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Capítulo
II
Talk to me softly
Don't Cry, gun's and Roses
Cerca de oito horas da manhã, o Santuário já fervia de atividades
logo cedo. Em todos os cantos, ocorriam treinos, fossem eles leves ou
pesados, sons de golpes ecoavam pelos quatro cantos da morada dos
cavaleiros.
Enquanto isso, no templo de Athenas, algo totalmente diferente e
sério acontecia. Nomeado como tutor dos herdeiros dos herdeiros de Kido e
com um alto posto na multinacional, havia aceitado a responsabilidade de
auxiliar e guiar Saori no mundo dos negócios.
Naquele momento, Camus encontrava-se numa enorme mesa do salão
principal do templo, mexia em uns papéis e os entregava à menina de
cabelos lilás do outro extremo da mesa, colocando-a a par dos negócios da
empresa. Ou pelo menos tentava...
- As ações da Petrolífera...subiram muito nesses últimos meses, sugiro
que compremos algumas, o que acha senhorita? Senhorita?
Levantou o olhar para a menina à sua frente, que não respondia. Saori o
olhava com os cotovelos na mesa e o rosto apoiado nas mãos, mas prestava
atenção alguma no que dizia, estava no mundo da lua.
- Saori?
- Sim?- respondeu melosa.
- A senhorita está bem?
- Hã?- acordou - Ah...é...poderia repetir a pergunta?
- Quer dar uma pausa? Eu assumo tudo por enquanto, só preciso que
assine esses papéis.
- Desculpa...
Vermelha de vergonha pela gafe, pegou os papéis oferecidos acanhada.
Os dedos do francês acabaram roçando nos dedos dela, uma carga elétrica
passou pelo corpo da menina. Teve que se segurar para não tremer e assinar
sem mostrar nervosismo.
- Prontinho! Pode ir se distrair, entendo que esses assuntos são chatos
e cansativos para uma jovenzinha. - sorriu gentilmente.
- Mas...
- Não se preocupe, estou aqui para isso.
- Ah...claro...Até mais tarde.
- Tchau!
Saiu desanimada, queria ficar mais um pouco, mas que desculpa daria?
Talvez umas compras na cidade a acalmasse. Passou apressada por Aldebaran,
que a reverenciou antes de entrar no aposento que acabara de deixar.
Notara as faces rubras da garota, franziu as sobrancelhas grossas.
Encontrou Camus em frente ao laptop, em meio a uma montanha de papéis
espalhados pela mesa.
- Trabalhando feito um camelo? - sua voz forte fez-se ouvir.
- Ora, Aldebaran! Sente-se, quer conversar?
- Não vou te atrapalhar?
- Não vai, não.
Acomodou-se na poltrona, que mal comportava seu tamanho. Era
engraçado ver um homem grande e robusto como Touro sentar-se elegantemente
e civilizado, e não desajeitado, como seu porte deveria denunciar.
- Vi nossa deusa sair apressada e meio sem jeito, o que aconteceu?
- Foi? Não sei...acho que está cansada. E eu aqui jogando papéis e
decisões em cima dela, não conseguia prestar atenção em nada que eu dizia.
- Ho, ho, ho! Creio que sei o que há!
- Mesmo?
- Ela deve estar apaixonada, é normal na idade.
- Por quem? Ah...aquele Seiya...
- Não, não...ha, há...me parece ser por um homem mais velho, bem mais
velho...
O grandalhão olhou malicioso para o francês, que ficou meio confuso
com a insinuação. Depois de alguns segundos percebeu de quem se tratava.
- Pelo amos de Zeus! Não me diga isso! Tenho pânico de adolescentes
apaixonadas!
- Pânico? Mas porque, é tão saudável que ela se sinta assim...
- Fala isso porque nunca teve aprendizes amazonas, era um martírio!
Grudavam feito chiclete!
O outro deu uma deliciosa risada. Passaram umas duas horas numa
conversa agradável, sobre assuntos banais, até que Camus encerrasse o
trabalho dele.
- Aldebaran, poderia fazer um favor para mim?
- Fala!
- Poderia chamar Hyoga aqui? Quer dizer, se você passar pela área de
treinamento, creio que ele deve estar por lá.
- Claro, problema algum.
- Obrigado!
***
Acordou com uma dor de cabeça terrível. Ainda deitado, massageou as
têmporas, tentando amenizar aa dor. Olhou para o lado da cama, para o
relógio da cabeceira. Assustado, pegou o objeto para ver melhor. Dez horas
da manhã? Não podia ter dormido tanto assim, que displicência !
Sentiu um enjôo e saiu correndo para o banheiro, direto para o vaso
sanitário. Depois de vomitar, ficou sentado no chão, limpando o canto da
boca com as costas da mão. Porquê Camus não o havia lhe buscado para
treinar?
Ao levantar-se e olhar-se no espelho, entendeu o porquê. No lábio
inferior cortado, a lembrança do dia anterior. Gemeu inconformado e socou
a pia, lascando um pedaço do mármore frio.
Sonolento, tomou uma ducha fria, para curar a ressaca e acordar.
Vestiu-se cuidadosamente, seu corpo doía a cada movimento brusco e a
cabeça latejava. Saindo do alojamento, deu uma volta geral pelo lugar, sem
encontrar o mestre.
Avistou Ikki sentado numa pedra, observando o irmão treinar com Milo
e June. Juntou-se a ele.
- Não deveria estar com Shaka?
- Deveria, mas Milo contou o que aconteceu ontem, e o budista ficou
bravo comigo.
- Que ótimo...E o que ta fazendo aqui?
- Esperando o treinamento de Shun acabar para arrebentar a cara do
desgraçado...
-
Entra na fila.
Os dois emburrados olharam-se, voltando-se para a cena que se
desenrolava a poucos metros adiante. Shun estava no meio da arena, olhando
alternadamente para June e Milo, um em cada extremo. Esperava o ataque a
qualquer instante. Simultaneamente, os dois pularam, a amazona
lançou o chicote, prendendo firmemente o pulso de Andrômeda.
Escorpião lançou vários golpes em um segundo, sem poder mover-se
muito, já q era mantido preso, não teve outra saída a não ser apartá-los
com a mão direita nua.
Ikki remexeu-se inquieto, segurando o ímpeto de sair dali e proteger o
irmão. Mesmo sabendo que era um mero treinamento, Não suportava ver Shun
ser atacado. Do seu lado, Hyoga mal prestava atenção no que Shun fazia,
estava obcecado pela visão de Milo em ação. Entre os revoltos cabelos
longos, escondia-se a expressão de fúria com a qual aplicava o golpe.
Durou apenas dez segundos. Baixando a guarda, Milo colocou as mãos
na cintura e com um gesto, mandou June soltá-lo. O garoto de cabelos
verdes oscilou um pouco, mantendo os pés firmes no chão. O mestre vendo
seu esforço e o braço danificado, balançou a cabeça.
- Fez de novo, Shun. Desviando-se dos golpes e contra-atacando, sua mão
não ficaria assim.
Andrômeda abaixou o rosto, escondendo-o entre as mechas verdes,
segurando o braço e encolhendo os ombros.
- E June? Se eu saísse da rota, ela teria sido atingida!
- Ela estava preparada para defender-se, não se preocupe, só está aqui
para dificultar. Eu não seria tolo a ponto de deixá-la exposta desse
jeito.
- É verdade, vi todas as trajetórias, Milo sinalizou. Visava apenas
atingir você...
- Ah...desculpa...decepcionei de novo...
Shun esperou pela bronca, mas o outro afagou-lhe a cabeça. Era
assim, quando ficava impaciente, descontava no menino, quando cansado
dava-lhe esses confortos. Nunca sabia o que viria.
- Tentamos novamente, até conseguirmos algum resultado, ok?
Assentiu tímido. Milo virou-se de costas, massageando a nuca, estava
tenso. Viu os dois rapazes observando-os, especialmente o loiro, que o
fitava intensamente com a boca contraída, conhecia aquela birra de
criança. Decidiu ignorá-los, voltando para os seu casal de alunos.
Aldebaran surgiu de trás dos garotos, dando-lhes um tremendo susto
ao dar simplesmente um "bom dia" com sua voz de trovão. Cada um pulou para
um lado, o grandalhão gargalhou.
- Calma...sou tão assustador assim?
- Precisava chegar sorrateiro?
- Sorrateiro, eu? Com esse tamanho todo é meio difícil...
Ikki revirou os olhos e Hyoga coçou a cabeça, disfarçando.
- É, realmente, ia ser difícil não percebê-lo a quilômetros de
distância...
- Engraçadinhos...Bom! Camus quer falar com você, amigão, no templo. -
deu uns tapinhas nas costas do rapaz (tapinhas?sei...) - Juízo, meninos!
Cisne tornou-se vermelho, e depois branco, Fênix podia jurar que
estava com medo de que podia ser. Ergueu-se de súbito, batendo a poeira
das pernas. Sem dizer nada, seguiu para o templo.
De soslaio, Milo viu o loiro distanciar-se.
***
Não foi de imediato ao local onde fora chamado, pelo contrario,
ficou perambulando por três horas. A justificativa? Nem mesmo ele sabia
porque, talvez quisesse irritá-lo como na noite anterior, ou então estava
com receio do que tinha para dizer-lhe. Camus chamar-lhe para uma
conversa, devido as circunstâncias, coisa boa não era.
Em frente à imensa porta, hesitou, e bateu três vezes, batidas tão
leves, que rezava que ele nem tivesse ouvido. Do outro lado, Camus
mandou-o entrar. Sentado na poltrona de encosto alto, as mãos entrelaçadas
debaixo do queixo, os cotovelos nos braços da cadeira, a expressão séria e
fria.
- Faz três horas que eu o chamei, mocinho.
O aluno limitou-se a abaixar a cabeça e sentar do lado oposto da
mesa, sem pronunciar som algum. Aquário suspirou, havia tensão no ar.
- Há uma coisa que me surpreendeu e que não entendo. Qual a razão de
ter feito o que fez? Costuma ser o mais sensato dos cinco, o único que não
se deixa levar pelas besteiras que Ikki apronta, então o que acontece?
Um momento breve de silêncio seguiu-se, quebrado pela risada nervosa
do loiro.
- Jura que não entende? Procure lembrar do que aconteceu no mesmo
dia...
O mestre estreitou os olhos, previa que tocariam no assunto.
- Está insinuando que a culpa de seu ato é minha? Por acaso eu estava
fazendo algo errado, prejudicando alguém?
- Estava! A mim!
- Como?
- O que o senhor acha de ouvir piadinhas e fofocas sobre a preferência
sexual do seu mestre? Ficar ouvindo que ele anda transando com homens por
aí?
- Homens? Milo é um só!
- O senhor me entendeu!
- Hyoga, você sabia que eu e ele éramos amigos íntimos e nunca disse
nada!
- Espera um pouco, aí! Amigo é uma coisa, amante é bem diferente. Uma
coisa até aceito, a outra...
- Sei...então a noite na espelunca era uma forma de me punir? Não tem
coisa mais infantil...
- Não importa o que eu fui fazer lá! O senhor não é meu pai para ficar
me questionando dessa forma! Não é, nunca foi e nem será!
Encerrou a afirmativa ofegante, vendo Camus arregalar os olhos ao
ouvi-la. Silêncio total. O som de pássaros adentravam a atmosfera
desconfortável que se instalara.
Aquário andou calmamente até a janela, um ombro apoiado na parede e
com as mãos nos bolsos. Estava certo, não era seu pai, não era nada seu,
apenas seu instrutor, sua função era transformá-lo num cavaleiro forte. O
que estava fazendo, afinal? Porque mesmo sendo verdadeira, aquela
afirmação doía como tivessem lhe arrancado o coração?
Sentimentalismo barato, não devia ceder a ele.
Sorriu para si mesmo, que situação inútil aquela. Virou-se para o
aluno, que estralava os dedos, nervoso.
- E-eu não...
- Tem toda razão...eu não tenho nada a ver com o que faz, e você não
tem nada a ver com o que eu faço... a única relação que mantemos limita-se
ao treinamento, minha única obrigação é essa.
Cisne ficou boquiaberto, sem saber o que dizer. Havia dito aquilo
sem pensar, que reação conformista era aquela? Tinha a impressão de que
perdera seu mestre naquele instante. Na sua frente estava um homem frio e
impessoal, um desconhecido, completo estranho.
- Mas...
- Tenha uma boa tarde, Hyoga. Está dispensado.
Camus juntou alguns papéis e os colocou debaixo do braço, deixando-o
sozinho e confuso.
***
Nove e meia da noite. Milo via apenas a cama na mente, se bem que
estava necessitando de um banho urgente. Como havia prometido, não saíram
do lugar até que Shun evoluísse um pouco. Isso levou quase o dia
inteirinho. Seu corpo estava moído.
Subindo as escadas, pensava amuado em Camus. Passara o dia sem vê-lo,
estranho que não o houvesse procurado. Devia estar bem ocupado com seu
trabalho, se já era difícil lidar com aqueles meninos, imagine com Saori.
Apesar da condição de deusa, ainda era uma menina, com todas aquelas
complicações.
Abriu a porta e andou para o quarto, tendo uma surpresa ao acender a
luz. Aquário estava sentado em sua cama, com as costas curvadas e o rosto
escondido entre as mãos. Seria tentador se não fosse o fato de ele parecer
melancólico.
Agachou-se em frente a ele, tirando suas mãos gentilmente, revelando a
face abatida do seu amado. Segurou-lhe o rosto, fazendo-o abaixar-se para
beijá-lo. Camus correspondeu ao beijo sôfrego, como se tivesse com uma
sede de semanas. Escorpião começou a ficar incomodado, sufocado. Teve de
interromper bruscamente e se afastar um pouco.
Levantou-se e encostou as costas na parede, recuperando o fôlego, o
que ele achava que estava fazendo? Viu o outro aproximar-se como um
felino, tremeu ante aquele olhar diferente, não era terno, era duro, frio.
Prensou-o contra a parede, com uma perna entre as suas pressionando sua
virilha. Agarrou-lhe um punhado de cabelo puxando para baixo com força,
esmagando seus lábios com os seus.
Duas lágrimas escorreram de seus olhos, enquanto era praticamente
violentado. Foi agarrado pelos ombros e jogado na cama, contraiu-se de
dor, suas costas bateram nas tábuas abaixo da cama. Sentiu o colchão
vergar com o peso do outro, que se deitara sobre si, mantendo-o
imobilizado.
Suas vestes foram arrancadas, rasgando-se. Paralisado, Milo só via o
homem estranho que agia feito um animal sem sentimentos. Debruçando-se
sobre ele, mordeu seu ombro nu, escorpião gritou de dor. Aquilo passara
dos limites.
Reagindo finalmente, Milo estapeou-o, jogando-o longe e abrindo um
corte fino e longo na face do amante, de onde um fio de sangue escorreu.
Levando a mão ao ombro, descobriu-o banhado de sangue também. Abriu a
gaveta do criado-mudo ao lado da cama, tirando uma garrafa de água
oxigenada e algodão. Molhando o algodão, aproximou-se do outro, encostando
na face ferida. Camus virou o rosto bruscamente.
- Não chega perto...
- O que aconteceu com você? Estava me machucando!
- ...
- Tem a ver com Hyoga?
Aquário assentiu, evitando olhá-lo.
- Claro! Você briga com esse menino e quem leva sou eu! Que violência é
essa?
Apontou para o próprio ombro, fazendo Camus corar de vergonha ao
constatar o resultado da sua ferocidade.
- Perdão...eu não sei o que me deu...
- Não sabe, é? Pois ponha uma coisa na sua cabeça, meu corpo não é um
objeto inanimado no qual você pode chegar e descontar cada vez que ficar
nervoso!
Furioso, desceu da cama e dirigiu-se ao banheiro, batendo a porta
com força. Abriu a torneira até o fim, colocando o braço dentro da pia e
jogando água no ombro, que descia tingida de vermelho ralo abaixo. A
maçaneta mexeu-se, havia trancado a porta. Camus batia insistentemente,
pedindo que abrisse.
- Não vou abrir!
- Por favor, Milo...desculpa...
- Desculpas e mais desculpas...estou cansado delas se quer saber!
- Milo...
- Saia daqui! Vai embora! Não precisa voltar nunca mais!
- Você não sabe o que está dizendo.
- Para o inferno!
- ...Milo...você sabe que eu não volto atrás duas vezes...se eu sair eu
nunca mais volto...tem minha palavra!
- Ótimo!
- ...Certo...se é o que quer...adeus, Milo.
Olhou para o espelho, ouvindo os passos de Camus diminuírem e o
ranger da porta. Molhou o rosto várias vezes, tirando o vestígio das
lágrimas.
Após algum tempo, ainda em frente ao espelho, suspirou e correu para
a porta destrancando-a. Encontrou o quarto vazio.
Tocou o lençol revolto, pegando-o na mão e aspirando o perfume que
deixara impregnado. Porque fizera aquilo?
TO BE CONTINUE...
***
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