NÚCLEO DE CRUZEIRO DA SOCIEDADE PAULISTA CÃES PASTORES ALEMÃES

SISTEMA SBCPA - CBKC – COAPA – WUSV – FCI

BOLETIM DA DIRETORIA DE CRIAÇÃO NÚMERO 81 JUNHO 2000

DIRETOR DE CRIAÇÃO: DR. JOSÉ CARLOS PEREIRA

R. JOAQUIM DO PRADO, 49, CRUZEIRO SP, CEP 12700-000 TEFAX 0xx125443590,

MAIL jcarlos.pereira@uol.com.br

PS Alguns números do nosso boletim, por sua abrangência técnica, não são bem entendidos por criadores não profissionais veterinários ou médicos.

Vale a pena editá-los com muito tecnicismo? Creio que sim. Embora algumas vezes não muito entendidos, levam o criador a tomar conhecimento do desenvolvimento técnico-científico de problemas que envolvem os nossos animais.

A literatura brasileira é pobre e, muitas vezes, muito superficial. Como a literatura estrangeira está muito desenvolvida, os criadores tomam conhecimento de trabalhos muito técnicos que possibilitam o desenvolvimento da criação. Se ficarmos na superficialidade, arranhando somente os problemas, jamais acompanharemos o que acontece no exterior. É só compararmos como estamos cada vez mais atrasados em relação aos alemães e aos norte-americanos no controle de doenças hereditárias como a displasia coxo-femural. E o abismo que nos separa na criação, tanto dos animais ditos de estrutura como naqueles de trabalho.

Procuro escrever os boletins após exaustiva pesquisa feita pela exigência de atualização da minha profissão de médico. Com algumas pitadas do que acompanho na criação pastoreira alemã como sócio da SV há muitos anos. Assim, pelo menos procuro colocar nas mãos dos amigos criadores matérias atualizadas, embora algumas vezes da leitura dificultada pela exigência do tecnicismo.

José Carlos Pereira.

 

DOENÇA DE VON WILLEBRAND

O sangue, juntamente com as cartilagens e os ossos, constituem o grupo dos tecidos conjuntivos especializados. É um fluído viscoso, vermelho claro, fracamente alcalino que representa 7 a 8% do peso corporal do humano adulto. Contido dentro dos vasos que, em suas diversas formas como artérias, veias, arteríolas, vênulas e capilares, o leva para todo o organismo, o sangue está em constante equilíbrio entre a fluidez e a coagulação necessárias para evitar excessivos sangramentos ou tromboses. É composto por elementos figurados (células vermelhas, eritrócitos ou hemácias, células brancas ou leucócitos e plaquetas) suspensos em um fluído componente da matriz extracelular e conhecido por plasma. O sangue transporta nutrientes do sistema gastrintestinal para todas as células do corpo, traz os dejetos dessas células até os órgãos específicos para a sua eliminação, leva até o seu destino final produtos celulares importantes como os hormônios, carreia os eletrólitos e leva o oxigênio "atachado"à hemoglobina dos pulmões até as células e traz o gás carbono, também "atachado"à hemoglobina, das células até os pulmões para ser eliminado. Adicionalmente o sangue ajuda na regulação da temperatura corporal, na manutenção dos balanços ácido/básico e osmótico dos fluídos do corpo e serve como via de migração das células brancas entre os vários tecidos conjuntivos.

O sistema de hemostasia normalmente limita a perda sangüínea por um preciso mecanismo de interações entre os componentes da parede vascular, das plaquetas circulantes e das proteínas plasmáticas especializadas. Os sangramentos podem ocorrer por traumatismos sofridos pelos vasos, mesmo quando o sistema hemostático está normal, ou por alterações adquiridas ou herdadas do sistema hemostático.

Quando a injúria atinge uma área muito pequena, a vasoconstrição e a pressão tecidual são capazes de controlar o sangramento sem precisar mobilizar o processo de coagulação.

Mas, sempre que um trauma, cirurgia ou doenças rompem o endotélio (revestimento) dos vasos e o sangue fica exposto ao tecido conjuntivo subendotelial o organismo inicia uma série de mecanismos para estancar o sangramento. É o processo de hemostasia que pode ser primário e secundário.

  1. Processo primário de hemostasia. Ocorre em segundos após a lesão e visa formar tampões de plaquetas essenciais para evitar a perda de sangue pelos capilares, vênulas e arteríolas pequenas. É dividido em três etapas:
  2. a1- Adesão plaquetária. Alguns segundos após o trauma há a aderência das plaquetas às fibras colágenas do subendotélio vascular exposto pela lesão. A aderência é feita através de um receptor colágeno específico para as plaquetas, a glicoproteína Ia/IIa, que pertence ao grupo das integrinas. A estabilização do processo é mediado pelo fator de von Willebrand, uma glicoproteína adesiva que permite às plaquetas manterem-se aderidas à parede vascular mesmo sujeitas às forças contrárias do lúmem vascular. O fator de v. Willebrand forma uma ponte entre as fibrilas colágenas da parede vascular e receptores situados nas glicoproteínas plaquetárias Ib/IX. Lembram as amarrações que prendem os navios ao cais.

    a2- Ativação e secreção das plaquetas. Esses processos, como nas outras células, é desencadeado por uma série de eventos como a fosforilação de proteínas específicas intracelulares, o influxo de cálcio, a hidrólise de fosfolipídeos da membrana celular e alterações nos níveis de nucleotídeos cíclicos. Todos esses eventos acontecem após a ligação de agonistas, como a epinefrina, o colágeno e a trombina, a receptores das superfícies das plaquetas ativando duas enzimas, a fosfolipase C e a fosfolipase A2. Num exemplo importante do ponto de vista prático, essas enzimas catalizam a liberação do ácido aracdônico dos dois mais importantes fosfolipídeos das membranas, o fosfatidilinositol a a fosfatidilcolina; o ácido aracdônico por ação da enzima ciclooxigenase transforma-se em endoperoxidos (PGG2 e PGH2), os quais, por ação da enzima tromboxano sintetase transforma-se em tromboxano A2 (TXA2) e, posteriormente, em tromboxano B2(plaquetas) e, por ação da enzima prostaciclina sintetase, em prostaciclina (PGI2) e após em 6 ceto PGF1alfa(endotélio celular). O TXA2 estimula a ativação e secreção das plaquetas e, em oposição, a prostaciclina inibe a ativação plaquetária aumentando os níveis de adenosino monofosfato cíclico (AMPcíclico) no interior plaquetário. O TXA2 também estimula a agregação plaquetária e é um potente vasoconstritor. E o que tem de importância nessa mixórdia para nós, mortais pastoreiros, somente interessados nas garupas e angulações dos nossos animais? Vamos lá. Cada vez nota-se o uso mais freqüente dos antiinflamatórios ditos não hormonais para o tratamento de problemas ósteoarticulares dos humanos e dos animais, muitas vezes sem qualquer controle do profissional qualificado. Afinal, os medicamentos são vendidos livremente e de médico e de louco todo mundo tem um pouco como vocês bem sabem. Pois bem, os antiinflamatórios não hormonais, juntamente com a aspirina, inibem a enzima ciclooxigenase e, consequentemente, a síntese do tromboxano A2, podendo provocar sangramentos principalmente gastrintestinais que poderão ser graves.

    a3- Agregação plaquetária. É mediada pelo fibrinogênio que une plaquetas adjacentes via receptores existentes nos complexos de glicoproteínas plaquetárias IIb e IIIa, dando origem a um tampão hemostático. Todo esse processo é realizado pela ação do ADP liberado que, ligando-se a um receptor purinérgico, estimula os complexos glicoproteicos IIb/IIIa a ligarem-se ao fibrinogênio para unir as plaquetas adjacentes. As plaquetas agregadas atuam como tampão, bloqueando a hemorragia, além do fator plaquetário 3 dos seus plasmalemas fornecerem a superfície fosfolipídica necessária para a reunião dos fatores de coagulação, especialmente para a trombina. Normalmente o endotélio vascular intacto produz protaciclinas e NO2 que são inibidores da agregação plaquetária.

  3. Processo secundário de hemostasia. Formado o tampão hemostático, as proteínas da coagulação plasmáticas são ativadas dando início ao processo hemostático secundário que termina com a formação da fibrina. O processo secundário leva alguns minutos para se completar. A fibrina fortalece o tampão hemostático primário, sendo muito importante para prevenir hemorragias dos grandes vasos passíveis de ocorrer horas ou dias após a lesão inicial. Numa primeira fase, há dois caminhos para a formação da tromboplastina ou fator III (fator Xa e o fator V mais o complexo fosfolipídico): a- O caminho chamado intrínseco ou plasmático, e também fase de contato, no qual há a conversão enzimática sucessiva dos fatores XII (fator de Hageman), XI e IX nas suas formas ativas XIIa, XIa e IXa. Duas outras proteínas estão envolvidas no processo: a precalicreína na ativação do fator XII e o cininogênio de alto peso molecular (HMWK) na ativação na do fator XI. O fator IXa interage com o fator VIII, com o cálcio e fosfolipídeo para ativar o fator X a Xa, o qual, também interage com o fator V, com o cálcio e fosfolipídeo formando um complexo ativo que converte a protrombina (fator II) em trombina; a esse complexo ativo é que se dá o nome de protrombinase, preferido pela maioria dos autores, ativador da protrombina ou, como antigamente, tromboplastina; b- O caminho chamado extrínseco ou dependente do fator tissular, no qual o fator VII é convertido em fator VIIa pelo fator tissular (um complexo fosfolipídico proteico) que ativa o fator X diretamente. É formado um complexo entre o fator VII, o cálcio e o fator tissular(lipoproteína presente na membrana celular). O fator VII e os fatores II(protrombina), IX e X necessitam do cálcio e a vitamina K para a sua atividade biológica. Estas proteínas da coagulação são produzidas no fígado onde há a dependência da vitamina K. A segunda fase da coagulação caracteriza-se pela clivagem enzimática do fator II em unidade moleculares pequenas, sendo uma delas a trombina (fator IIa); essa fase necessita o fator II (protrombina) como substrato para o complexo fator Xa-fator V-fosfolipídeo-cálcio. Na terceira fase, a trombina fende quatro peptídeos pequenos (dois fibrinopeptídeos A e dois fibrinopeptídeos B) originários do fibrinogênio dando origem a monômeros da fibrina, os quais, polimerizam-se espontaneamente para dar origem a fibrina. O fator XIIIa, formado pela ação da trombina sobre o fator XIII, leva a ligações covalentes dos fios da fibrina dando origem a coágulos muito estáveis.

Para manter a sua fluidez, possibilitando realizar as suas funções com eficiência, o sangue mantém um equilíbrio entre os mecanismos de coagulação e os seus inibidores. Somente em um mililitro de sangue há fatores para coagular o fibrinogênio de todo o organismo em 15 segundos. Mas, somente uma quantidade mínima de cada enzima de coagulação é liberada determinando que o tampão hemostático fique restrito ao local da lesão. A fluidez do sangue é mantida pelo seu fluxo, que reduz a concentração dos coagulantes, pela adsorção dos fatores de coagulação às superfícies e pela presença de vários inibidores no plasma. Os mais importantes inibidores da coagulação são a antitrombina, as proteínas C e S e o fator inibidor tissular (TFPI). A antitrombina forma complexos com vários fatores de coagulação, atividade que é acelerada pela heparina e moléculas semelhantes a heparina, o que explica a ação anticoagulante dessas substâncias. A proteína C, após ser ativada pela ligação trombina-trombomodulina, inativa os fatores de coagulação V e VIII, além de estimular a liberação do ativador tissular do plasminogênio pelas células do endotélio. A proteína S amplia as ações da proteína C.

Após cumprir o seu papel hemostático o trombo deve ser destruído e o vaso reparado, o que é iniciado logo após a formação do trombo definitivo. A destruição da fibrina, ação fibrinolítica, depende de três fatores: fragmentos do fator de Hageman, do ativador plasminogênico urinário(uPA) ou urokinase(UK) e do ativador plasminogênico tissular (tPA). Os ativadores tPA e uPA, originários das células endoteliais, convertem o plasminogênio adsorvido ao coágulo de fibrina em plasmina, enzima que irá determinar a lise do trombo. A plasmina quebra os polímeros de fibrina em pequenos fragmentos que são fagocitados pelo sistema monocito-macrófgo. A liberação do PDGF(fator de crescimento derivado da plaqueta) estimula o crescimento e a migração dos fibroblastos e células dos músculos lisos, que irão participar do processo de reparação, para dentro da parede do vaso.

 

DOENÇA DE VON WILLEBRAND (DVW).

É uma doença hereditária que atinge ambos os sexos, determinada pela produção baixa da proteína de von Willebrand ou pela síntese de uma proteína alterada em sua constituição. A proteína de v. Willebrand contém um componente de adesão plaquetária, o fator de v. Willebrand, e também atua como transportadora do fator VIII, o fator anti-hemofílico, no plasma. O fator de v. Willebrand é uma glicoproteína com concentração plasmática de 10 mg/litro, tendo uma atividade distribuída entre uma série de multímeros com peso molecular entre 400 000 e 20 milhões. Uma subnidade única e grande de precursor do fator de v. Willebrand é sintetizada pelas células endoteliais e pelos megacariocitos. Esse precursor é clivado em multímeros que são encontrados no plasma, nas plaquetas e no subendotélio vascular. Uma redução, mesmo que muito pequena, do fVW no plasma ou a perda seletiva dos multímeros de alto peso molecular diminuem a adesão plaquetária com sangramentos de expressão clínica.

É transmitida como caráter dominante autossômica (a pessoa afetada é heterozigótica, com uma alelo para o fator de v. Willebrand normal e o outro anormal), portanto, não ligada ao sexo. Há raras famílias com casos muito graves nos quais a transmissão é feita de maneira autossômica recessiva. A alteração responsável pela doença foi encontrada no cromossoma 12. É a mais comum alteração do sangramento, atingindo 1 em 800 ou 1 em 1000 pessoas. Alguns autores afirmam que a DVW não é tão comum como a hemofilia A(deficiência do fator VII) mas, talvez, o seja mais que a hemofilia B(deficiência do fator IX).

O quadro laboratorial é polimorfo, com uma base para raciocínio: a- Redução da concentração do fVW plasmático; b- Redução na atividade do fVW estimulada pelo antibiótico ristocetina como cofator ; c- Tempo de sangramento prolongado e d- Atividade reduzida do fator VIII. Os achados laboratoriais e a sua intensidade são muito variados, não só pela heterogeneidade da doença como pela influência de alguns fatores sobre a concentração do fVW plasmático, como o grupo sangüíneo ABO (pessoas do tipo sangüíneo O geralmente apresenta níveis mais baixos do fVW do que os tipos A, B e AB), inflamações sistêmicas, gravidez e alterações do sistema nervoso central.

São três os principais tipos de DVW: a- Doença do tipo I (Tipo clássico). É o mais comum e apresenta médio a moderado decréscimo do fVW (50% de atividade, ou próximo a 5 mg/litro),diminuição das atividades do fator VIII e do cofator ristocetina e espectro normal de multímeros na eletroforese de gel sódio dodecil sulfato(SDS)-agarose; b- Doença do tipo II. É mais rara e apresenta duas variedades: b1- Variedade do tipo IIa . Tem como característica básica a deficiência das formas de fVW de alto e médio pesos moleculares. O antígeno do fVW e o fator VIII são normais; b2- Variedade do tipo IIb. Há também uma baixa dos multímeros de alto peso molecular. Mas, por uma ligação inapropriada do fVW às plaquetas. Há a formação de agregados plaquetários que são removidos rapidamente da circulação causando queda cíclica das plaquetas no sangue; c- Doença do tipo III. Surge em 1 em cada 1 milhão de pessoas, é recessiva, muito severa e usualmente atinge filhos de ambos os pais com o tipo I de média gravidade. Em muitos casos, os pais são muito pouco afetados ou clinicamente assintomáticos. O filho pode herdar uma diferente anormalidade da mãe e do pai (heterozigoto duplo) ou receber anormalidades iguais da mãe e do pai caracterizando a homozigose para um defeito simples. Têm sangramentos graves, principalmente pelas mucosas, atividade e antígenos do fVW não detectáveis e baixa de fator VIII suficiente para levar a hemorragias articulares como acontece em hemofílicos. Alguns casos seríssimos são diagnosticados em famílias com deleções mais sérias dos genes fVW.

O quadro clínico da DVW mostra desde sangramentos leves de nariz e gengivas até os mais graves, algumas vezes mortais, como pode ocorrer com os sangramentos gastrintestinais. O período menstrual da mulher pode apresentar sangramentos mais profusos. Como já foi dito, os derrames sangüíneos articulares podem simular hemofilias. O tempo de sangramento é maior nas lesões provocadas por traumatismos e nas feridas cirúrgicas.

O tratamento, com a finalidade somente sintomática e não de cura logicamente, vai desde o uso de crioprecipitados plasmáticos enriquecidos com fVW ou de concentrados de fator VIII, até o uso de medicamentos como o 1-desamino-8-D-arginina (DDAVP), um vasopressor indicado principalmente nos casos de DVW do tipo I.

 

Doença de v. Willebrand em cães.

Esgotado o geral, vamos aos finalmente porque os amigos pastoreiros já devem estar pensando que amarraram os seus burros em local errado. O que não é verdade. Vamos lá.

A doença de von Willebrand, que foi descrita nos humanos das Aland Islands por E. A. v. Willebrand, em 1931, em trabalho publicado na Acta Med. Scandinav., afeta também os cães. Também nos cães é a mais comum doença hereditária do sangramento. As raças mais atingidas são os Doberman Pinschers, os Poodles, os Manchester Terriers, os Scottish Terriers, os Rottweilers, os Dachshunds, os Schnauzers miniaturas, os Airedale Terriers e, como desgraça pouca é bobagem e o pastoreiro padece no paraíso, os Pastores Alemães.

A liderança dos estudos sobre a DVW em cães, iniciados com as raças Doberman Pinscher e Westies, é dos cientistas da Michigan State University liderados pelo prof. George J. Brewer, do Department of Human Genetics and Internal Medicine, e pelo prof. Patrick J. Venta, do Department of Small Animal Clinical Sciences. Esses professores estão entre os fundadores do VetGen, laboratório dedicado aos estudos genéticos com especial atenção ao desenvolvimento dos testes de ADN.

Alguns dados estatísticos preliminares do VetGen, baseados nos testes VetGenDNA, mostram a importância do problema. Até março de 2000 foram testados 3207 Dobermans com os seguintes resultados: a- Isentos (ambos os alelos sem a mutação para DVW): 28.1%; b- Portadores (um alelo normal e o outro mutante): 48.1% e c- Afetados (ambos os alelos mutantes) 23.0%. Também até março de 2000 foram testados os DNAs de 1123 Poodles com os seguintes resultados: a- Isentos: 92%; b- Portadores: 7% e c- Afetados: 1%.

Os estudos que culminaram com a descoberta da mutação causadora da DVW em Dobermans, com suportes financeiros do Doberman Pinscher Foundation of America, da Orthopedic Foundation for Animals, pela Morris Animal Foundation e pelo American Kennel Club (também o Poodle Club of America e o American Miniature Schnauzer Club subsidiam estudos sobre a DVW), mostraram que cada gene é capaz de gerar 5 a 10% de animais normais, havendo, portanto, 90 a 95% de afetados ou portadores; como são dois genes, os Dobermans circulam por aí somente com 10 a 20% de genes normais para o fVW. Também preliminarmente outros estudos mostram que, nos Dobermans, o gene mutante tem uma freqüência de 0.6 (60% dos genes mutantes); 36% de todos os Dobermans seriam afetados de maneira homozigótica, com os dois alelos mutantes e passíveis de sangramentos; 48% seriam portadores (um gene normal com o seu alelo mutante), com poucos riscos de sangramento e apenas 16% seriam homozigotos isentos.

 

Uma rápida lembrança. Nos cromossomas, responsáveis por todo o patrimônio genético e em número de 78 nos cães, estão os genes. Para cada característica do indivíduo há um gene vindo do pai e um da mãe. Os dois genes que trazem uma determinada característica estão situados no mesmo local (locus) do cromossoma e são chamados alelos. Quando uma característica determinada por um gene sofre alteração (mutação) o gene é chamado mutante. Se os dois alelos forem mutantes teremos a homozigose. Se um alelo for mutante e o outro normal teremos a heterozigose para aquela carcterística. Dados mais completos sobre genética estão na reedição do Boletim 21, colocado à disposição dos interessados para envio por Mail.

Os portadores do gene mutante do fVW não apresenta riscos de sangramentos, mas são capazes de transmitir o gene mutante para 50% dos seus filhos. De um modo grosseiro pode-se afirmar que os níveis do fVW encontra-se entre 5 a 20% nos animais afetados, 30 a 100% nos portadores e entre 50 a 130% nos normais homozigóticos. Importante notar a superposição entre os níveis dos portadores e dos normais, dificultando situar o animal em uma das duas classificações levando-se em conta somente a dosagem do fVW. Além do mais, os níveis do fVW podem variar num mesmo animal dentro de um período de tempo na dependência de vários fatores.

O teste do DNA é mais preciso e não varia com o tempo sendo o seu resultado definitivo para toda a vida do cão. É muito fácil de ser feito, usando células da mucosa da boca do animal colhidas com uma pequena escova. Nos EEUU, o Vet Gen envia todo o kit para a coleta por 5 dólares. O resultado do teste é enviado ao dono do animal num prazo de duas semanas após o recebimento do material pelo laboratório e custa 135 dólares. Hoje já existem testes disponíveis para os Doberman Pinschers (tipo I VWD), Poodles, Westies, Shelties(tipo III DVW, sendo 11% dos animais portadores) Scotties (tipo III da DVW), Manchester Terriers. Logo estarão disponíveis para outras raças como os Pastores Alemães, Rottweillers, Dachshunds, Schnauzers miniaturas e Airedale Terriers. São comuns nas revistas norte-americanas propagandas de animais destacando as suas condições de isentos para o fVW.

Os exames do DNA permitiram a classificação mais clara e definitiva do animal em portadores (com um gene mutante anormal e o seu alelo normal, o animal não sangra mas pode transmitir a doença para os seus filhos), afetados (os dois genes alelos são mutantes para fVW, o animal sempre passa a herança para os seus filhos e pode sangrar) e isentos (os dois genes alelos são normais, o animal não apresenta a mutação e logicamente não a transmite para nenhum filho).

Como acontece com todas as doenças hereditárias o tratamento é apenas sintomático. Todo o esforço dever ser dirigido, no caso dos cães, a uma programação da criação para evitar o problema. No caso da DVW, o criador consciente deverá: a- Checar os seus padreadores e matrizes para saber se são portadores, afetados ou isentos; b- Se possível, seriam ideais os cruzamentos entre machos e fêmeas isentos para se conseguir ninhadas completamente isentas; c- Como nem sempre os cruzamentos isento/isento são possíveis, principalmente pelo pequeno número de animais sem o fVW, seriam razoáveis: c1- Os cruzamentos isentos/portadores que dariam 50% de filhotes isentos e 50% portadores e c2- Os cruzamentos entre portadores/portadores, conseguindo-se 25% de filhotes isentos, 25% afetados e 50% portadores. Numa segunda etapa, dessas ninhadas somente seriam usados na criação os filhotes isentos e, como opção menos interessante, os portadores com parceiros isentos e d- Não usar os cruzamentos afetados/portadores e afetados/afetados. No primeiro caso teríamos, em média, 50% de afetados e, no segundo, 100% de afetados. Com estes procedimentos os criadores previdentes teriam uma segunda ou uma terceira geração de cães isentos na totalidade.

O que fazer com os filhotes afetados? Na maioria das vezes terão vida normal e não apresentarão qualquer sinal da doença durante as suas vidas, sendo os seus donos aconselhados a não usarem os animais em criação. Alguns autores aconselham esterilizar esses animais.

Os animais com sangramentos mais duradouros do que o esperado nos atos cirúrgicos ou após traumatismos, os sangramentos gengivais, a presença de sangue nas fezes sem outros motivos aparentes devem levar à suspeita de doença do sangramento, principalmente a doença de von Willebrand.

Para nós pastoreiros, até o momento a DVW é uma ameaça a médio prazo. Mas, assim que a mutação for detectada no pastor alemão, o que deverá ocorrer brevemente, possibilitando ao criador saber se o seu animal é isento/portador/afetado, será mais uma problema a ser enfrentado. Portanto, é bom conhecer um pouco e ficar de orelha em pé como os nossos fiéis amigos.

Não poderia deixar de publicar a foto da espetacular Cindi Hirschel (Lasso Neuen Berg), VA3/99 na Alemanha e Siegerin/99 na Itália. Realmente é um animal para babar em cima.

 

Home ] Chat ] Informática ] Lista de e-mail- ] Gescanis - Grupo de Estudo dos Cães ] SPCPA ] Clínica ] Dermatologia ] Ortopedia ] Nutrição ] Oncologia ] Odontologia Veterinária ]

Androgênios ] Riquetsiose ] Ponto ] Luxação da Patela ] Uniformidade na criação ] Mielopatia Degenerativa ] Visão ] Agility ] Aprendizado ] Lobo Mau ] Dispalsia cotovelo ] Erliquiose ] Displasia Coxo-Femoral ] Dirofilariose ] Pragmatismo ] Consanguinidade ] Genética Aplicada ] Brucelose ] Ecos da SIEGER ] ECOS DA SIEGER  99 ] ECOS DA SIEGER  99-Machos ] [ Doença de Von Willebrand ]