PARTO
Tânia Vasconcelos Cavalcante

doutoranda em Medicina Veterinária, Área de Concentração: Reprodução Animal

Departamento de Reprodução Animal - FCAVJ - UNESP


1. Introdução

Definições

O parto é um conjunto de fenômenos mecânicos e fisiológicos que tem como conseqüência a expulsão do(s) feto(s) e anexos fetais em uma fêmea que chegou ao final da gestação.

O parto é denominado normal, fisiológico ou eutócico quando acontece pelas forças da natureza e de forma favorável para a mãe e seus produtos; compreende uma sucessão de fenômenos ligados à preparação do parto, introdução do feto no canal pélvico e sua expulsão. Pode ainda ser denominado distócico, prematuro e retardado, de acordo com a necessidade de intervenção cirúrgica ou não e variações da sua duração normal.

O início do parto é denominado por uma completa interação de fatores endócrinos, neurais e mecânicos. Para cada fator principal e identificado numa espécie, existem exceções conhecidas entre outras espécies de mamíferos que impedem o estabelecimento de generalizações.


2. Caracterização das Fases do Parto

2.1. A primeira corresponde à repetição da atividade contrátil do miométrio.

2.2. A segunda fase corresponde à expulsão do feto: enquanto a dilatação do colo do útero se completa, o feto entra progressivamente no canal pélvico.

2.3. A terceira fase que corresponde à expulsão dos anexos fetais. A clivagem da placenta e da caduca é facilitada pelo processo de degeneração placentária e pelas contrações localizadas do músculo uterino.


3. Mudanças Hormonais no Final da Gestação e seus Efeitos sobre o Miométrio e o Colo

As modificações da relação progesterona / estradiol (P4 / E2), por suas conseqüências sobre a receptividade uterina às prostaglandinas, catecolaminas e ocitocina em particular, têm um papel preponderante na determinação hormonal do parto.


3.1. A Relação P4 / E2

3.1.1. Mudanças Segundo as Espécies

A gestação é sempre caracterizada por um estado de dominância da progesterona, com as concentrações plasmáticas e uterinas de progesterona (de origem luteal ou placentária) sempre mais elevadas que as do estradiol 17b (bloqueador da progesterona). Ao final da gestação, ocorre um abaixamento das concentrações de progesterona, seguido de um aumento brusco das taxas de estradiol 17b (de origem placentária ou ovariana). Isso resulta em uma nítida diminuição da relação das concentrações plasmáticas e tissulares entre os dois hormônios. É o caso, por exemplo, da rata e da ovelha.

O miométrio passa sempre progressivamente de um estado de dominância de progesterona, responsável pela quiescência do útero, a um estado de forte impregnação estrogênica mais favorável à concentração. Esse é um fator indispensável para o desencadeamento e para a normalidade do parto.

Na ovelha, a administração de progesterona no final da gestação bloqueia a atividade do útero, prolonga a atuação da gestação e pode suprimir o parto.

As mudanças dinâmicas das concentrações plasmáticas de progesterona e de estradiol 17b são, portanto, elementos essenciais para o desencadeamento do parto, desde que suas relações sejam bem coordenadas. Assim, a elevação da taxa de estradiol induzida precocemente por perfusão enquanto a queda de progesterona ainda não foi efetivada ou, ao contrário, uma elevação muito tardia do estradiol em relação ao abaixamento da concentração de progesterona levam sempre a anomalias severas do parto.

Uma das maiores conseqüências da retirada do bloqueio de progesterona e da queda da relação P4 / E2 é permitir ou facilitar a ação de agentes estimuladores da contratibilidade miometrial.

3.1.2. Efeitos dos Hormônios Esteróides sobre a Atividade Contrátil do Miométrio

3.1.2.1. Polarização Membranária e Excitabilidade Miometrial

Na rata, um estado de forte impregnação estrogênica que ocorre no fim da gestação ou durante o estro está associado à diminuição do potencial de repouso da fibra miometrial, que passa de -70 mV no 15o dia de gestação a -55 mV na época do parto, o que demonstra uma diminuição do limiar de excitabilidade do miométrio. Paralelamente, no miométrio da rata, sob impregnação estrogênica, a densidade dos canais de cálcio intramembronários se eleva de 60% e sua afinidade (Kd) pode também ser estimulada.

A conseqüência desse efeito do estradiol é um aumento da captura de cálcio seguido da entrada massiva dos íon Ca++ na fibra miometrial. A formação do complexo cálcio-calmodulina permite a ativação da cadeia leve de miosina quinase (MLCK) que, em conseqüência, leva a fosforilação das cadeias leves de miosina, LCZO, indispensável à interação miosina-actina quando da contração. Esse processo pode ser favorecido pela ação exercida também pelo estradiol sobre a elevação do teor miometrial de calmodulina: + 40% na coelha. Esta ação do estradiol é complementar aos efeitos ligados à retirada do bloqueio de progesterona; a progesterona exerce um efeito favorável sobre a captação de íons cálcio das cisternas do retículo sarcoplasmático.

3.1.2.3. O Sistema Contrátil

O estradiol induz a síntese de proteínas implicadas nos fenômenos de contração. Na coelha, durante a gestação, a concentração de actomiosina aumenta progressivamente, fenômeno que se acentua muito nas últimas 24h antes do parto. O estradiol ativa igualmente o sistema actino- miosina -ATPase, liberador da energia necessária para a contração.

3.1.2.2. As Junções Comunicantes

O acoplamento elétrico e metabólico das células miometrais é assegurado pelas junções comunicantes. Isto permite a propagação dos sinais elétricos e da sincronização de ondas de contração em todas as regiões do útero. Em todas as espécies estudadas, o número e a superfície das junções comunicantes são limitadas durante a gestação, porém aumentam significativamente próximo ao parto. A mudança é correlacionada com a inversão da relação P4 / E2 próximo ao parto. Conclui-se, então, que por ações múltiplas de todos os parâmetros juntos que favorecem a contração, a redução da relação P4 / E2 permite a realização da contratibilidade uterina.

3.1.3. Efeitos dos Hormônios sobre o Colo Uterino

Na fêmea, no final da gestação, a aplicação local do estradiol 17b acelera a distensão cervical. Por outro lado, a administração de Sulfato de DHA, precursor de origem materna e fetal dos estrógenos, induz um aumento rápido de estradiol no tecido cervical, o que se traduz pelo aparecimento de uma importante atividade colagenásica. Uma hipótese atual mais aceita é a de que estradiol modifica a sensibilidade do colo uterino à ação das prostaglandinas.

3.2. As Prostaglandinas

As prostaglandinas F (PGF) são vasoconstrictoras; em contra partida, as prostaglandinas E podem ser vaso-dilatoras (inibitórias). Os efeitos das prostaglandinas são complexos de se compreender, pois variam conforme as espécies consideradas, o estado fisiológico do útero (grávido ou não), a via de administração (geral ou local), ou a zona uterina explorada. A ligação das PGEs e das prostaciclinas (PGI2) sobre os receptores membranários leva a um aumento da concentração intracelular de AMPc, enquanto que a PGFa aumenta a concentração de cálcio citossólico. Esta diferença na natureza da ligação entre receptor e o segundo mensageiro intracelular, segundo o tipo de prostaglandina, pode fornecer uma explicação para o fato de que os efeitos das PGs E e F sobre o miométrio são antagonistas. Os conhecimentos sobre os receptores miometriais das diversas PGs são poucos e fragmentados. Provavelmente, existem um ou vários tipos de receptores membranários específicos para cada PG. Enquanto que o número e a afinidade dos receptores da PGF2a não se modifica durante a gestação normal, o número de PGE2 diminui.

3.2.1. A Produção de Prostaglandinas no Final da Gestação

Embora a fonte principal seja o endométrio, uma produção de PGs e de seus metabólicos é também assegurada pelo miométrio, pelas membranas fetais, pela placenta e pela decídua ou caduca. A secreção das PGs, qualquer que seja a sua origem, aumenta bruscamente no momento do parto. Essa secreção aumentada de PGs depende da ação estimuladora do estradiol sobre a atividade da Fosfolipase A2, conduzindo à liberação do ácido aracdônico, precursor comum a todas as PGs e do ciclo oxigenase, permitindo a síntese dos compostos da série 2.

A ocitocina contribui também para ativar a produção de PGs no final da gestação.

É provável que o efeito resulte de sua ação sobre a mobilização do cálcio intracelular, ativando as fosfolipases C e A2. A produção das PGEs, estimulada pela queda da relação P4 / E2 no final da gestação e pela ocitocina, promove as ações mais importantes a considerar na cadeia de eventos que conduzem ao parto: ocorre, de um lado, a contribuição da PGF2a na aceleração dos processos heterolíticos responsáveis pela queda progressiva da progesterona e da retirada do bloqueio de progesterona e, de outro lado, da amplificação da sensibilidade uterina à ocitocina. Desse modo, no parto há um processo de auto-amplificação; ele mesmo dependente de um controle esteroidogênico.

3.2.2. Os Efeitos das Prostaglandinas sobre a Atividade Contrátil do Miométrio

No parto, a PGF2a aumenta muito o tônus e a freqüência das contrações físicas, e esse efeito é abolido por um inibidor dos canais de Cálcio - o D600. Isto sugere que a PGF2a deve favorecer o influxo de cálcio via canais cálcicos membranários. A PGF2a também diminui a captação do cálcio a nível dos sítios de estocagem intracelular, ele inibe assim, de maneira dose dependente, a atividade da ATPase membranária cálcio-magnésio dependente, reduzindo, assim, o fluxo de cálcio fora da fibra uterina. Todos esses efeitos contribuem para aumentar a concentração de cálcio citossólico, favorecendo o aparecimento de contrações.

3.2.3. Prostaglandinas e o Colo Uterino

Na ovelha, há uma sincronização entre a dilatação progressiva do colo e o aumento da concentração de PGs no líquido amniótico. As modificações características da maturação fisiológica do colo (aumento da hidratação do tecido conjuntivo e elevação da concentração de ácido hialurônico) sob a ação de PGE2 administrada por via cervical favorecem um controle direto da PGE2 sobre o processo de maturação cervical. Esse fenômeno ocorre independente da atividade contrátil uterina, como foi demonstrado experimentalmente na rata, após desconexão cirúrgica do colo do útero.

3.3. A Ocitocina

É uma das substâncias mais amplamente reconhecidas como estimulante do músculo uterino no momento do parto.

3.3.1. As Concentrações de Ocitocina e de seus Receptores Miometriais no Final da Gestação

A dilatação do colo uterino é o ponto de partida de um reflexo neuroendócrino chamado de Ferguson, promovendo uma descarga de ocitocina hipotalâmica e o aumento súbito de suas taxas plasmáticas. As taxas circulantes são mais elevadas durante a fase de expulsão do feto. A hipófise fetal e talvez a placenta participam também da elevação do nível de ocitocina no parto.

3.3.2. Efeitos da Ocitocina sobre a Atividade

Contrátil do Miométrio

Como para PGF2a, a ocitocina eleva o Ca++ da célula miometrial por três ações: a ocitocina aumenta a captação do Ca++ extracelular, esse efeito que desaparece na presença de Ca++ resulta da entrada de Ca++ via canais de cálcio. A ocitocina favorece a liberação de Ca++ a partir dos sítios de estocagem intracelular via produção do IP3. A ocitocina inibe a atividade da enzima membranária ATPase Ca++ e Mg++ dependentes que regula a expulsão ativa do Ca++ para fora da célula.

Concluindo, todas as ações da ocitocina contribuem para elevar a concentração de Ca++ citossólico livre, favorecendo a contração. Assim, durante o parto, a concentração elevada de ocitocina circulante associada ao aumento da densidade dos seus receptores miometriais deve ser considerada como um fator maior do aumento das forças de contração do útero.

3.4. A Relaxina

A relaxina é um hormônio polipeptídeo de duas subunidades ligadas entre si por pontes dissulfeto. A síntese e a secreção da relaxina, durante a gestação, são essencialmente asseguradas pelo corpo lúteo ovariano (ruminantes, égua, rata e mulher), pelo endométrio (ovelha e jumenta) e pela placenta (cobaia e mulher).

3.4.1. Relaxina e Atividade Miometrial

O hormônio tem um efeito relaxante sobre a fibra muscular lisa uterina, via produção de AMPc associadas à diminuição da fosforilação das cadeias leves de miosina.

3.4.2. Relaxina e o Colo Uterino

A expansão do ligamento sinfisário bem como o relaxamento do colo uterino estão correlacionados com a elevação das concentrações de relaxina no final da gestação.


4. O Sistema Nervoso Periférico e seus Mediadores

A inervação noradrenérgica tem suscitado em interesse particular porque seus neurônios fixam seletivamente o estradiol e sua mudança em neurotransmissores, sempre é modulada por meio ambiente esteroidiano.

As alterações da reatividade adrenérgica do miométrio nesse período são conseqüências das mudanças características da relação P4 / E2.

A elevação do estradiol ativando a liberação de noradrenalina ao nível das varicosidades noradrenérgicas pode promover o aumento da concentração de seu neuromediador no trato genital a termo.

Atualmente, o papel potencial dos neuropeptídeos identificados nas fibras que inervam o útero não está estabelecido. A ação primordial que se pode atribuir a esses mediadores periféricos (NPY, VIP, substância P) é um controle dos débitos sangüíneos locais susceptíveis de influenciar a fisiologia e, em conseqüência, a contratibilidade do músculo uterino.


5. O Eixo Hipotálamo-hipófise-corticosuprarenal do Feto e a Determinação do Parto

Nas ovelhas, é a ativação do eixo-hipotálamo-hipófise-suprarenal que determina a duração da gestação e o momento do parto.

A estimulação do córtex suprarenal do feto por administração de ACTH ou a perfusão no feto com cortisol ou de um glicocorticóide sintético, a dexametazona, induz um parto prematuro.

A taxa de ACTH e de cortisol aumentam consideravelmente no plasma fetal vários dias antes do nascimento. O cortisol fetal estimula a atividade do esteróide 17-a-hidroxilase (citocromo P450 17a) do esteróide C-17,20 liase e provavelmente a aromatase e do esteróide sulfatase, promovendo uma diminuição da secreção da progesterona e um aumento da síntese de estradiol pela placenta.

No feto normal, o pico de ACTH plasmático não precede o de cortisol, e a secreção aumentada de cortisol pode mesmo se produzir sem mudança das taxas plasmáticas de ACTH imunoreativa; isso pode ser explicado por um recontrole dos esteróides supra-renais. A ativação constatada próximo ao parto resulta do processo de auto-amplificação: no final da gestação, o cortisol fetal age a nível hipofisário por retroação positiva, amplificando o efeito estimulador do CRF (Fator de Liberação da Corticotrofina) ou da AVP (vasopressina) sobre a secreção de ACTH e modificando o balanço entre as formas secretadas de ACTH imunoreativo e de ACTH biologicamente ativo, em favor dos últimos.

Por outro lado, o cortisol age sobre as células do córtex-suprarenal aumentando sua sensibilidade ao ACTH (indução da síntese de receptores de ACTH) e melhorando sua ligação à adenilato-ciclase. Assim, nas ovelhas, essas mudanças de atividade do eixo hipotálamo-hipófise-suprarenal do feto próximo ao parto, por suas conseqüências sobre a secreção de cortisol e a atividade esteroidogênica da placenta, representam um elemento maior da iniciação das modificações da relação P4 / E2, preparando a ação dos agentes estimuladores da atividade miometrial. A mesma determinação da parição existe também na cabra, na vaca, na jumenta, na égua e na coelha.


6. Influência de Fatores Externos sobre o Desencadeamento do Parto

Nos animais de produção, as observações mostram que as fêmeas grávidas se isolam sempre do rebanho quando se aproxima o parto. Esse comportamento observado sobre a normalidade do parto permite o estabelecimento de relações mãe e filho e limita a mortalidade dos neonatos.

6.1. Fotoperiodismo e a Melatonina

Na maior parte das espécies, o momento do parto é sensível às condições fotoperiódicas. Assim, na rata, na cabra ou na alpaca, o parto raramente acontece durante a noite. Inversamente em outras espécies, os nascimentos ocorrem quase que exclusivamente à noite (coelha, camundonga e jumenta). A mulher apresenta igualmente dois períodos preferenciais de parição, com um máximo de parições pela manhã. Ao contrário, em bovinos, as parições seguem uma distribuição uniforme ao longo do nictâmero.

Na rata, a mudança brutal do ciclo "luz-escuridão" determina o momento da parição. A manipulação do fotoperíodo tem sido utilizada para precisar os aspectos cronológicos e circadianos das secreções de progesterona e de relaxina e suas conseqüências sobre a contratibilidade uterina e a dilatação do colo.

A administração de pentobarbital ou a lesão do núcleo supraquiasmático inibem os efeitos das manipulações fotoperiódicas sobre o desencadeamento da secreção de progesterona e o momento do parto, sugerindo um controle pelo sistema nervoso central do rítmo circadiano endógeno da luteólise no final da gestação. A fase noturna é o período durante o qual a melatonina é mais fortemente secretada. É possível em ratas mantidas sobre luminosidade contínua baixa, minar os efeitos de um tratamento fotoperiódico por administração de melatonina, cuja eficácia depende da cronologia ou do momento de sua administração.

6.2. Os Ritmos Alimentares ou Alternância

Atividade-Repouso

Na rata, impor um ritmo alimentar é um meio eficaz para modificar o horário de nascimento. Nessa espécie, os principais momentos de atividade se concentram em torno do momento da colocação dos alimentos à disposição. Os registros da atividade física do animal mostram que os nascimentos ocorrem durante os momentos calmos do dia e o animal desenvolve normalmente atividade noturna.

Existe, pois, uma relação oposta entre atividade e parição. Uma mudança imposta pelo regime alimentar é capaz de se opor ao efeito inibidor da fase noturna com parições durante a noite, o que levanta o problema da hierarquia dos treinadores, pois a atividade imposta induz um ritmo dominante sobre aquele decorrente do fotoperíodo.


7. Aspectos Farmacológicos. Perspectivas em Clínica Humana e Veterinária

O controle farmacológico do parto é essencial na prática obstétrica, quer seja para induzir artificialmente o trabalho ou, ao contrário, para retardá-lo. No entanto, a indução é indispensável quando há indicação de uma extração por patologia materna ou fetal, ou quando há o prolongamento do tempo normal do parto.

Em medicina veterinária, a indução do parto permite assegurar uma sobrevivência eficaz da mãe e da cria. Associada à sincronização das fecundações, ela reduz a necessidade da presença do criador ou do veterinário. Esse controle pode ser exercido, seja por retardamento da expulsão da cria, seja induzindo o parto antes do termo, desde que se observe, entretanto, que os fetos sejam viáveis e possam se adaptar às condições do rebanho.

Esse controle pressupõe o domínio simultâneo das contrações do miométrio e a maturação do colo. As anomalias da contratibilidade uterina e da dilatação do colo são a origem de numerosas distocias e sofrimento fetal. Quando o colo está imaturo, o desencadeamento do trabalho de parto é associado a um número elevado de fracassos ou de complicações, tanto para a mãe como para o feto.


8. Desencadeamento do Trabalho

8.1. Ocitócinos

Em clínica humana, enquanto o colo está imaturo, o desencadeamento do trabalho está associado a número elevado de fracassos ou de complicações, tanto na mãe quanto no feto. As técnicas farmacológicas de maturação cervical contribuem, entretanto, para aumentar as chances de sucesso da indução por um ocitócino (sintocinona). De fato, a perfusão intravenosa da ocitocina é atualmente o método mais usado para induzir o trabalho a termo.

8.2. Indução por Prostaglandinas

As prostaglandinas têm a vantagem de exercer um papel indutor menor nas contrações do corpo uterino e na maturação do colo. São os compostos mais estudados atualmente e mais utilizados em clínica veterinária.

Nos animais de produção (vaca, égua, cabra, jumenta), como na mulher, é possível iniciar o parto por administração de PGF2a. Entretanto, os mecanismos na ação da PGF2a (ou seus análogos) são diferentes nesses dois casos: indução direta de uma atividade miometrial e modificações do colo uterino na mulher, indução indireta por desencadeamento da luteólise nas outras espécies. A PGF2a, entretanto, é ineficaz para induzir o parto em ovelhas.

Nos bovinos, o parto pode ser induzido nos 2 a 3 dias que se seguem à perfusão intravenosa ou intra-uterina de PGF2a ou de PGE2. No entanto, este método é pouco aplicável em condições de criação.

8.3. Indução por Estrógenos

Nas ovelhas, uma correlação positiva existe entre a atividade uterina e a taxa plasmática dos estrogênios. Nessa espécie, a administração intramuscular de benzoato de estradiol no final da gestação induz o parto nas 24h que se seguem, sem conseqüências nefastas para os fetos. Nas vacas, resultados similares têm sido relatados com problemas de retenção de placenta.

8.4. Indução por Corticoesteróides

Na ovelha, onde parto depende estritamente da função corticotrópica fetal, a injeção intramuscular de corticoesteróides de síntese (dexametazona, por exemplo) é correntemente utilizada para induzir o nascimento: administrada na manhã do 144o dia de gestação nas ovelhas Ile de France, a dexametazona promove a parição nas 50 a 80 horas que se seguem.

Entretanto, há variações de acordo com as raças de ovelhas, a hora do dia do tratamento com relação ao momento a termo, assim de acordo com a natureza do corticoesteróide empregado.

Outras espécies, como a vaca e cabra, são igualmente muito sensíveis a esse método de indução do parto, enquanto que uma menor eficácia é relatada na jumenta e na égua.

Na vaca, essa prática corrente de indução do parto é, entretanto, limitada pelas numerosas retenções placentárias observadas. A relaxina administrada em gel intra-cervical associada à dexametazona permite a indução do parto 48h mais tarde, em média, sem retenção placentária e com redução de distocias. A ação de relaxina se exerce sobre o tecido conjuntivo e placentomas e sobre a dilatação cervical e pelviana.

8.5. Indução por Antiprogestativos

Na ovelha, o parto pode ser induzido por um inibidor da síntese de progesterona, o trilotane.


9. Apresentação e Posição do Feto

O termo apresentação se refere à forma na qual o feto se introduz na cavidade pelviana. E a posição é a relação que existe entre certos órgãos do feto convencionalmente eleitos e certos órgãos da mãe bem determinados. Para o parto, ele se coloca em uma posição que apresenta o mínimo de dificuldade para passagem através do canal pélvico.

A apresentação pode ser longitudinal e transversal; a longitudinal pode ser anterior ou posterior. Essa forma de apresentação é normal ou natural, pois o grande eixo do feto se encontra na direção da pelvis e o parto é possível naturalmente se o feto tem desenvolvimento normal e não apresenta nenhuma anomalia de posição. A apresentação anterior é a mais comum em ruminantes; os cascos dianteiros do feto emergem primeiro com o focinho entre eles; a cabeça fica distendida e o dorso do feto, em contato com o sacro da fêmea. A apresentação transversal pode ser dorso-lombar ou esterno-abdominal e é sempre distócica.

Em apresentação anterior, as principais posições são dorso-sacra, dorso-pubiana e dorso-ilíaca direita e esquerda. E em apresentação posterior: lombo-sacra, lombo-pubiana e lombo-ilíaca direita ou esquerda.


10. Puerpério

Compreende o período desde a expulsão da placenta até o retorno do organismo materno ao seu estado normal antes da gestação.

A regeneração do endométrio, a involução uterina e o restabelecimento dos ciclos estrais são as modificações mais marcantes que ocorrem no puerpério.

10.1. Regeneração do Endométrio

Na vaca, no período puerpério, os lóquios e evacuação uterina são compostos de muco, sangue e fragmentos fetais e tecidos carunculares. Os lóquios inicialmnente têm a coloração sanguínea, tornando-se mais claro posteriormente. Estes serão misturados com quantidade crescente de sangue devido a hemorragias do tecido caruncular em separação.

As modificações vasculares degenerativas, esquemia periférica, necrose e destacamento levam à involução das carúnculas. A superfície das curúnculas de bovinos, desprendida do epitélio logo após o parto, regenera-se na maioria das vacas normais dentro de trinta dias após o parto.

10.2. Involução Uterina

O retorno do tamanho normal de antes da gestação denominamos Involução Uterina. Este processo está associado com a degradação enzimática de mucopolissacarídeos, um rápido encolhimento das células e, no final do período de involução, um agrupamento do núcleo das células musculares.

Na vaca, a diminuição das contrações uterinas ocorre logo após o parto, que provoca encurtamento das longas células musculares uterinas.

Segundo Rajamahendran et al.,(1990), a involução uterina ocorre completamente em quatro semanas pós-parto e não há diferença significativa entre animais primíparos e pluríparo.

Entretanto, Studer (1978) cita um maior período para involução uterina, que consiste de 25 a 50 dias após o parto. Okano et al., (1987) observou um processo de involução uterina que foi começado no dia 8 pós-parto e continuado até o 43o dia pós-parto.

Na ovelha, para ocorrer a completa involução uterina, são necessários 24 dias e outros 10 a 12 dias antes que possam conceber.

10.3. Atividade Ovariana Pós-Parto

A atividade cíclica ovariana após o parto varia de acordo com a espécie. O desenvolvimento folicular na vaca é influenciado por meio da retirada do leite e a sucção exerce efeito mais supressivo do que a ordenha. Vacas leiteiras podem ovular entre o 15o e 20o dia pós-parto.

O anestro pós-parto nas cabras sofre influência de fatores genéticos, de meio e de manejo. Encontram-se na literatura informações discrepantes quanto aso período médio transcorrido entre o parto e o primeiro estro.

O experimento realizado por Andrioli et al., com cabras SRD nas estações chuvosa (TI) e seca (TII) na região Nordeste do Brasil demonstra que o intervalo entre-parto e o primeiro estro clínico pós-parto foi menor que no tratamento I de 52,3 dias e que, no tratamento II, 112,3 dias. Não houve diferença estatística significativa (p>0,05) com relação à duração e à taxa de ovulação entre os dois tratamentos. Concluindo-se que as cabras paridas durante a época chuvosa assumem a atividade ovariana mais cedo em comparação com aquelas paridas na época seca, possibilitando obtenção de um maior número de crias por cabra / ano.


11. Conclusão

O mecanismo do parto é bastante complexo, envolve interações endócrinas, materno-fetais, nervosas e mecânicas que são indispensáveis para o desencadeamento e a normalidade do parto.


Refências Bibliográficas

ANDRIOLI, A.; SIMPLÍCIO, A. A.; MACHADO, R. Comportamento Reprodutivo Pós-Parto em Cabras sem Raça Definida Mantidas em Pastagem Nativa no Nordeste do Brasil. Boletim de Pesquisa no 14. EMBRAPA, 1989.

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RAJAMAHENDRAN, R. & TAYLOR, C. Characterization of Ovarian Activity in Postpartum Dairy Cow Using Ultrasound Imaging and Progesterone Profiles. Elsevier Science Publishers B. V, pag 171 a 179, 1990.

STUDER, E. Postpartum Evaluation of Bovine Reproductive Potential: Comparison of findings from genital tract examination per rectum, uterine culture, and endometrial biopsy. JAUMA, vol. 172, No February, 1978.

THIBAULT, C. & LEVASSEURS, M.C. La Reproduction - Chez Les Mamniferos et l'homme. INRA. Edition Marketing. Paris, 1991.

17/05/00


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