
FESTIVAL SUPER BOCK SUPER ROCK 2000
Os macacos pulam muito
AS OITO da noite já há longas filas para entar.As dez horas exactas, com uma pontualidade germênica, começa o espectáculo e a audiênçia desata a saltar euforicamente.Hora e meia depois, já o concerto tinha acabado,ainda não tinha parado de saltar. Domingo os Guano Apes encheram o Coliseu de Lisboa com uma multidão entusiasta e tudo leva a crer que o cenário se tenha repetido ontem no Coliseu do Porto.
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Não deixa de ser estranho o
sucesso dos Guano Apes em Portugal. Um "saco" de amor
retribuido, a julgar pelo empenho que o quarteto alemão
pôs na sua actuação, o que é
compreensível:exceptuando a sua Alemanha natal, poucos
países haverá em que os Guano Apes (o nome que quer
dizer "macacos guano", sendo que
"guano" em inglês significa
"estrume" ou "fertilizante") sejam
tão bem recebidos. Afinal, os Guano Apes ainda só têm um álbum editado ("Proud like a God"), que ainda por cima é datado de 1997; vieram a Portugal duas vezes no espaço de um ano ( aos Festivais Paredes de Coura e T-99); tocam um estilo de música que não é particularmente original original ou raro ( um funk metal á Rage Against the Machine, mas com uma mulher uma vocalista e sem mensagem política). E contudo a audiência está completamente rendida a partir do momento em que Sandra Nasic põe os pés no palco. Qual Beck qual quê. Isto é que é entusiasmo. |
Uma recepção "linda"
Os Guano Apes vão
misturando temas do álbum (que o público conhece e
canta em coro) com outros novos ( que o público não
conhece mas salta na mesma). O ponto de ebulição da
plateia é atingido cedo, ao fim de quinze minutos já se
ouve o grito tribial de
"Portugal,Portugal,Portugal". "O quê? O
que é que isso quer dizer?", pergunta Sandra. Os
assobios intimidam-na rapidamente: "OK, já
percebi,Portugal,Portugal."Mais adiante, Sandra
admite que a recepção do Coliseu é "linda" e a faz "chorar por
dentro".Dennis
Poschwatta, o exuberante baterista dos Guano Apes, faz o
seu papel habitual de relações públicas da banda
anunciando : "Gostamos muito de Portugal.Obrigado,
obrigado,obrigado."O concerto continua com um
alinhamento semelhante ao das passagens anteriores dos
Guano Apes por Portugal. "We use the pain" faz
tremer as fundações do Coliseu. Em "Rain",
Sandar vira o microfone para o público, que
inevitavelmente, sabe todas as palavras da
canção."Crossing the deadline","Wash it
down" e "Tribute" também têm recepções
cataclísmicas. O entusiasmo de público é a tal ponto
que não pararia de saltar nem que os Guano começassem a
fazer versões de músicas da Ágata ou dos Alphaville.
"Este é o nosso novo single, 'Big in Japan' "
- os Guano Apes tocam mesmo um tema dos seus
"dinossáuros" compatriotas da pop etectrónica dos anos
dos anos 80. Fica-se á espera de uma versão de
"Perfume de mulher", mas em vez disso Sandra
Nasic e os seus pares avançam para "Lords of the
boards".É um cenário dantesco, observar um Coliseu
inteiro a pular e a berrar em unísseno um hino ás
glórias do "snowboard".Os quatro macacos saem,
voltam para dois encores, despedem-se com um épico
"Open your eyes" e vão-se embora .O público
não arreda pé, quer mais.O problema , se calhar, é que
uma bamda com apenas um álbum não pode ter um
repertório grande - se bem que, em Paredes de Coura, a
solução para isso tenha sido repetir músicas que já
haviam tocado. Após mais uns instantes, os técnicos
começaram a desmontar o palco. O público lá deixa de
saltar, e terá de esperar por uma nova visita dos Guano
Apes. De certeza que não vai demorar muito.
Pedro Ribeiro
In
Público Newspaper 14 March 2000