por algum tempo até que explicações dadas pelos amigos e a perda constante de parte do aposento fizeram com que passasse algum tempo fazendo apenas “uma fezinha”. Aqui acolá tinha uma recaída.

            Morreu ainda relativamente jovem, vítima do seu querido cigarro que não o poupou nos últimos anos, imprimindo-lhe uma tosse constante acrescida de cansaço e um pouco de falta de ar. Ficou o exemplo de um homem opinioso, de vergonha, do qual o mundo atual anda tão carente.

 

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F O L H A   D E   M O M B A Ç A - Nº 26 - OUTUBRO/2003