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Fazia três anos que
se tornara um cavaleiro de ouro, e desde então dividia seu tempo entre
o Santuário e sua terra natal. Tinha muito o que desenvolver de seu
poder ainda, mas não conseguia viver afastado de sua querida França,
nem do Santuário. Havia um importante detalhe que sempre o atraía de
volta à Grécia, além dos deveres.
Voltara das “férias” há apenas uma
semana e meia, e Milo não lhe dera uma folga sequer. Talvez precisasse
de um outro descanso mais cedo do que imaginara. O rapaz era enérgico,
e descarregava toda sua energia na luta, e adivinha para quem sobrava?
Acordou bem cedo, para um lanche
reforçado, antes de encarar mais um dia. Logo Milo apareceria pela
porta, excitado e saltitante, dando soquinhos no ar alegremente. Devia
tomar umas no café-da-manhã para ficar daquele jeito...
Camus foi para os fundos da Casa
Zodiacal que guardava, a de Aquário. Com uma laranja nas mãos,
sentou-se no parapeito de uma janela. Uma longa escada ligava-a a
última Casa Zodiacal, a de Peixes. Mesmo estando tão longe, podia
perfeitamente enxergar o cavaleiro que a guardava. Este usava apenas
calças e estava descalço, despedia-se de alguém, que demorou um pouco
para identificar. Afrodite se insinuava, visivelmente, para o rapaz.
Sabia muito bem do que aquela cena se
tratava, e aquilo o enojava. Toda noite recebia um homem, sendo ele um
cavaleiro ou uma pessoa comum, mas sempre importante, para
compartilhar de sua cama.
Tinha plena consciência de sua beleza
e do efeito dela, e aprendeu a usar isso em proveito próprio. Não o
surpreenderia o fato de que tivesse conseguido regalias e subido de
posto e de importância diante do Mestre por tais meios imorais. Era a
“cortesã de luxo” do santuário, era revoltante.
Ao mesmo tempo lhe despertava um
sentimento de pena, vira o garoto crescer como cavaleiro, ganhar a
mais valiosa das armaduras. De rapaz inocente havia se tornado uma
criatura extremamente narcisista e ambiciosa. Gostaria de saber se
ainda seria capaz de amar, ou se já havia esvaziado totalmente seu
coração com tanta farsa.
O cavaleiro de Peixes percebera sua
presença, e assim que se despediu de seu convidado com um beijo,
virou-se para Camus. Ao vê-lo, seu rosto se iluminou com um sorriso
encantador. Se não soubesse que era falso, teria sido facilmente
convencido por aquele ar angelical que emanava. Não se deixando levar,
manteve a cara fechada e continuou a comer.
O rapaz começou a descer as escadas,
indo de encontro ao francês. Parou de andar de súbito, e seu sorriso
murchou, dando lugar a uma carranca de desprezo. Milo surgira na
janela, colocando a mão no ombro no braço do amigo, chamando-lhe a
atenção Este também engoliu o sorriso ao avistar Afrodite a meio
caminho de seu destino óbvio. Camus se apressou em levar Milo para
dentro, para evitar mais uma briga entre os dois.
Pensar que Afrodite dormia a poucos
metros de Camus, tão próximo dele, enquanto era obrigado a ficar
afastado a duas casas abaixo, o fazia perder longas noites de sono de
preocupação. Havia advertido-o para que permanecesse afastado dele,
que evitasse as intimidades que mantinha com os outros cavaleiros, mas
duvidava que isso adiantaria. Foi andando na frente, apressado, Camus
mal conseguia acompanha-lo.
-
Espera! Quer treinar sozinho hoje, é isso?
-
Hã? Ah...Desculpa. Só estou um pouco irritado, começar o dia e
dar de cara com aquele maricas me enerva!
-
Calma! O que vocês têm um contra o outro afinal?
-
Só não nos aturamos, certo?
-
Certo...
Camus abaixou o rosto e encolheu os
ombros, amuado. Milo suspirou, não era nele que tinha de descontar a
sua raiva. Envolveu seus ombros com o braço, apertando-o.
-
Esquece. Isso é birra minha, você não tem nada a ver com isso.
-
Ai, ai! Meu braço machucado!
-
Desculpa! Eu me esqueci dele!
-
Tudo bem...Acho que não vou ser um bom adversário para você
hoje, bati com o braço no rochedo de mal jeito ontem. Pede para
Aldebaran treinar com você...
-
Não dá! Eu preciso de alguém de tamanho e força igual para
treinar aquele golpe!
-
E o Afro...
-
Não! Nem completa o nome desse desgraçado!
-
Ta, ta...Mas se eu começar a sentir que não dá mais para
agüentar, nós paramos.
-
Feito!
Evitavam usar o sétimo sentido,
treinavam em combate somente físico. Sabiam o que aconteceria se
lutassem a sério, com os poderes reais. O lugar não suportaria, e o
combate duraria uma eternidade e não teria um vencedor. Por isso Milo
evitava um confronto real com Afrodite, o preço seria alto demais,
para ambos.
O treinamento levou mais tempo do que
deveria, o sol brilhava intenso no céu limpo, sem nuvens. O calor das
pedras tornava o ambiente insuportavelmente quente e seco. Aquilo era
um inferno para Camus, que já nem sentia mais o braço.
-
Por favor, Milo. Vamos parar...
-
Mas já?
-
Já? Mal cheguei da França e você já quer acabar comigo?
-
Eu? Parece que você chega mais frouxo de lá! Só estou te
aquecendo!
-
Sei...é sério, esse calor está me matando. Vamos até a praia?
Eu preciso de água no corpo.
-
Tudo bem.
Correram para uma praia deserta, uma
das inúmeras que o local possuía. Não agüentando mais, Camus foi
arrancando todas as peças de roupa, sem cerimônia. Milo parou
estarrecido, contemplando a nudez do amigo. Acompanhava com o olhar a
mão que retirava os pedaços de tecido, ao vê-la se dirigir para a
calça, enrubesceu, mas ao invés de desviar o olhar, ficou hipnotizado
pela exuberância que lhe era apresentada.
Mergulhou no mar, refrescando-se, e
se virou para onde Milo permanecia parado, ainda vestido.
-
O que está esperando, ta uma delícia!
Tirado do transe, pôs-se a tirar a
roupa desajeitado, quase tropeçando nas calças. Como duas crianças
despreocupadas, jogavam água um no outro, e riam sem parar.
O cavaleiro de aquário saiu da água,
seguido do outro. Caíram de costas na areia, lado a lado, ofegantes.
Acalmando-se, olhavam para o alto, onde pássaros do Mediterrâneo
dançavam no céu uniformemente azul.
-
Na França tem lugares como esse?
-
Não. As praias de lá não são tão quentes, mas elas têm seu
charme...
-
Ah, nada se compara a isso.
-
Pode ser. Mas pelo menos lá eu não tenho de aturar um pentelho
que só gosta de lutar.
-
O quê? Seu...
-
Ai!
Milo jogou o corpo por cima de Camus,
começando a soca-lo. O outro se defendia com os braços cruzados sobre
o rosto, e não parava de gargalhar.
-
Ai, ai, ai...Pára! Hahahahaha...foi uma brincadeirinha....hahahahaha.
-
Vou mostrar quem é o pentelho aqui!
Num gesto que surpreendeu a si mesmo,
Milo segurou seus pulsos e os prendeu acima de sua cabeça, enquanto
prensava as pernas nos seus quadris. Estava quase deitado sobre ele,
sentia seu peito e tórax roçarem nos seus, com a sacudida da risadas.
Milo não estava mais brincando, seu olhar percorreu seu rosto, que
tinha os olhos fechados e cheios de lágrimas de tanto rir. A boca
entreabria-se, num vestígio que ainda restava de alegria, e foi ela
que buscou com a própria.
O beijo inesperado fez Camus abrir os
olhos assustados e, finalmente, tomar conta do corpo nu acima do seu.
Um calafrio percorreu sua espinha ao ver a expressão estranha de seu
amigo.
-
Por favor, Milo. Sai de cima de mim, está machucando meu braço.
A frase fora dita num tom tão frio e
cortante, que o fez se afastar sem pestanejar, mas ficara resignado.
Camus se afastou bruscamente, estava tenso e bravo.
-
Eu não gosto desse tipo de brincadeira, sempre sai alguém
ferido.
-
De-desculpe...eu não queria...
-
Tudo bem, esquece tudo.
Virou-se de costas, se trocando
silenciosamente. O outro continuou sentado, nu, olhando-o triste. De
repente, Milo se deu conta do estado em que estava. Escondeu
rapidamente com as roupas a ereção que havia começado a despontar.
-
Estou com fome, vou comer. Você vem?
Continuava de costas para ele ainda
usando o tom frio de voz. Não podia se levantar, não na frente dele, a
evidência de seu erro estava bem ali, debaixo dos trajes.
-
Não. Depois eu como, pode ir.
-
Certo. Até mais tarde.
Assim que o francês partiu, suspirou
longamente. Fora longe demais dessa vez, o que lhe dera na cabeça para
agir daquela maneira? Mas já estava feito, o que poderia acontecer?
Ele nunca mais o olharia nem falaria com ele para o resto da vida? “Eu
quero morrer...”
“Talvez agora ele vá para a França, e
nunca mais volte. E com razão!”
-
Incrível como ele pode ser uma criatura agradável e sensível, e
num instante se tornar um ser frio e cruel, não é mesmo?
Milo se virou assustado para a
direção da voz, Afrodite se encontrava a alguns metros atrás de si.
Vestiu rapidamente a calça, enquanto o outro se aproximava.
-
Sempre na cola, né? Escuta, porque não vai cuidar da sua vida?
-
Talvez porque a sua seja mais interessante...
-
Há! Com certeza, se comparada ao movimento da sua casa, ou
melhor, da sua cama!
-
Hahahah...O que foi? Não consegue fazer melhor? Isso não me
atinge mais...
-
Ora! Vai para o inferno, sua prostituta! Vive se emperiquitando
e se perfumando, que utilidade você tem como cavaleiro?
Afrodite ia se aproximando
lentamente, como um gato rodeava a sua presa. Quanto mais Milo bufava,
mais sentia o desejo de provocar sua ira. Não tinha jeito, era da sua
natureza querer vê-lo fumegar de ódio. Seus olhos se estreitavam como
a de uma fera, o cabelo desgrenhado grudando-lhe na fronte e no
pescoço, caindo pelos ombros, o peito nu e molhado, tudo lhe dava um
ar selvagem. Parou tão perto, que Milo podia sentir perfeitamente sua
fragrância e o roçar de seu cabelo no rosto. Afrodite aproximou os
lábios de sua orelha.
-
É assim que você alivia a sua frustração? Ofendendo, atacando?
Parece que não está funcionando...
A mão do cavaleiro começou a
acariciar de leve sua região mais sensível, que a pouco tentara
esconder. A ereção voltou em dobro, fazendo-o suar frio.
-
Ficou quieto? Não adianta, não dá para esconder. Eu entendo o
que um cavaleiro como Camus pode provocar na gente.
-
Agh...
Intensificou a carícia sob o tecido,
era impossível manter o controle ou até raciocinar diante de tal
provocação. Milo agarrou seu pescoço, forçando-o a olha-lo diretamente
nos olhos. O maldito sorria triunfante!
-
Um cavaleiro como Camus? Eu mandei você ficar longe dele, não
mandei?
-
Como se eu fosse obedecer alguém do seu nível...Não se
preocupe, você envenenou tanto a cabeça dele contra mim, que ele nem
dá uma brecha de aproximação. Me repele, assim como acabou de fazer
com você!
-
Envenenei? Ele sabe quem você é, Afrodite, toda noite! Não é a
toa que te despreza!
-
Hum! Ele pode ser que sim, mas não você. Não é insensível ao
meu toque, pelo o que seu corpo denuncia.
-
...
-
O que foi? Está suando, quer que eu o alivie, Milo?
Afrodite parara de acaricia-lo e
agora o tomava entre as mãos, provando que sua afirmação estava
correta. Sua parte mais íntima o traía, crescendo nas mãos do inimigo.
Aquilo o estava deixando tonto, sua respiração ficara mais rápida,
sentia a circulação aumentar nas veias. Torturava-o com perícia, e se
deliciava ao vê-lo perder o controle sobre os próprios sentidos.
Pensava nos momentos que acabara de
ter com Camus, e naquela loucura que estava prestes a fazer. “O que eu
tenho a perder?”. A mão que apertava o pescoço passou por trás da
nuca, agarrando um punhado de cabelo e puxando-o, forçando sua boca
contra os lábios frágeis. O beijo fora tão violento, que Afrodite pôde
sentir o gosto do próprio sangue. Abraçou-o pelo pescoço, mas seus
braços foram retirados rudemente. Não iria permitir aquela intimidade,
se era isso que ele queria, teria de ser do seu jeito.
Milo o segurou pelas nádegas e o
puxou de encontro a si, para que sentisse o membro intumescido e o
tamanho de sua urgência. Afastou seu corpo bruscamente, dando a
Afrodite uma sensação momentânea de abandono. Milo tirou a única peça
de roupa que o cobria, olhando-o fixo, incitando-o a fazer o mesmo.
Deitou-se na areia quente, flexionando os joelhos, num convite à
saciedade. Milo agachou-se lentamente, aproximando seu corpo ao dele,
mas não chegou a toca-lo.
Apoiando-se com as mãos espalmadas,
uma em cada lado da cabeça de Afrodite, dirigiu os lábios até uma das
faces, mordiscando o lóbulo da orelha. Desceu depositando pequenos
beijos ao longo do percurso, no pescoço, peito, mamilo, tórax, umbigo,
parando na região da virilha, fazendo-o respirar fundo de expectativa.
Sorrindo-lhe maliciosamente, Milo o segurou pelos ombros e virou seu
corpo de bruços, surpreendendo-º Tentou levantar a cabeça, mas a mão
do outro o impediu, forçando-a contra a areia.
Posicionou-o de joelhos, deixando-o à
mercê de seu desejo. Apertou uma das nádegas macias, antes de invadir
o pequeno buraco que lhe era oferecido. Entrou com tudo, sem se
importar com a dor lancinante que tomou conta de Afrodite. Com um
gemido de prazer, começou a se mover, os movimentos inicialmente
lentos, deram lugar aos ritmados.
A ereção de Afrodite crescia a cada
investida, desceu sua mão até ela, a fim de aliviar seu próprio
desejo. Mas também lhe foi negado esse direito, sua mão foi retirada
do destino, Milo o queria ver sofrer e ser subjugado.
As estocadas aumentaram de ritmo,
sentiam o clímax chegando. O fluído de êxtase escorreu pelas pernas do
cavaleiro, sentindo o próprio ir junto. Milo deixou o corpo molhado de
suor cair sobre o de Afrodite, ambos esgotados.
Após alguns minutos, Milo se
levantou, saciado. Indiferente, começou a tirar a areia que grudara e
se vestiu, como se nada tivesse acontecido.
-
Você me machucou, seu idiota!
Afrodite continuava no chão, apoiado
pelos cotovelos, olhava-o magoado. Milo riu sarcasticamente.
-
Eu sei que você gosta de apanhar, não me venha com essa. Você
que se ofereceu, agora paciência.
-
Devia me agradecer, teve o que nunca teria com Camus.
-
Nunca fale dele desse jeito! Ele é meu único amigo, eu é que
agi como um idiota.
-
Tem certeza de que ele é seu amigo?
-
O que quer dizer?
-
Se fosse mesmo não iria partir em pouco tempo para a Sibéria.
-
Sibéria? Do que está falando?
-
Oh, você não sabia? Parece que foi escolhido para ser mestre
lá, talvez não volte tão cedo para a Grécia.
-
Como soube disso?
-
Eu tenho meus contatos...
-
Sei muito bem que tipo de contatos!
Essa era boa, Sibéria? Porque não
havia lhe dito nada? Afastou-se furioso, deixando Afrodite satisfeito
com o efeito da notícia. Deitou-se, ainda nu, com os braços cruzados
sob a cabeça.
Milo avistou Camus, que conversava
animado com alguns aprendizes. Aproximou-se fumegando, sem se importar
com as pessoas em volta. Soltou o verbo sem cerimônia.
-
O senhor vai para a Sibéria e nem se preocupa em comunicar
sobre esse detalhe?
Todos, inclusive Camus, olharam
assustados com a repentina intromissão. Embaraçado, o cavaleiro de
gelo dispensou a turma, que entreolharam-se e foram embora, dando
risinhos.
-
Muito bem, dá para me explicar?
-
Eu ia contar, quando estivesse tudo confirmado.
-
Oh, claro que ia!
-
Isso lá é motivo para ficar revoltado desse jeito?
-
Pensei que fosse meu amigo e confiasse em mim.
-
Claro que confio...
-
E então?
-
Ta, eu vou explicar o que acontece. Você sabe que preciso
desenvolver o meu poder, expandi-lo. Pretendo chegar ao congelamento
do zero absoluto, isso só será possível numa área de temperaturas
extremamente baixas. Surgiu a oportunidade de poder ir à Sibéria,
alguns garotos serão mandados para lá, por causa da armadura de
bronze. Eu me ofereci como mestre, mas ainda não confirmaram nada. Não
queria me precipitar.
-
Mas...e o Santuário? E eu?
-
Você?
-
É...é o único amigo que eu tenho de verdade, com quem eu vou
treinar, em quem vou confiar?
-
Ora, há pessoas muito interessantes que dariam ótimas amigas, e
você as afasta! Vou estar no fim do mundo, mas isso não impede que
continuemos amigos.
-
...
-
Não faça essa cara de incrédulo, é verdade! Porque não volta
para a sua ilha, para se aperfeiçoar também? Não temos conseguido
muito progresso por aqui mesmo...
-
Talvez...
-
Você não comeu, não é? Eu salvei um pouco de comida para você
do batalhão de choque.
Chegara o dia da partida, e ainda não
conseguia aceitar os fatos. Acompanhara Camus até o porto, ambos
estavam vestido como civilizados. Esperavam o navio sentados numa
mesa, havia muitos turistas no local. Apenas observava Camus fazer sua
refeição, antes de subir a bordo.
Terminou de comer e limpou os cantos
da boca, por fim olhou para Milo e sorriu. Não resistindo, acabou por
sorrir também. Ele ia partir e provavelmente ficariam anos sem se
verem, então aquela seria sua última chance de lhe contar o que
angustiava sua alma. O problema era que não sabia se expressar nem era
dado a confissões.
-
Camus, eu...preciso lhe dizer uma coisa, antes de você ir.
-
Sou todo ouvidos.
-
É sobre aquele dia, na praia, que você ficou bravo comigo.
-
Eu sei, ficamos sem falar desse assunto. Preferia que nem
tocasse nele.
-
Desculpa...
-
Tudo bem, eu andei pensando naquilo e acho que tem uma
explicação racional.
-
Tem?
-
Nos conhecemos por três anos, e durante esse tempo estivemos
muito próximos um do outro, sempre juntos. Acho que nos apegamos
tanto, que isso afetou nossa amizade.
-
O quê? Não, creio que isso é diferente...
-
Acredite, Milo. Acabamos confundindo nossos próprios
sentimentos, somos muito jovens e não sabemos direito o que queremos.
Será bom nos afastarmos, para amadurecermos. Quando nos encontrarmos
novamente, verá que eu estava certo.
-
Pode ser, você sempre soube mais do que eu. Me perdoa...
-
Eu é que tenho de pedir perdão por ter sido tão rude. Preciso
ir, o navio já chegou.
-
Adeus...
Milo sussurrou a despedida, sentado
com a cabeça abaixada, evitando encará-lo. Camus o fez se levantar e
viu as lágrimas que tentara esconder, o abraçou forte.
-
Eu sempre serei o mesmo.
-
Eu também...
-
Tchau, seu rabugento.
-
Adeus, francês.
Vê-lo partir lhe cortava o coração,
nunca o vira chorar, e naquela vez não foi diferente. Só ele para
chorar como uma menininha, que vergonha.
Será que ele estava certo? Aquilo que
sentia deveria ser mesmo uma confusão da sua mente adolescente? Teria
de esperar alguns anos para ver se essa teoria seria confirmada, ou
não. O que lhe restava agora era seguir seu exemplo, e ocupar sua
cabeça na Ilha de Milos, iria aperfeiçoar suas técnicas |