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Capítulo VI
Já não sei dizer se ainda sei sentir
O meu coração já não me pertence
Já não quer mais me obedecer
Parece agora estar tão cansado quanto eu
Maurício, Legião Urbana.
O médico
examinou-o rapidamente, fazia um dia que havia acordado. Tirando o
estetoscópio dos ouvidos, deixou Camus e chamou Milo para um canto do
quarto.
O aposento era agradável e até um
pouco luxuoso, nem parecia um mero quarto de hospital. Era individual,
espaçoso, mas isso explicava-se por se tratar de um hospital que atendia à
alta classe da capital grega, o que já era um tremendo diferencial na área
médica.
-
Tem certeza que não há grandes seqüelas?
-
Parece que não, mas vou providenciar alguns exames para
confirmar. É incrível que esteja intacto depois de uma queda daquelas,
houve sangramento, mas nenhum dano cerebral que necessite de cirurgia.
-
Sei...- se ele soubesse...- E a falta de memória?
-
Creio que é temporária, logo ele estará ligando os fatos, só
esta um pouco confuso, normal no estado dele.
-
Certo. Obrigado, doutor.
Ficou a sós com o cavaleiro,
suspirando pesadamente. Camus olhava disperso para a janela, mal
percebendo a aproximação do outro. Sentou-se na lateral da cama, segurando
sua mão, chamando-lhe a atenção para si. Virou-se e sorriu docemente,
recebendo em troca um sorriso triste.
Juntou as sobrancelhas preocupado, o
que o perturbava, seu lamentável estado? Seria tão grave assim sua
situação? Levou a mão sem fio à sua nuca, a fim de puxá-lo para um beijo
confortador. Estava tão carente de um gesto daqueles, Milo o abraçou forte
aprofundando o ósculo.
-
Espera um pouco, minhas costas...
-
Desculpe.
Afastou-se de pronto, arrependido,
podia tê-lo machucado. O outro o trouxe de volta, dizendo que estava tudo
bem. Encostou a cabeça morena no ombro do francês, que embalou o amante
como uma criança, depositando pequenos beijos na testa coberta pela farta
franja.
Sua vontade naquele momento era de
chorar, ver Camus frágil daquela maneira era terrível, mas no seu intimo
também seria tentador. Fraco e indefeso, não correria riscos de vê-lo
longe de si, viajando para alguma parte do mundo, e deixando-o para trás.
Sempre precisando dos seus cuidados, que estivesse do seu lado, tê-lo só
para si, e mais ninguém. Ora! Que pensamento mais mesquinho era aquele!
Ah...mas como seria bom se essa perda
de memória durasse eternamente, assim aquela briga ridícula nunca teria
acontecido, aquelas palavras amargas nunca teriam saído de sua boca. Tudo
seria como antes, quando lançavam sorrisos discretos um para o outro a
toda hora, procurando-se toda vez que o desejo era inevitável.
-
Milo?- o chamado interrompeu seus pensamentos egoístas-
Lembra-se da vez em que roubou um bracelete de um cavaleiro de prata, e
acabou me envolvendo na história?
Sorriu assentindo, como poderia
esquecer da sua época de adolescente, quando cultivava um amor platônico
pela mais maravilhosa das criaturas, nunca.
-
Lembro, tivemos que correr por umas três horas seguidas daqueles
brutamontes enfurecidos, você me dava bronca a cada vez que diminuíamos os
passos.- riu divertido.- A cara deles eram muito engraçadas!
-
Não achei graça nenhuma naquela maluquice, fugir de algo que eu
não tinha feito.
-
Você que quis me seguir, não me culpe.
-
Acontece que a besta aqui tinha que te proteger de encrencas 24
horas por dia!
-
Não posso fazer nada...- encolheu os ombros.- Ainda tenho aquele
bracelete, sabia?
-
Sério? Nunca o vi usando!
-
Quem disse que eu roubei para usar?
O francês olhou de um jeito tão sério
para ele, que não conseguiu evitar de cair na gargalhada. Não adiantava
quantas vezes ele tentasse endireitá-lo, que o repreendesse, uma vez Milo,
eternamente Milo, o ambicioso e malandro.
-
Mas não é desse fato especificamente que eu queria recordar, mas
do que aconteceu depois da confusão, da noite que passamos.
-
Ah, sim. A noite de inverno, aquelas ruínas eram tão frias...
-
Tremia tanto, coitado.
-
Mas havia um corpo tão quente e gostoso para me aquecer, me
agarrei nele assim...- enterrou o rosto na curva do pescoço alvo,
aconchegando-se mais ao abraço terno.- e nunca mais quis me soltar dele.
Suspirou deliciado, arrancando uma
risadinha de Camus.
-
Porque se lembrou disso agora?
-
Não sei. Deixa para lá...
Fechou os olhos, descansando no peito
do cavaleiro de gelo, enquanto recebia carinhos pelas costas.
-
Milo?
-
Hum?
-
Como foi que eu caí de um penhasco?
Sentiu o Escorpião remexer
desconfortavelmente, respirando profundamente. Não podia dizer, não
queria. Mas se não falasse algo, seu silêncio o faria desconfiar.
Separou-se do corpo agora pouco receptivo, com um nó na garganta. Ficou
sentado na cama, olhando para o outro lado.
- Não sei ao certo. Alguém ligou para
nós dizendo que você estava internado no hospital, e só.
Aquário pegou no seu braço, não estava
muito convencido, havia algo de estranho na fisionomia dele.
-
Olha para mim, Milo. Eu te conheço, o que esta escondendo de
mim?
Irritado, soltou seu braço
bruscamente, dando uma resposta rude.
-
Nada! Porque não acredita em mim?
O início de uma nova discussão foi
interrompida por uma batida na porta, Milo respirou aliviado. Hyoga, Shun
e Issac entraram no quarto, com um enorme buquê de rosas brancas.
Escorpião fez uma cara de desgosto, rosas brancas? Porque logo rosas? Elas
lembravam alguém muito desagradável.
-
As visitas foram liberadas só hoje, por isso não viemos ontem.
Estávamos ansiosos para vê-lo bem.- Hyoga tomou a palavra do pequeno
grupo.
Olhou surpreso mas feliz para os dois
pupilos, há quanto tempo não os via assim, juntos num recinto. Recebeu
alegremente as flores, fitando fixamente Issac, que parecia muito nervoso.
-
O que foi, Issac? Algum problema?
-
Hã? Ah...é...- fechou os olhos, tomando fôlego e coragem- Por
favor, mestre! Perdoe Kanon, ele não fez aquilo por mal!
Disse de supetão, abaixando
envergonhado a cabeça, deixando Camus estupefato e sem entender nada.
Kanon? O que tinha ele?
-
K-Kanon? O que ele fez?
Os três meninos entreolharam-se,
interrogativos. Milo blasfemou baixinho atrás deles, para então lhes
esclarecer.
-
O médico disse que ele está com uma pequena amnésia, não se
lembra dos acontecimentos das últimas semanas.
-
Sério? – Cisne ficou preocupado.
-
Mas ele garantiu que é normal no caso dele e que pode voltar,
ele só esta um pouco confuso agora.
-
Menos mal. – Shun sorriu.
Os dois alunos sentaram-se ao lado da
cama, engatando uma animada conversa. Andrômeda viu o mestre sair de
fininho e o seguiu, chamando-o. Milo virou-se para o rapaz, afagando-lhe e
desmanchando o cabelo do alto da cabeça dele.
-
Eu preciso resolver uns negócios por aí, vocês poderiam ficar
com ele hoje?
-
Vai ficar o dia inteiro fora?
-
Sim. Volto amanhã, cuidem dele.
-
Sim, senhor.
Com dois dedos unidos, levou a mão à
testa, num gesto de despedida. Colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e foi
andando, confundindo-se com o grande movimento de enfermeiros, médicos e
pacientes no corredor.
***
Os meninos já haviam ido embora,
insistiram em ficar, mas não gostava que andassem naquela cidade no meio
da noite. Claro que eram crescidos, fortes e cavaleiros desenvolvidos, mas
não deixava de se preocupar com essas cabecinhas tão tolas de
adolescentes.
E onde estaria Milo? Shun havia dito
que o mestre fora resolver algumas coisas, devia estar de volta de noite.
Era o que esperava, ansiosamente. Abriu um livro, para distrair-se
enquanto isso,.
Ouviu o som da maçaneta da porta, e
abriu um sorriso para receber o cavaleiro. Que logo murchou, substituído
por uma expressão interrogativa.
-
Kanon?
Que faz aqui? E a essa hora? – pensou um pouco. – Tem horário de visitas
noturno?
-
Não pateta, eu entrei escondido!
-
Ah...O QUE?
Mas porque?
Uma faísca de luz passou pela sua
cabeça, Isaac falou alguma coisa sobre Kanon
não ter feito aquilo por mal...mal? Que mal seria esse? Camus foi se
encolhendo na cama, fazendo um sinal da cruz.
-
Não sei o que você fez, mas coisa boa não é! Não chega perto!
-
...Bateu a cabeça mais forte do que eu imaginava...
Aproximou-se mais, causando uma nova
onda de pânico no francês. Suspirou impaciente, fazendo um sinal, pedindo
calma.
-
Pelo amor de Zeus, Camus! Parece até uma mocinha com medo, eu
não sou nenhum vampiro ou coisa parecida, ta?
-
Tem certeza?
-
Haha...muito
engraçado. Eu só vim para esclarecer umas coisas...e talvez pedir
desculpas.
-
Desculpas? Do que esta falando?
-
Do que? N-não vai me dizer que...que...
Parou de falar e aproximou-se mais,
olhando nos olhos azuis do outro, bem próximo.
-
Me diga uma coisa, Camus...
-
Sim?
-
Qual foi a ultima vez que eu e você nos vimos?
-
Qual? Hum...vejamos...estávamos
assinando os papéis para a sociedade entre os Solo e os
Kido! Porque?
-
...Como imaginei...isso foi há cinco meses atrás.
O cavaleiro marinho levantou a mão,
espalmando-a na cabeça de Camus. A pupila do francês dilatou-se, estava
num estado de choque, recebendo uma bateria de imagens, em flashes de
centésimos de segundos. Quando elas acabaram, sentiu uma intensa fadiga,
caindo desacordado nos travesseiros macios.
-
Nada que uma ajudazinha divina não resolva.
Olhou o cavaleiro adormecido. Que
ótimo, agora tinha que espera-lo acordar, não
devia ter descarregado tanta energia de uma vez nele. Ora, não era tão
ruim, assim podia observa-lo melhor, não era
todo dia que podia apreciar uma legítima beleza clássica.
O nariz fino e reto, de onde um ar
quente saia, numa respiração tranqüila e pesada. Não satisfeito em apenas
ver, acompanhou com o dedos as feições relaxadas. Contornou a boca pouco
avermelhada, entreaberta, num convite inconsciente. Sorriu, e porque não?
Sentando na cama, inclinou-se sobre o
corpo esparramado, o colchão cedeu ao peso do homem. Fechou os olhos em
expectativa, aproximando seus lábios do outro. Camus abriu os olhos,
deparando-se com aquela situação comprometedora, empurrou-o imediatamente.
Kanon ficou resignado, estava quase lá.
-
O que pensa que esta fazendo seu desgraçado? – agarrou-o pela
gola da camisa que usava – Não basta ficar atrás de um garoto feito um
velho babão?
Camus parou de falar, lembrava-se de
cada detalhe do que havia acontecido. A raiva ferveu seu sangue, prestes a
explodir a qualquer momento, Kanon percebeu
isso.
-
C-calma! Lembre-se de que estamos num hospital, então que tal
uma conversa civilizada?
-
Olha quem fala!
-
Eu não vim brigar! Só vim esclarecer um engano! Dá para parar e
me ouvir um instante?
Aquário ficou desconfiado, mas
soltou-o mesmo assim. Saiu da cama e andou até a janela, com os braços
cruzados e de costas para o outro. Sacudiu os ombros.
-
Como quiser, fale!
-
O que Issac disse não é verdade...
-
Qual das acusações não é verdadeira?
-
Ele insinuou algo que te deixou nervoso, eu nunca encostei um
dedo naquele garoto.
-
Nunca?
Virou-se para olhá-lo, estava calmo,
sua voz não vacilava, ou estava falando a verdade, ou era tão frio e bom
dissimulador quanto Saga.
-
Olha para mim, Kanon, nos meus olhos.
Droga! Estava falando sério...
-
Continua.
-
Realmente, ele voltou no meio da noite e foi procurar Julian no
quarto dele, mas encontrou o que não queria, e teve uma crise de ciúmes.
-
Ciúmes?
-
De Julian.
-
O que?
-
Eu falei para ele parar de brincar com os sentimentos de Issac,
mas ignorou meus apelos, dizendo que era divertido fazê-lo ficar tão
submisso e obediente por umas migalhas de atenção.
-
Moleque mimado...
-
Julian? Ele é sim, e consegue tudo o que quer, mas a brincadeira
dele acabou.
-
Isso que esta me dizendo é verdade? Posso falar com Issac, que
ele irá confirmar tudo?
-
Pode. Uma coisa é certa, Camus. Eu não sou nem nunca fui um
papa-anjos, sei das conseqüências jurídicas.
-
Bom mesmo que saiba...já disse tudo?
-
Creio que sim...Não quer me dar um beijo de despedida?
Segurou seu queixo, Camus soltou-se
ainda nervoso.
-
Vai para o inferno!
-
Haha...como imaginei...Adeus!
***
Como aquilo era pesado, tropeçava a
toda hora, sem poder ver por onde andava com o enorme pacote que segurava.
Apertou o botão do elevador depois de quatro tentativas frustradas, quando
abriu, entrou por ultimo. As pessoas olharam em pânico para ele, o lugar
já estava lotado, mas ele insistiu em entrar.
Teve de descer no andar acima, sendo expulso do
elevador. Gritou inúmeros palavrões, chamando a tenção e horrorizando as
pessoas que passavam por ali. Envergonhado, foi pedindo desculpas e saindo
de fininho. O jeito era subir com aquele peso todo escada acima. Chegou no
sétimo andar com a língua no chão, estava ficando velho.
Abriu a porta com um chute, já que
tinha as mãos ocupadas. O paciente que lia tranqüilamente no conforto de
sua cama, pulou de susto com aquela invasão brusca.
-
Milo? Que é isso?
-
Para você! Achei que a comida daqui deve ser horrível e resolvi
comprar umas coisinhas...
-
...Você veio andando com esse trambolho até aqui?
-
Foi sim, qual o problema?
-
Nada...
Depositou o pacote no colchão,
abrindo-o. Era uma cesta gigante, com inúmeras guloseimas dentro. Milo
mostrava tudo animado, mas Camus não acompanhava aquela alegria toda,
estava aborrecido. Só foi perceber quando ofereceu uma torrada com patê, e
o outro o fuzilou com o olhar.
-
Que foi? Não gosta de patê de peru?
-
Sumiu por três dias, e nem deu noticias para os meninos...
-
Eu tive que resolver umas coisas, não fica bravo!
-
Que coisas?
-
Umas coisas...experimenta isso aqui.
Enfiou um brioches na sua boca, mas
que homem, se esquiva de tudo! Enquanto recebia a comida que Milo
oferecia, Camus puxou sua camisa, abrindo alguns botões dela e enfiando a
mão por dentro. Descobriu um dos ombros, fitando e acariciando a cicatriz,
placidamente. O outro ficou estático, percebendo que havia enfim
recuperado a memória.
-
Doeu muito? Nunca quis te machucar...
Afastou-se, cobrindo novamente seu
ombro e guardando tudo de volta na cesta. Chegara a hora que temia, a da
conversa franca. Balançou a cabeça, rindo.
-
...tapa de amor não dói...
-
Amor?
-
Mas de ódio sim...dói aqui...- apontou para o coração.-
Sentir-se usado, nem que seja por um instante...
Não pôde evitar que as lágrimas
surgissem, secava-as como podia, molhando ainda mais o rosto vermelho.
Camus puxou-o para si, secando o rosto carinhosamente com o lençol,
acariciou o peito moreno do outro, como se quisesse massagear e fazer
passar a dor que causou a quem sempre quis bem.
-
Você me ama, Milo?
-
Mais do que a mim mesmo...Não quero perdê-lo de novo, prefiro
morrer.
Ficou em silêncio, deixando Milo em
expectativa. Porque não dizia? Alguma coisa pelo amor de Zeus! Qualquer!
Que precisava dele, que não vivia sem ele, que...não, seria pedir demais.
Que mania besta essa de achar que o companheiro retribuía tudo o que
sentia, o que lhe dava já era muito.
Aquário abraçou-o mais forte,
trazendo-o para um beijo gentil. Aceitou-o com toda a vontade, se pudesse
tomar sua vida toda para si apenas por um simples beijo, ser seu, não
apenas seu corpo, mas sua alma. Já havia entregado a sua há muito tempo.
-
Você nunca me perdeu, Milo...Não se esqueça que foi você que me
deu vida, ou algum sentido a ela.
-
Como?
-
Nada, não precisa entender.
Selou o último comentário com um longo
beijo, sem dar trégua para que aquela conversa inútil continuasse. Os
gestos falavam mais do que simples palavras ditas ao vento, e que podiam
ferir com um descuido.
***
Estavam no hotel da capital, era ali
que dormiam enquanto Camus ficava internado. Issac já havia voltado para o
internato, as reformas foram feitas e as aulas reiniciaram. Hyoga sabia
que tinha deveres a cumprir, mas não queria se afastar até que o mestre
ficasse fortalecido e saísse daquele lugar. Estranho era que Shun também
quis ficar, disse que não tinha nada para fazer, então ia fazer-lhe
companhia.
Mal paravam naquele quarto alugado,
passavam a maior parte do tempo no hospital, vindo apenas de noite. Mas
tão cansados, que nem conseguiam conversar tranqüilamente, Cisne
agradeceu, se ficasse sozinho com ele, diante do que acontecera nos
últimos meses, nem saberia do que falar estava com tanta vergonha de si
mesmo.
Ia receber alta no dia seguinte,
Milo resolveu passar o dia com o mestre. Engraçado como alguns fatos
trágicos podem unir e aproximar as pessoas, sua convivência com Milo nunca
fora tão agradável e pacifica. Haviam feito as pazes, num gesto mútuo de
solidariedade no momento delicado pelo qual que ambos passavam, tanto ele
quanto Hyoga amavam Camus, só que eram formas diferentes de amor.
Acordara tarde, ficara no hospital
até tarde, Por causa das despedidas a Issac. Recebeu uma bronca daquelas,
que saudades tinha delas. Sem Issac por perto, Milo havia saído logo cedo,
sua mão parou a meio caminho da maçaneta. Estavam sozinhos?
A porta foi aberta, dando de cara com
o animado Shun.
-
Bom dia! Dormiu bem hoje, né?
-
Ahn...bo-bom dia, Shun...
-
Eu já pedi o café da manhã, vamos comer?
-
Claro...
Foram para sala, uma mesa pequena toda
enfeitada de flores instalada entre os sofás. Apostava que a idéia das
flores era de Shun, mas para que tudo aquilo? Algum dia especial, talvez a
recuperação de Camus?
-
Que bom, olha que bonito, rosas...
-
Gostou? Eu que decorei.
-
Foi? Tem jeito para essas coisas, poderia decorar as inúmeras
festas que a Saori dá, porque não pede para ela?
-
Pode ser...
Sorriu, “pelo amor de Zeus, não faz
isso...”, sem graça, Hyoga sentou-se em frente a mesa, enfiando uma
torrada na boca. Pronto, agora tinha desculpas para não conversar. Shun
postou-se do outro lado, de frente para ele, congelou na hora. A mesa era
pequena demais, tanto que inevitavelmente os joelhos dos dois encostavam
abaixo da tabua. Engasgou, o outro esticara as pernas, colocando uma entre
as suas.
Conseguira engolir apenas uma torrada,
perdendo a fome completamente. Encostou os cotovelos na mesa, observando
Shun comer deliciando-se com as delicias oferecidas pelo hotel.
Inconscientemente, o gesto infantil de lamber os dedos deu a Hyoga uma
imagem tão sensual quanto... “Quer parar com isso?”. Esfregou o rosto e
virou-o para a janela, repreendendo-se.
Mas voltou a olhá-lo, intrigado. Suas
feições eram mesmo parecidas com as de Ikki, normal, já que eram irmãos.
Era a sua versão mais delicada e feminina, enquanto Ikki era totalmente
abrutalhado. Sua recaída devia dever a isso, vira semelhanças entre os
dois, e estava tão nervoso, que deve ter confundido tudo num gesto
impensado.
June o havia alertado, Shun ficaria
magoado porque o irmão se envolvera com um homem, ou porque sentia algo
por ele? Aquela amazona sabia do que acontecia, vivera tantos anos com
Andrômeda, via-se o grande carinho que sentia pelo único membro da sua
família na Ilha.
Havia um modo de saber, só rezava para
que Shun não o repelisse. Empurrou a mesa para o lado, o outro ficou
confuso, com um biscoito ainda na mão.
-
Mas eu ainda não terminei!
-
Depois comemos, quero tratar de algo mais importante que comida.
-
Nani?
Passou para o sofá oposto, agarrando a
cintura de Shun, encostando sua boca na dele. Esperou um pouco, nada.
Começou a mover a boca, enfiando a língua sem encontrar resistências. Shun
não resistia, mas também não reagia. Movia-se insistentemente, acariciando
o corpo abaixo do seu, até arrancar alguma resposta. Um gemido, pequeno,
mas que o motivou a continuar.
Surpreendeu-se, Shun não só começou a
corresponder ao beijo, também o abraçou, com os braços e as pernas. Tinha
menos pudor do que imaginava, tirando sua camisa com pressa.
-
Shun? Tem certeza?
-
Toda. Faz tanto tempo...
-
Ué! Pensei que estava mais preocupado com o seu mestre esse
tempo todo.
-
Que tem o Milo?
-
Andava tão afoito em impressioná-lo, que esqueceu de todo o
resto.
-
Desculpe...Não faço mais isso.
Terminou de tirar a roupa de Hyoga,
que fez o mesmo com a sua e o deitou no sofá de três lugares, enchendo-o
de beijos e lambidas.
Pararam tudo de repente, um cosmos se
aproximava. Milo havia voltado! Recolheram as roupas do chão rapidamente,
mas não tinham tempo para vesti-las. Hyoga entrou no banheiro e Shun pegou
um robe, só depois percebeu que não era seu, estava grande demais.
Sentou-se em frente à mesa de novo.
-
Comendo café da manhã a essa hora, Shun?
-
É que eu acordei tarde hoje.
-
Também, depois da algazarra de ontem...e Hyoga?
-
No banho! Não ia ficar hoje no hospital?
-
Ah, sim. Vim só pegar as coisas de Camus, ele quer ir embora
amanhã logo cedo. Tem uma listinha do que ele quer...
Procurava as coisas, Shun esperava
impacientemente, ajudando-o a achar tudo. Fechou a porta aliviado, indo
até o banheiro, ansioso. Cisne abriu a porta, puxando-o para dentro do box
e ligando o chuveiro. Tinham que aproveitar aquele momento ao máximo.
***
Assobiando, levava a mala com os
pertences de Camus. Olhou para o elevador, fazendo uma cara feia para os
ocupantes, não ia com aqueles chatos novamente, preferia as escadas.
Ia receber alta, e iriam para casa,
finalmente. Mal continha-se de felicidade, tudo acabara bem, afinal.
Aquelas semanas estavam sendo boas, sem deveres a cumprir, sem a “chefe”
ditando regras a todo momento, e via seu amado tantas vezes, coisa que não
acontecia antes, poderem ficar juntos todo o tempo.
O sorriso que mantinha na cara
tornou-se uma carranca, tinha uma mocréia inclinada sobre seu amante,
dando um largo mostruário de peitos saltitantes pelo decote enorme. O pior
é que ele sorria gentilmente para ela! O que isso significava?
-
Posso saber o que essa mulher faz aqui?
-
O que faz aqui? Ela é a enfermeira, Milo!
-
Isso? Uma enfermeira? Esta parecendo mais uma...
-
Milo!
-
E cadê aquela senhora setentona que vive te chamando de filho?
-
Ela aposentou-se ontem, - a moça respondeu.- eu sou sua
substituta...
-
Como assim? A substituta tem que ser uma senhora igualmente
experiente, não uma iniciantezinha qualquer!
Camus encolhia-se cada vez mais para
baixo do lençol, envergonhado, que papelão estava fazendo. Crise de ciúmes
num lugar como aquele realmente não era apropriado. Viu a moça sair
chorosa, tinha humilhado ela, subestimando a sua capacidade.
Ficou satisfeito com o resultado, se
achando o tal do pedaço, até virar para Camus e receber um ar de
repreensão vindo dele. Ta bom, havia exagerado na dose, mas aquela mulher
tinha que andar em trajes mínimos feito aqueles? E se insinuar
visivelmente para o Seu namorado?
-
Mas que espetáculo tu fez, hein senhor Milo? Agora isso vai
rodar o hospital inteiro, agradeça aos céus que eu vou ficar aqui só hoje,
senão eu pulava no seu pescoço.
-
Não é uma má idéia...
-
Seria para arrancar o seu couro!
Virou o rosto, aborrecido. Escorpião
suspirou impaciente, pronto, estava bravo com ele de novo. Foi até ele e o
fez encara-lo, segurando seu queixo.
-
Certo, eu admito que eu errei. Ok. Eu errei feio. – o outro
olhou pateticamente. – Ta, ta! Eu fui o pior dos canastrões! Satisfeito
agora?
Deu de ombros, virando de costas para
ele na cama. “Não, não faça isso”, não num dia tão especial como aquele,
que planejara ser especial.
-
Me perdoa...olha, eu trouxe tudo o que me pediu.
-
Vem aqui.
Deu um espaço no colchão, convidando-o
a sentar junto dele. Segurou seu rosto, dando-lhe um beijo, que foi se
aprofundando pouco a pouco, numa dança ativa de línguas. Estava tão
absorto nele, que Milo percebeu um pouco tarde que sua camisa era
desabotoada. Sem interromper o beijo, tirava constantemente a mão do
francês que insistia em invadir a calça.
-
Pára com isso.
-
Não.
-
Pára.
-
Não dá, eu te quero.
Escorpião interrompeu tudo, olhando-o
assustado. Queria? Naquele exato instante, num quarto de hospital? Teria
perdido o bom senso com a batida na cabeça? E a aula de moral que estava
dando agora a pouco?
-
Você está bem?
-
Que foi? – deu uma risadinha – Pensei que para você quanto mais
perigosa a situação, mais excitante seria.
-
Alguém pode entrar, e eu sei que você vai querer morrer de
vergonha.
-
É só não deixarmos entrar ninguém...
Assim que o disse, Camus foi até a
porta, com uma cadeira nas mãos. Colocou o encosto embaixo da maçaneta,
não teriam perigo de serem pegos. Voltou com um sorriso maliciosos,
deitando-se na cama e obrigando Milo fazer o mesmo.
-
Pronto, se formos discretos e silenciosos, não tem problema.
Sem mais nenhuma reclamação, aceitou
ser conduzido ao mundo de prazer que há tempos sentia falta. Aquela
atitude partir de seu companheiro era muito estranho, mas não queria
discutir, mas sim aproveitar.
***
Abriu os olhos cauteloso, observando o
outro dormir pesadamente. Sorriu, estava bastante exausto. Com cuidado,
tirou o braço que o envolvia, e desceu da cama. Indo até a mala que
trouxera para ele, realmente estava tudo lá.
Pegou a roupa de dentro, trocando-se,
sempre certificando-se de que Milo não iria acordar. Antes de sair, voltou
para a cama, depositando um leve beijo nos lábios do belo adormecido.
Fechou a porta silencioso.
Ninguém o parou no corredor, já que
não o reconheciam como o paciente daquela ala. Chegou na rua triunfante,
acenando para um táxi que acabava de deixar um passageiro ali. Dentro do
carro, puxou o celular do bolso, discando enquanto dava a ordem para o
motorista.
***
Espreguiçou-se deliciosamente,
procurando o corpo quente do seu lado com a mão. Vazio. Levantou-se
subitamente, assustado. Onde ele estava?
Pegou suas roupas espalhadas pelo
chão, vestindo-as desesperado. Vasculhou o hospital de cima a baixo, e
nada. Voltou para o quarto na esperança de encontrá-lo, mas quem encontrou
fora os dois alunos cheio de perguntas.
-
Cadê meu mestre, Milo?
-
Rápido, Hyoga. – pegou a mão do loiro, puxando-o para fora. –
Antes que aquele homem suma de vez!
-
O que?
***
Sabia que o que estava prestes a fazer
podia custar sua vida, e não gostava de despedidas. Por isso decidiu
partir sem comunicar a ninguém aonde ia. Tinha de fazer isso, por seu pai,
por aqueles que amava além de tudo.
Fitou o horizonte permeado de icebergs
de gelo eterno. Desceu o olhar para o mar congelado por séculos e séculos,
sem vida, já que nenhum ser vivo suportava aquele frio intenso. Com um
soco, estraçalhou a superfície, abrindo um buraco.
Respirou fundo, elevando o cosmos, uma
aura dourada o cercava. Mergulhou de uma vez nas águas gélidas, sentindo
farpas penetrarem pelo seu corpo todo.
Tinha a localização exata do local,
mas era fundo demais. Não importava o quanto nadasse, em extrema
velocidade que era permitida ao limite do seu sétimo sentido, ainda estava
muito longe. Seu pulmão não ia agüentar, a pressão sobre si era enorme.
Antes de ser um cavaleiro de ouro, era um humano, e como tal não era
imortal.
Estava quase perdendo os sentidos,
“mais algumas braçadas...só mais algumas braçadas...”. Mesmo com a visão
embaçada, pôde avistar a carcaça do navio russo. Impulsionou o corpo para
dentro, empurrando as paredes.
Aterrorizante. Aqueles corpos mortos
vagando feito fantasmas, o terror em seus rostos permanecia, conservados
pela água que chegava ao zero absoluto. Não sentia mais nada, tentava se
movimentar a todo custo. Encontrou o que procurava, era uma imagem mais
agradável comparada com o horror que havia encontrado naquele lugar.
Um anjo loiro dormia seu sono eterno,
numa placidez única. Os longos fios dourados dançando em volta do rosto
belíssimo. Sorriu encantado, as flores que Hyoga trazia para ela ainda
estavam lá, adornando o leito fúnebre.
Não havia tempo para contemplar
tamanha beleza, apressou-se em carregá-la com cuidado. A uma altura de
distância da superfície, quase desmaiou, afundando com a mulher entre os
braços. Resistiu aos apelos de Morpheus, nadando obstinado para a luz.
Depositou o frágil corpo no gelo,
recuperando todo o ar perdido. Sobrevivera, pela proteção de Athena, os
deuses decidiram que deveria viver. Fez uma prece silenciosa, agradecendo
à graça divina de sua deusa.
Com a mão em riste para o ser abaixo
de si, concentrou toda a energia que lhe restara naquele momento, tecendo
um túmulo de gelo eterno. Levantando a mão, ergueu o bloco, satisfeito.
As mãos unidas numa reza, os olhos
velados e um leve sorriso que se insinuava nos lábios, a imagem da mãe
que se sacrificara por seu filho confundia-se com a de uma santa. Uma
mártir, como fora seu pai.
Ele errara ao ensinar-lhe que os
sentimentos os deixava fracos e vulneráveis, infelizes e tolos eram
aqueles que nunca tiveram alguém. Apenas agora percebia, quando viu que
seu coração era humano, e não frio.
-
Camus?
Virou-se em direção do chamado. Hyoga
elevou o olhar abobado, aquela era...
-
Mamãe? – seus olhos se encheram de lágrimas – Mestre, você...
Visivelmente exausto, assentiu para o
discípulo. Cisne correu até ele, abraçando-o e chorando desesperado.
-
Obrigado.
-
Ei vocês! Não dá para me dar uma mãozinha aqui?
Morro de neve abaixo, Milo, cheio de
casacos, se atrapalhava todo em subir. O loiro riu, limpando os olhos e
fungando, descendo até ele. Camus seguiu-o, pasmo, o que aquele doido
estava fazendo naquele lugar?
-
Eu falei para você esperar em casa, Milo. – Hyoga o ajudava a se
equilibrar.
-
Brrrr! Pelo amor de Zeus, como alguém pode viver numa geladeira
a céu aberto?
-
É maluco...
O cavaleiro de Aquário o carregou nas
costas, aturando-o se agitar e blasfemar a cada passo. Do seu lado, o
aluno ria divertindo-se com a cena hilária.
Chegando no casebre, o pôs no sofá, e
foi acender a lareira. Pegou varias mantas, tirando aquele monte de roupas
que o escorpiano vestia.
-
Dá para parar de resmungar feito uma velha rabugenta? Hyoga
esquente uma bacia de água.
-
Ok.
-
Está um frio de matar, você quer que eu faça o que?
-
Já já eu te esquento.
Alimentou um pouco mais o fogo, indo
sentar-se ao lado de Milo. Colocou seus pés na água quente, cobrindo-o com
as mantas e abraçando-o.
-
Pronto...
Cisne trouxe uma caneca enorme de chá,
entregando para o friorento. Sentou-se na poltrona vazia, observando-os
por cima do vapor da bebida.
-
Porque se arriscou a nadar naquela profundidade?
-
Depois da minha perda de consciência, vieram-me lembranças que
há muito tempo esqueci. Lembrei-me da minha única família, e vi que eu fui
muito cruel. Tirei de você a única família que possuía...
Agarrado ao francês, Milo ergueu o
rosto, vendo o perfil triste. Hyoga baixou a cabeça, antes de colocar a
caneca na mesa. Levantou-se hesitante, e abraçou os dois cavaleiros
emocionado.
-
Vocês são minha família...
Escorpião continuava surpreso,
enquanto Camus puxava o menino para o meio do sofá, ficando entre os dois
e cobrindo-o com o cobertor grande.
Da janela, quem os visse podia
claramente imaginar que se tratava de uma pequena família, unida em frente
ao fogo, iluminando a cena.
FIM
***
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