SAGA DOS SERTÕES DE MOMBAÇA


Serranias de Sudoeste
caminhando para Nordeste,
braços perdidos da Ibiapaba,
do Luna ao Calogí,
Serra de Santa Rita,
Chapadas do Quixelô,
Tabuleiros de Quixeramobim
a dos Inhamuns,
bordos dos seios encurvados
das entranhas férteis da terra núa,
beijada pelos vales úmidos
dos Sertões de Mombaça!

E o Banabuiú, descendo das nascentes,
bebendo na trama dos riachos,
rasgando com os afluentes torrenciais
o peito cristalino antigo!

O deflúvio das águas,
depositando no leito das ravinas
os solos descarnados,
erodidos!..

Gargantas e boqueirões,
vincos de serros partidos
que o sertanejo barra
para reter o saldo líquido
na terra sêca,
formando açudes!

Outrora,
estes músculos emagrecidos
eram potentes...

Foram densamente cobertos
do manto verde,
viçosos os seios
da virgem terra
para o germinar das sementes
e dos pastos sortidos.

Cresciam mais fortes os rebanhos.
O ventre de nossa irmã e mãe Terra
atraiu ao conúbio
os sertões de dentro
e os sertões de fora,
desde Paraíba e Pernambuco
aos barrancos do Rio São Francisco.

Vinham chegando
e iam ocupando...

Mediam a terra
com as patas dos seus cavalos,
abriam caminhos
com os rastros dos seus armentos.

Ocuparam a ribeira do rio
que o índio nú chamou
Brejo das Borboletas,
outros chamaram de Rinaré,
e tornou-se Rio da Palha
de Santos Vilhena.

Vinham chegando
e logo povoando...

O áspero Capitão João de Barros Braga,
a legendária Maria Pereira da Silva
e o português Serafim Dias
ganharam esta sesmaria em 1706,
com apenas tinta e papel,
terra que deveriam garantir
com suor e sangue
e outros deveriam cultivar
com suor e lágrimas...

Quando o rico português morreu
acompanhou o seu corpo até o rio
uma gata de estimação.

O rio estava cheio
o morto carregado nos ombros
de índios e de escravos.
E a gata ficou-se num rochedo,
a mirar as águas rolantes,
solitária, a chorar,
até que uma piaba,
saltando do rio,
apanhada no dente,
faz-se o seu primeiro repasto.

O tempo passou,
a gata emagreceu,
piaba não veio,
pesca não se viu,
até que a gata morreu,
triste, na cegueira de esperar...

os que alí lutaram,
os que lidam ainda
por intento e teimosias,
dizem que têm a cegueira
da gata de Serafim Dias.


*** Meia légua de terras,
trinta vacas e um touro,
cem braços e cem palmos
à margem do Banabuiú
foram o doado patrimônio
com que Dom Tomaz da Encarnação,
bispo de Pernambuco,
concedeu que se erigisse
a capela de Nossa Senhora da Glória,
nossa padroeira,
nossa benfeitora,
nossa advogada.

Antônio Lemos de Almeida,
Eugênia Gonçalves de Carvalho,
Teresa de Souza
vocês sabiam
que doando um chão e fazenda,
estavam plantando civilização?

E veio Pedro Barbalho
e o outro Pedro da Cunha Lima,
Antônio Ferreira Marques,
Rodrigo Francisco Vieira
e o Jerônimo da Costa Leite.

O tronco ancestral cresceu mais
com Cosme Rabelo Vieira,
os de Rafael Pereira Soares do Coquidê,
os de José Goes e Melo,
os de Fontes Braga, do Aracati,
e, finalmente, entrosando-se na cadeia,
do velho Clã, Anacleto Martins Chaves
dos Inhamuns.

Amaram-se com as bençãos da Igreja,
ou à sombra das Ingazeiras,
os do sertão de dentro
e os do sertão de fora,
caldeando sangue de guerreiro índio
com sangue de guerreiro branco,
mui raramente pingados do sal
da costa de Kênia e de Melinde,
pois, se de lá veio o nome da Ribeira,
algum resíduo ficou do périplo africano.

Gente da casa Forte de Caiçara,
vocês guardaram o nome de Rodrigo,
casado com Quitéria,
da família dos Montes?

O Comandante Augusto Francisco Vieira
cresceu aqui na mesma arte do seu parente
Cosme, dono da Jacoca e do Quixeramobim.
Juntou em suas mãos quase todas as fazendas
que depois se partiram em mil pedaços
e hoje só restam o Maxixe
e o São Jerônimo
para lhes contar a estória!..

Fazenda Barra Nova,
teus caminhos, campos e alpendres
nos contam a bravura e astúcia
do Capitão Honorato da Silva Limoeiro,
prendendo, sozinho, temerosos assassinos
Ele sozinho valia um batalhão.

Vinham chegando
e tomando conta de tudo.

Padre para batizar e casar
encomendar e dizer missa,
juiz e escrivão pra fazer justiça.

Padre Sarmento Benevides,
nomeado Vigário da Freguezia
de Nossa Senhora da Glória,
trazendo família letrada
e política da Paraíba,
recomendou a enxertia
do seu Clã no outro Clã.
Fazendo eleições dentro da Igreja
o presbítero de Nosso Senhor,
Cavalheiro da Ordem de Cristo,
elegeu-se deputado em oito legislaturas
da Assembléia Provincial,
mas, o fazendeiro Antônio Gonçalves de Carvalho,
dos Lemos de Almeida,
com muita devoção,
fazia promessa,
indo ouvir missa,
levando nos ombros,
da sua Fazenda Jardim,
uma grande cruz de aroeira...

Em casa,, os escravos sofriam...
Exercendo política,
um filho do pagador de promessa
xingava o Vigário,
comandando a oposição.

- Quem tem mais poder aqui
que o Juiz de Direito?
Pergunta o Dr. Inocêncio Camargo
numa festança a seus filhos diplomados
e chegados de Olinda.

- Tem, seu doutô.
- Quem é? Insiste o Juiz.
- Cacête, disse o João Pedrosa
no meio da multidão.

Comarca de Maria Pereira
voltando a têrmo, com Juiz de Paz:

- Coronel Olímpio Vieira,
vossimicê, que é juiz,
me diga quando uma promissória prescreve?

- a promissória prescreve,
no dia em que o velhaco assina!..

Tempos idos de aldeia solitária,
murada de rincões patriarcais,
com os seus coronéis
valentes e leais,
sinceros, hierárquicos!

Mombaça do coronel Chico Brasil,
sobreçando os velhos troncos da herança!
Do cabra Zé Mariano, saltando
a janela da casa, de rifre na mão
para defender o amo, a rolar pelo chão,
atirando e a gritar bem perto da escolta:
- Segura na bala, soldado,
que agora eu vou é no punhal!..

Mombaça de Pedro Martins de Melo,
altivo, mas sem arrogância,
falando forte, solitário,
e à frente de seus parentes unidos,
ditando a um Tenente da Polícia
que a família repelia a afronta.
Dobrasse a esquina e deixasse a cidade.

Terra de todos nós
e do Coronel José Aderaldo de Aquino,
tratando rudeza com elegância,
chefiando cordialmente a política,
e metido em seu croisé,
marcando quadrilhas em francês...
Com apenas algumas tintas
a mais do ABC, mais parecia
um nobre dos salões da Europa
perdido nas asperezas dos sertões.

Na subversão de Juazeiro,
a sua casa e a do mano Ernesto,
dizem que foram as únicas
que não levantaram
a bandeira vermelha adesista
da revolução.

Vilarejo romântico
de Antônio Pedro de Sá Benevides!

Vocês não o conheceram,
mas eu vi o tabelião,
vibrando flautas e violões,
tocando missas e ladainhas,
hinos na Escola,
modinhas de calçadas
e modinhas de Igreja,
e fazendo representar
com músicas de sua lavra
o drama de Flor de Abril.

Sêcas de 1877,
de 1915 e 1919!
A fome, a sêde, a peste,
a debandada dos sertões.

A Transamazônica começou aqui.
José Frutuoso Voltou rico dos seringais.
Poucos escaparam,
muitos foram perdidos
na trama do Inferno Verde...

Mestre Senhor,
meu tio Lulu,
minha tia Malim,
onde estão os restos de vocês? ***

Disse um Padre profeta:
só o céu descanca o Ceará,
não dando chuvas,
negando água.
Os vales do Vicente,
de santa Bárbara
e do João Alves,
serão tão férties
quanto o Carirí
se construírem açudes.

Queremos também o rio
pinçado nos seus flancos
e mais a estrada de ferro com as de rodagem,
economia solitária nos sertões.

O ramal de Piquet Carneiro a Crateús não veio
mas veio a Estrada do Algodão.
E a energia de Paulo Afonso está aqui.

Depressa, amigos,
a terra está ainda viva,
os campos estão bolindo
e as fontes ainda não secaram.

Alí o Canzuim,
o Canaan e o Guaraní.

Eu quero ouvir os bois
gateando na Barra Nova.

Depressa,
por uma comunidade solitária,
com o homanismo fazendo sinal
em nossas frontes:
Política, Amizade, Trabalho!

O rio Banabuiú
desce ainda carregando limo
nas águas barrentas para o mar.

No alto do rochedo solitário,
com os músculos emagrecidos,
vai morrendo e resistindo
a gata de Serafim Dias
na velha teimosia de esperar.
Basta.
Não posso mais.
Eu quero ver a minha terra
com olhos de menino.
Tragam a vaca Chita Fina
e o meu carneiro Jasmim.

Hei de ver florido
o meu Risco do Prado.

Quero dar o meu peito ao Banabuiú,
descendo nas águas barrentas,
cobertas de troncos e de espumas...

Quero ir com ele,
rolando para o Mar,
o grande mar da saudade,
dos serros azulados,
bordando a terra verde
dos campos sem fim!...

Fortaleza, dezembro de 1975.

F. Alves de Andrade