Endocrinologia da Gestação
Walt Yamazaki

mestrando em Medicina Veterinária, Área de Concentração: Reprodução Animal

Departamento de Reprodução Animal - FCAVJ - UNESP


A placenta é um órgão endócrino transitório como o corpo lúteo. Ela secreta hormônios tróficos e esteróides que são liberados na circulação fetal e também na circulação materna. O conceito de uma unidade feto-placentária foi proposto para explicar os vários mecanismos pelos quais grandes quantidades de progesterona e estrógenos são produzidas durante a gestação. Tanto a placenta quanto o feto são falhos em certas funções enzimáticas que são essenciais para a esteroidogênese, porém as enzimas ausentes da placenta estão presentes no feto e vice-versa. Assim, pela integração sequencial das funções esteroidogênicas do feto e da placenta, a unidade feto-placentária pode elaborar a maior parte, se não todos os esteróides hormonalmente ativos.

Além do papel essencial de fornecer nutrientes e oxigênio para seu metabolismo, uma das funções mais importantes da placenta é a produção de progesterona. Em primatas, tal função é estabelecida no início da gestação, sendo bem provável que a placenta consiga manter a gestação nas duas a três semanas após a implantação nessas espécies.

A progesterona, essencial para a manutenção da gestação, é produzida pelo corpo lúteo, pela placenta ou por ambos. A produção placentária de progesterona, suficiente para manter a gestação, é tardia nos animais domésticos (ovelha: 50o dia na gestação de 150 dias; égua: 70o dia na gestação de 340 dias; gata: 45o dia na gestação de 65 dias) ou nunca é suficiente para manter a prenhez (como em vacas, cabras e porcas). Para estes animais em que a produção placentária de progesterona não é suficiente para manter a gestação, os corpos lúteos são essenciais durante toda a gestação. Em outros espécies, a capacidade placentária de sintetizar progesterona varia. Por exemplo, aos fazer-se ovariectomia no 225o dia de gestação na vaca e do 50o ao 55o dias em gatas e cadelas, algumas gestações prosseguem a termo, mas muitas não. Isso indica que a placenta desses animais tem alguma capacidade paralela de secretar progesterona na gestação tardia.

A ovariectomia em éguas do 70o ao 100o dias de gestação, na ovelha do 50o ao 60o e em primatas no 30o dia de gestação, em geral não interrompem a mesma. Essas são as épocas em que a produção placentária de progesterona está suficientemente estabelecida nessas espécies para manter a gestação. Tanto em ovinos quanto em primatas, a produção luteínica de progesterona continua através de toda a gestação, ainda que a produção da placenta seja predominante. Na égua, o corpo lúteo regride à metade durante a gestação e a progesterona placentária é a única responsável pela manutenção da gestação.

Na ovelha, a placenta garante o apoio endócrino da gestação entre o 50o e o 60o dias de prenhez. Para a manutenção da gestação pela placenta, deve haver uma síntese líquida de progesterona na mesma (aumento da síntese e/ou bloqueio de seu metabolismo). O desenvolvimento das enzimas delta4-5 isomerases e 3ß-ol-desidrogenases é essencial para a conversão da pregnenolona em progesterona. A produção placentária de progesterona é vegetativa, de suporte hipotalâmico e hipofisário. Assim, a ovelha não requer LH da hipófise anterior para a esteroidogênese placentária.

Em contraste com a produção de progesterona, a de estrogênio requer interação entre o feto e a placenta. Tal interação é bem descrita em primatas, onde verificou-se que a placenta é incapaz de produzir estrogênio a partir da progesterona, mesmo que esteróides só fossem separados pelos androgênios na via bioquímica sintética dos esteróides. A placenta simplesmente não tem as enzimas necessárias para o movimento da progesterona em direção aos androgênios. Em decorrência disso, desenvolveu-se um sistema em que a placenta fornece pregnenolona, o precursor imediato da progesterona, para o feto, no qual a zona fetal do córtex adrenal transforma a pregnenolona em um androgênio de 19 carbonos, a desidroepiandrosterona (DHEA). Esta retorna para a placenta, que pode então converter a DHEA em um androgênio. Nos seres humanos, o estrogênio primário da gestação é o estriol. Como o feto está envolvido na produção de estriol, seu "bem-estar" pode ser avaliado pela determinação das concentrações plasmáticas maternas de estriol.

A produção de estrogênio na égua também envolve uma interação entre a placenta e o feto. Sabe-se que as gônadas fetais substituem as adrenais do feto em primatas como o órgão endócrino fetal responsável pela síntese cooperativa de estrogênio. As células intersticiais das gônadas parecem ser do tipo interativo, com as gônadas fetais atingindo um tamanho maior do que as maternas durante a última fase da gestação. A produção de estrogênios durante a prenhez em outras espécies domésticas ocorre relativamente tarde e talvez envolva o desenvolvimento de enzimas placentárias que possibilitem a metabolização da progesterona em estrogênios sem intervenção direta de um órgão endócrino fetal (mesmo assim, o cortisol fetal é importante para a indução dessas enzimas placentárias, em particular na ovelha).

Após o estro e ocorrência da fertilização, os níveis sanguíneos de estrogênios tendem a cair. Durante o curso da gestação, os padrões estrogênicos mostram uma tendência a aumentarem, atingindo picos na metade e término da gestação na égua e cadela, e próximo ao momento da parturição na rata, vaca, ovelha e porca.

Os estrogênios são importantes principalmente na preparação da cérvix para o parto e início das contrações endometriais. Durante a gestação, os efeitos estrogênicos no trato reprodutivos incluem a multiplicação das células epiteliais uterinas e extensão da região glandular, hipertrofia das células da musculatura lisa uterina e síntese de protéinas contráteis (miosina e actina), deposição de glicogênio nas células da musculatura lisa do útero e vasos sanguíneos, além da síntese de colágeno e glicosaminoglicanos da matrix extracelular.

A única gonadotrofina coriônica identificada em animais domésticos é a equina (eGC ou PMSG), produzida pelas células trofoblásticas que inicialmente formam como que uma faixa no córion (cintura coriônica), a qual se desprende por volta do 35o dia de gestação, penetra no endométrio e forma associações celulares denominadas cálices endometriais. A eGC aumenta a produção de progesterona pelo corpo lúteo primário da gestação e ajuda na formação de corpos lúteos secundários ou acessórios, mediante a luteinização ou ovulação de folículos pré-formados.

Os hormônios protéicos produzidos durante a gestação tendem a ser de origem placentária. Por exemplo, a relaxina é um hormônio produzido pela placenta na cadela, na gata e na égua a partir do 20o dia de gestação nas duas primeiras e do 70o na última. Além da sua importância no preparo dos tecidos moles do canal pélvico para a passagem do feto durante o nascimento, a relaxina pode ser importante para manter a gestação mediante ação sinérgica com a progesterona. Como exceção à regra geral da produção de hormônio protéico pela placenta, a relaxina é produzida pelo corpo lúteo na porca, na vaca e em primatas durante a gestação, com sua liberação pré-parto ocorrendo em conjunto com a luteólise.

O lactogênio placentário, conhecido também como somatotropina coriônica, é um hormônio peptídico da gestação produzido pela placenta e encontrado em muitas espécies de mamíferos. Sua produção aumenta em primatas, à medida que a de gonadotrofinas coriônicas caem durante a gestação. O lactogênio placentário foi encontrado em ovelhas e cabras, com aumento de sua secreção no final da gestação. Ele parece ter efeitos somatotróficos e lactogênicos, com propriedades semelhantes às do hormônio do crescimento e da prolactina, apresentando portanto, efeitos tróficos tanto para a mãe como para o feto (por exemplo, aumenta a síntese de proteínas, a lipólise e diminui a gliconeogênese). Em vacas leiteiras, o lactogênio placentário pode ser importante para estabelecer o estágio da lactação seguinte de acordo com o desenvolvimento alveolar das glândulas mamárias.

Outro hormônio cuja produção aumenta durante a gestação é a prolactina, também importante para o desenvolvimento alveolar no período pré-parto. A prolactina não é um hormônio de origem placentária; seus níveis aumentam no final da gestação, devido ao efeito do estrogênio sobre a liberação a partir da adenohipófise.


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19/04/00


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