Aspectos Comparativos entre as Diferentes Placentas e Placentações dos Mamíferos Domésticos
Lorivaldo Paz Landim Júnior

mestrando em Medicina Veterinária, Área de Concentração: Reprodução Animal

Departamento de Reprodução Animal - FCAVJ - UNESP


I.Objetivos: Oferecer parâmetros para caracterizar e diferenciar as placentas dos mamíferos domésticos.

II. Introdução:

II.1- Definição:

A placenta é um órgão formado por tecidos maternos e fetais, com a função de transportar substâncias nutritivas do organismo materno para o feto, bem como "trocas metabólicas" e ainda desempenhar funções endócrinas quanto a produção de hormônios na manutenção da gestação (sinciciotrofoblasto sintetiza gonadotrofina coriônica - glicoproteínas; estrógeno e progesterona - esteróides) e fenômenos endócrinos do parto.

 

II.2 - Origem:

Após a fertilização do óvulo pelo espermatozóide e o desenvolvimento do zigoto e seguidas divisões mitóticas até o estágio de blastocisto, este inicia o processo de implantação na mucosa uterina e o embrião passa a apresentar uma extensão de seus folhetos, iniciando a formação dos anexos embrionáros.

è Saco vitelínico: primeiro anexo a ser formado; nas aves tem a função de conter o vitelo, desintegrá-lo, absorver substâncias nutridoras e levá-los para o embrião através dos vasos vitelínicos. Nos mamíferos domésticos, o saco vitelínico persiste como estrutura rudimentar, sendo precocemente órgão vasculógeno e hematocitopoético.

è Âmnio: envoltório sacular do embrião e do feto, contendo líquido amniótico (impede a desidratação do embrião, permite a motilidade dos tecidos da superfície embrionária e proteção mecânica contra choques e atritos.

è Alantóide: nas aves é responsável pela função respiratória, absorção (sais de cálcio e albume) e armazenamento de substâncias (excretadas pelo rim). Nos mamíferos é um divertículo endodérmico do intestino posterior que se une ao cório formando a membrana cório-alantoideana (MCA). Nos equinos e carnívoros, o alantóide desenvolve-se bastante, envolvendo a cavidade amniótica com o feto.

è Cório ou Serosa: anexo derivado do trofoblasto (o mesoderma extra-embrionário, ao revestir a camada interna do trofoblasto, transforma-o na membrana denominada cório ou serosa). Posteriormente esta membrana converte-se em cório secundário, dotado de vilosidades, estabelecendo relações com a mucosa uterina.

è Cordão umbilical: anexo que une o feto à placenta, apresentando no seu interior os vasos alantoideanos (agora chamados umbilicais); são representados por duas veias e duas artérias (homem, equino e suíno: obliteração e desintegração da v. umbilical direita). Pode conter ainda pedículos do saco vitelínico e do alantóide.

 

II.3 - Implantação:

Antes da união com a mucosa uterina (endométrio) o embrião obtém substratos metabólicos essenciais a partir do líquido existente na luz uterina, chamado histotrofo ou "leite uterino", composto por metabólitos de baixo peso molecular. Uma vez formada a placenta, a alimentação histotrófica é substituída pela hematotrófica (metabólitos essenciais adquiridos através do sangue materno).

Os tecidos embrionários entram em contato com o endométrio pouco depois da chegada à luz uterina. Na maior parte dos mamíferos domésticos a zona de contato é antimesometrial.

 

Cronologia da implantação nos animais domésticos:

Animal

Início (dias)

Término (dias)

Gata

11-12

16-17

Cadela

14-17

20-21

Vaca

28-32

40-45

Égua

35-40

95-108

Ovelha

14-16

28-35

Porca

12-13

24-26

Fonte: adaptado de NODEM & DE LAHUNTA, 1990.

Os deslocamentos do blastocisto, incluindo os transuterinos em algumas espécies, são favorecidos pelas contrações da musculatura uterina e a motilidade dos cílios das células epiteliais do endométrio. No entanto, não se conhece os mecanismos responsáveis pela localização dos blastocistos nas fêmeas multíparas.

A superfície de contato entre os tecidos materno e fetal aumenta pelo desenvolvimento de vilosidades na superfície do cório. Estas vilosidades apresentam tecido conjuntivo e vasos no seu interior e apresentam-se de três formas de acordo com a sua relação com o endométrio:

Nos suínos e equinos estas vilosidades estão dispersas em toda superfície do cório (placenta difusa). Nos ruminantes, as vilosidades formam grupos ou "manchas", enquanto o restante do cório é liso (placenta cotiledonária). Nos carnívoros, as vilodidades estão dispostas na forma de um cinturão (placenta zonária). No homem, primatas e roedores, as vilosidades se agrupam em uma "placa" ou disco (placenta discóide).

O termo implantação se usa habitualmente para indicar a união do trofoblasto com a parede uterina, mas este grau de união varia notadadmente entre as espécies.

 

II.4 - Fisiologia Placentária:

Na ausência do vitelo, verificado nos mamíferos, a nutrição do embrião/feto no ambiente uterino está totalmente dependente de substratos oriundos do sangue materno via placenta. Em condições normais o sangue materno não se mistura ao sangue fetal e vice-versa, devido a barreira placentária. Fisicamente, a barreira é composta por camadas teciduais separando o sangue materno do sangue fetal (epitélio do trofoblasto, tec. conjuntivo, endotélio vasos fetais; endométrio, tec. conjuntivo, endotélio vasos maternos), que pode ser atenuada de acordo com a espécie envolvida (como a placenta hemocorial dos humanos), mas não é quebrada. Fisiologicamente, a barreira placentária age como uma membrana semipermeável, permitindo a passagem de algumas substâncias e barrando a passagem de outras.

Pequenas moléculas atravessam a barreira através de difusão simples. Isto se aplica, em primeiro lugar, à água, oxigênio, gás carbônico, sais simples de sódio, potássio e magnésio e monossacarídeos.

O transporte ativo de algumas moléculas também participam, no entanto, a penetração através da barreira é mais complexa. Isto é bem estabelecido entre as vitaminas e hormônios que podem passar da mãe para o feto. A passagem de estruturas complexas, proteínas em particular, podem às vezes sofrer pinocitose na superfície do trofoblasto. Proteínas altamente complexas também podem atravessar a barreira placentária, assim podemos citar os anticorpos, desenvolvidos no organismo materno que adquire imunidade a certas doenças como Difteria, Febre Escarlate, Varíola e Sarampo, passados ao feto (imunidade passiva). Isto não ocorre nas vacas que possuem uma placenta epiteliocorial, ou seja, uma formidável barreira placentária, os anticorpos são adquiridos pelo bezerro através da ingestão do colostro.

Certos organismos patogênicos e viroses podem penetrar através da barreira placentária e infectar o feto quando a mãe está infectada, por exemplo a Varíola, Varicela, Sarampo e Rubéola.

Muitas drogas usadas medicinalmente podem penetrar a barreira placentária podendo causar efeitos adversos ao embrião, como por exemplo a Talidomida que aplicada no início da gestação (25 a 44 dias em humanos) causam deficiências extremas no desenvolvimento dos membros, tubo digestivo e coração.

Pequenos fragmentos de células trofoblásticas destacadas podem ser encontradas nos capilares pulmonares. De forma recíproca, células maternas, provavelmente corpúsculos sanguíneos brancos, podem ser localizados no sistema linfático dos fetos (baço, timo, linfonodos, medula óssea).

 

III. Classificação:

De uma forma simplificada podemos classificar as placenta quanto:

  1. Relação com o endométrio:
  2. a.1) adecíduas: a união entre a parte materna e fetal é frouxa e ampla, não havendo o desprendimento de tecidos endometriais na ocasião do parto; é também chamada de semiplacenta, ocorre no suíno, equino, bovino e pequenos ruminantes de maneira parcial;

    a.2) decíduas: a união materno fetal é íntima com o endométrio; na ocasião do parto ocorre a perda de tecidos uterinos/endometriais; ocorre nos carnívoros, primatas, roedores e no homem.

     

  3. Distribuição das vilosidades coriônicas
  4. b.1)Placenta difusa completa: verificada no equino, todo cório é provido de vilosidades;

    b.2)Placenta difusa incompleta: verificada no suíno, quase todo o cório é provido de vilosidades;

    b.3)Placenta cotiledonária: encontrada nos ruminantes, as vilosidades se agrupam em pequenas regiões do cório (cotilédones);

    b.4)Placenta zonária: encontrada nos carnívoros, as vilosidades coriônicas se distribuem na forma de um cinturão;

    b.5)Placenta discoidal: encontrada nos primatas, homem e roedores; as vilosidades coriônicas se reúnem em uma área circular ou ovalada.

     

  5. Estrutura histológica (segundo GROSSER):

c.1) Epiteliocorial: os tecidos maternos não sofrem destruição alguma e o epitélio faz contato direto com o cório (suíno, equino e bovino);

c.2) Sindesmocorial: caracteriza-se por uma destruição parcial do epitélio uterino, ficando o tecido conjuntivo (sindesmo) em contato com o cório (ovelha e cabra);

c.3) Endoteliocorial: evidencia uma destruição ampla das camadas superiores da mucosa uterina (epitélio e tecido conjuntivo), permanecendo o endotélio dos vasos maternos em contato com o cório (carnívoros);

c.4) Hemocorial: o endotélio vascular materno também é destruído e o epitélio do cório banha-se diretamente com o sangue materno.

De uma forma mais complexa LEISER & KAUFMANN (1994), baseando-se nos estudos de vários pesquisadores estabeleceram uma classificação placentária mais ampla, baseando-se:

 

III.1 - Origem das membranas fetais:

  1. Cório: camada epitelial derivada da parede externa do blastocisto (trofoblasto). Durante o curso da implantação é completado pela camada interna do mesênquima embrionário, que posteriormente desenvolverá o sistema capilar. Em muitas espécies, o epitélio coriônico (camada mais externa da unidade fetoplacentária) representa uma decisiva barreira entre os organismos fetal e materno;
  2. Âmnio: derivado do ectoderma embrionário através de uma divisão/ruptura (roedores e primatas) ou uma dobra (demais mamíferos). Envolve o embrião/feto como um segundo folheto, mas não o saco vitelínico, assim como o cório;
  3. Saco vitelínico: camada do epitélio endodérmico, acompanhado pelo mesênquima fetal vascularizado (vasos vitelínicos). Na maioria dos mamíferos, o saco vitelínico e uma estrutura rudimentar que geralmente não participa das trocas materno-fetais.
  4. Alantóide: é a bexiga urinária extra-embrionária; desenvolve-se a partir do endoderma como um saco extra-embrionário, envolvido pelo mesênquima que é altamente vascularizado (vasos alantoideanos).

 

Assim, de acordo com as membranas fetais podemos classificar:

 

III.2 - Formas placentárias:

Todas as placentas dos mamíferos aumentam a área de contato entre as superfícies materna e fetal através da forma mais ou menos intensa das interdigitações dos tecidos. Quando esta distribuição se prolonga na maior parte da superfície coriônica temos a placenta difusa (suíno, equino). No entanto, na maioria dos mamíferos, as interdigitações estão concentradas em áreas específicas.

 

III.3 - Padrões de interdigitação materno-fetal:

O tipo de interdigitação materno-fetal descreve um padrão geométrico, na qual as superfícies dos tecidos materno e fetal estão arranjados espacialmente.

 

III.4 - Camadas de tecido inter-hemal (tipo e número de camadas que separam o sangue materno e fetal).

 

Teoricamente seis camadas teciduais separam as circulações materna e fetal - endotélio materno, tecido conjuntivo, epitélio maternal, trofoblasto (epitelio coriônico), tecido conjuntivo fetal e endotélio fetal.

A destruição do endotélio dos vasos maternos resulta na placentação hemocorial e a superfície coriônica está exposta diretamente ao sangue materno. ENDERS (1965) subdivide esta condição de acordo com o número de trofoblatos.

 

 

III.5 - Inter-relações entre o fluxo sanguíneo materno-fetal:

Classificação de acordo com o arranjo geométrico dos capilares maternos e fetais com relação ao fluxo sanguíneo na área de trocas.

Fluxo concorrente: é o sistema menos eficiente para realização das trocas entre o sangue materno e o fetal; os capilares materno e fetal estão dispostos de forma paralela e o fluxo sanguíneo percorre na mesmadireção

Fluxo contra-corrente: os capilares materno e fetal estão dispostos de forma paralela, no entanto o fluxo sanguíneo segue em direção oposta. Este é o arranjo vascular mais efetivo na difusão passiva

Fluxo em corrente secundária (cruza a corrente principal): capilares dispostos de forma perpendicular; eficiência intermediária quando comparado ao fluxo corrente e contra-corrente. Pode ser simples (carnívoros), duplo (primatas primitivos) ou multiviloso.

CARACTERIZAÇÃO CLÁSSICA DAS PLACENTAS, SEGUNDO LEISER & KAUFMANN, 1994

Classificação

Equino

Suíno

Ruminantes

Carnívoros

Homem

 

Placenta coriônica

 

Embrião-transitório

Embrião-transitório

Permanente nas extremidades da placenta

 

Embrião-transitório

 

Emrião - transitório

 

Embrião-ransitório

 

Placenta coriovitelínica

Permanente (somente ao lado do cordão acessório)

 

Ausente

 

Ausente (regressão do saco vitelínico)

Permanente (aprox.10% superf. Placentária desenvolv. a partir do saco vitel.)

 

Ausente (regressão do saco vitelínico)

Placenta corioalantóica

Permanente, dominante

Permanente, dominante

Permanente, na área placentária

Permanente, dominante

Permanente, no disco placentário

Placenta vitelínica

Ausente

Ausente

Ausente

Ausente

Ausente

 

Forma da placenta

 

Difusa, completa

Difusa, quase completa(sem vilos na extremidade placenta)

Cotiledonária (vaca:80-140 placentomas, ovelha 100, cabra 160

 

Zonária

 

Discoidal

Interdigitação materno-fetal

Vilosa (árvores vilosas simples; micro-cotilédones)

 

Pregueada

Vilosa (ramos complexos)

 

Lamelar

Vilosa (árvore vilosa complexa

 

Camadas de tecidos inter-hemal

 

Epiteliocorial

 

Epiteliocorial

Sinepiteliocorial (hibridização do trofoblasto e epitélio uterino)

 

Endoteliocorial

 

Hemomonocorial

Inter-relação do fluxo sanguineo maternofetal

Multivilosa

Corrente secundária dupla

Multivilosa a contracorrente

Corrente secundária simples

Multivilosa

 


Refências Bibliográficas

BACHA Jr.,W.J., WOOD, L. M. Female reproductive system. In:__. Color Atlas of Veterinary Histology. Philadelphia: Lea & Febiger, 1990. Cap.18, p.207-29.

ECHTERNKAMP, S.E. Relashionship between placental development and calf birth weight in beef cattle. Anim. Reprod. Sci., v.32, p.1-13, 1993.

LEISER, R., KAUFMANN, P. Placental structure: in a comparative aspect. Exp. Clin. Endocrinol, v.102, p.122-34, 1994.

LEME dos SANTOS & AZOUBEL. Embriologia comparada (texto e atlas), Jaboticabal: Funep, 1996, 189p.

NODEM, D.M., De LAHUNTA, A. Embriología de los animales domesticos, Zaragoza: Ed. Acribia AS, 1990.

PERRY, V.E.A., NORMAN, S.T., OWEN, J.A., DANIEL, R.C.W., PHILLIPS, N. Low dietary protein during early pregnancy alters bovine placental development. Anim. Reprod. Sci., v.55, p.13-21, 1999.

ROBINSON, J. et al. Placental control of fetal growth. Reprod. Fertil. Dev., v.7, p.333-44, 1995.

19/04/00


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