A santidade em carne e osso, que já fez brotar de novo
o sorriso, a esperança e a ternura nos olhos de milhões de empobrecidos,
sofredores de rua, órfãos, aidéticos, ex-prisioneiros?
Santa, sim, mas um tanto ingênua, que se deixa
facilmente seduzir por um sorriso, um cumprimento, uma esmola de algum
rico empresário ou fazendeiro?
Madre Teresa de Calcutá é uma figura controvertida.
Radicais hinduístas prefeririam tê-la longe, o mais possível, das ruas
de Calcutá. Para eles, essa religiosa católica de origem albanesa, rosto
enrugado pelos 86 anos de vida, corpo frágil e saúde precária, não
passa de alguém interessado, pura e simplesmente, em fazer proselitismo
religioso.
Cristãos engajados nos mais diferentes tipos de luta
pela transformação social sentem-se pouco à vontade com o testemunho
dela. Não criticam nela o amor sem medidas pelos últimos, os
marginalizados, os excluídos. Reclamam da falta de uma consciência que
saiba enxergar as estruturas injustas que produzem e mantêm a pobreza e a
miséria, na Índia e no mundo inteiro.
É cobrar demais. Madre Teresa parece distante dessa
discussão. "Não se pode fazer tudo", responde. E diz que reza
todo dia pelas pessoas que se ocupam com essas questões maiores. Diz
isso, com a mesma simplicidade de quem sorri ao afirmar que fez um trato
com Deus: uma alma a menos no Purgatório, para cada fotografia que dela
tiram.
Prêmios e títulos de reconhecimento não lhe faltam,
nem mesmo o Nobel da Paz, que ganhou em 1979. Há dois meses, recebeu do
presidente Bill Clinton o título de Cidadã de Honra dos Estados Unidos
da América. Uma homenagem só concedida antes a quatro pessoas, dentre
elas Winston Churchill, estadista inglês (1874-1965), um dos mais
importantes chefes de Estado do século 20.
Instrumentalização, em vista das eleições dos
Estados Unidos? Outra vez, parece que seria exigir demais de Madre Teresa
que se colocasse o problema. "É cansativo e duro", ela
reconhece na entrevista. Diz que utiliza tudo o que se lhe apresenta
"para a glória de Deus e o serviço aos mais pobres". Porque
"é preciso que alguém pague esse preço".
A congregação que fundou - as Missionárias da
Caridade - é um sucesso absoluto. O segredo? As jovens apreciam,
sobretudo, a vida de oração: "Rezamos quatro horas por dia". E
também "conhecem e vêem o que fazemos pelos pobres". É tão
simples...
Sem Fronteiras - Quantas são atualmente as Missionárias da Caridade?
Madre Teresa - Temos 3.604 Irmãs professas e 411
noviças, em seis noviciados: Calcutá, Filipinas, Tanzânia, Polônia, Roma
e Estados Unidos. As postulantes são 260. No total, somos 4.275 Missionárias
da Caridade, distribuídas em 119 países. As nossas Irmãs pertencem a 79
nacionalidades. Contamos com 560 tabernáculos, ou casas.
Por que "tabernáculos"?
- Porque Jesus está presente nessas casas. São casas de
Jesus.
A nossa congregação quer contribuir para que as pessoas
sejam saciadas da sua sede de Jesus. Fazemos isso, tentando resgatar e
santificar os mais pobres dos pobres. Como as outras congregações, fazemos
os votos de castidade, pobreza e obediência. Recebemos a autorização
especial de fazer um quarto voto: o de nos colocarmos a serviço dos mais
pobres dos pobres.
Como a senhora vê o tema do celibato?
- O celibato não é para quem se sente chamado ao matrimônio.
O sacramento do matrimônio é maravilhoso. Desde o momento em que um homem
e uma mulher se amam verdadeiramente e rezam juntos, Deus transmite a eles o
seu amor.
A vida familiar merece muita atenção, é um dom de Deus.
Não obstante, nós religiosas renunciamos a esse dom. Consagramos a nossa
vida a Deus na castidade e no amor, sem divisão. Nada nem ninguém nos
poderá separar desse amor, como diz São Paulo.
A senhora costuma dizer que não há amor sem
sofrimento...
- Sim, o verdadeiro amor faz sofrer. Cada vida, e cada
vida familiar, deve ser vivida honestamente. Isso supõe muitos sacrifícios
e muito amor. Porém, ao mesmo tempo, esses sofrimentos vêm sempre
acompanhados de muita paz.
Quando a paz reina em um lar, ali se encontram também a
alegria, a unidade e o amor. Como se pode levar uma vida familiar normal sem
paz e sem unidade?
Nesse sentido, a oração de São Francisco é muito
atual. Não vivemos nas mesmas circunstâncias, mas o que Francisco pedia
responde perfeitamente às necessidades da nossa época. Em Calcutá,
rezamos essa oração todos os dias, depois da comunhão. Penso em todos os
homens e mulheres que necessitam de amor: "Senhor, fazei-nos dignos de
ser instrumentos da verdadeira paz, que é a vossa paz".
A sua congregação abriu casas para pessoas com Aids
em várias partes do mundo...
- Sim, entre outros lugares, nos Estados Unidos, na Itália,
no Zaire e, evidentemente, na Índia. Até pouco tempo atrás, não era raro
que pessoas se suicidassem quando ficavam sabendo que tinham o vírus da
Aids. Hoje, nenhum enfermo acolhido em nossas casas morre no desespero e na
amargura. Todos, inclusive os não-católicos, morrem na paz do Senhor. Isso
não é maravilhoso?
As regras da sua congregação falam do trabalho em
favor dos "mais pobres dos pobres, tanto no plano espiritual quanto no
plano material". O que a senhora entende por "pobreza
espiritual"? Alguns dizem que se ocupa apenas com gente que vive na
rua...
- Os pobres espirituais são os que ainda não descobriram
Jesus Cristo, ou que estão separados dele por causa do pecado. Os que vivem
na rua também precisam ser ajudados nesse sentido.
Por outro lado, fico muito contente de ver que, em nosso
trabalho, podemos contar também com a ajuda de gente acomodada, a quem
oferecemos a oportunidade de fazer algo de bom para Deus. É desse modo que
conseguimos abrir um centro onde acolhemos e assistimos a jovens que saem da
prisão.
Essa gente nos oferece material e dinheiro. Nesses dias
chegou uma carta dos Estados Unidos. Pela letra dava para ver que era de uma
criança. Ela me dizia: "Madre Teresa, eu gosto muito de você". O
envelope continha um cheque de 3 dólares. Para essa criança, tratava-se de
um grande sacrifício.
Vocês também recebem ajuda de gente de outras religiões?
- Sim, de muçulmanos, hinduístas, budistas e outros.
Alguns meses atrás, um grupo de budistas japoneses veio conversar comigo
sobre espiritualidade. Eu disse a eles que jejuamos todas as primeiras
sextas-feiras do mês e que o dinheiro economizado vai para os pobres.
Quanto regressaram ao seu país, os monges pediram às famílias e
comunidades budistas que fizessem o mesmo. O dinheiro que recolheram nos
permitiu construir o primeiro andar do nosso centro "Shanti Dan"
("Dom de Paz") para as "jailgirls" (meninas da
prisão).
Cento e dez dessas meninas já saíram da prisão. São
jovens, quase sempre adolescentes. Muitas delas são deficientes psíquicas.
Saem das favelas e, de repente, se vêem metidas na prostituição. A maior
parte, assim que renuncia a esse tipo de vida, é denunciada à polícia
pelos proxenetas. Acaba na prisão, onde vive em condições desumanas.
Madre Teresa, alguns a criticam, dizendo que só tem um
objetivo: converter os não-cristãos...
- Ninguém pode forçar ou impor a conversão, que só
acontece por graça de Deus. A melhor conversão é a que consiste em ajudar
as pessoas a se amarem umas às outras. Nós, que somos pecadores, formos
criados para ser filhos de Deus, e temos que nos ajudar a chegarmos o mais
perto possível dele. Todos somos chamados a amá-lo.
A senhora diz que as suas Irmãs não são assistentes
sociais. Por quê?
- Somos contemplativas no coração do mundo, porque
"rezamos" o nosso trabalho. Realizamos um trabalho social,
certamente, mas somos mulheres consagradas a Deus no mundo de hoje.
Entregamos a nossa vida a Jesus, com uma renúncia total e a serviço dos
pobres, tal como Jesus nos deu a sua vida na eucaristia. O trabalho que
fazemos é importante, mas não é tanto a pessoa que o faz que é
importante. Fazemos esse trabalho por Jesus Cristo, porque o amamos. É tão
simples.
Não temos condições de fazer tudo. Eu sempre rezo muito por todos aqueles
que se preocupam com as necessidades e misérias dos povos.
Muitas personalidades e gente rica se associaram à nossa ação.
Pessoalmente, não possuímos nada. Não ganhamos dinheiro. Vivemos da
caridade e para a caridade.
E da Providência...
- Isso mesmo. Normalmente, sempre temos que enfrentar necessidades
imprevistas. Em nossa casa "Sishu Bevan", temos mais de
duzentos bebês que necessitam de um tipo especial de leite. Um dia, as
minhas Irmãs vieram me procurar para dizer: "Madre, tem que fazer
alguma coisa, porque não vemos nenhuma saída". No mesmo dia, um hindu
rico veio me ver e me disse: "Madre Teresa, esta manhã, uma voz me
disse que eu tinha que fazer alguma coisa pelos pobres", e me deu o que
necessitávamos. Deus é infinitamente bom. Ele sempre se preocupa conosco.
Por que tantas jovens entram para a sua congregação?
- Eu creio que elas apreciam, sobretudo, a nossa vida de oração. Rezamos
quatro horas por dia. Elas também conhecem e vêem o que fazemos pelos
pobres. Não se trata de trabalhos importantes e impressionantes. O que
fazemos é muito discreto, mas nós o fazemos pelos mais pequenos.
A senhora é uma pessoa muito popular. Nunca se cansa de tanta gente,
fotografias...?
- Considero isso um sacrifício, e também uma bênção para a sociedade.
Eu e Deus fizemos um contrato: para cada foto que tiram de mim, Ele liberta
uma alma do Purgatório... (risos)... Eu creio que, nesse ritmo, em
breve, o Purgatório estará vazio...
Viajar pelo mundo cercada de tanta publicidade é cansativo e duro. Porém,
eu utilizo tudo o que se me apresenta para a glória de Deus e o serviço
aos mais pobres. É preciso que alguém pague esse preço.
Que mensagem gostaria ainda de nos deixar?
- Amem-se uns aos outros, como Jesus ama a cada um de vocês. Não tenho
nada que acrescentar à mensagem que Jesus nos transmitiu. Para poder amar,
é preciso ter um coração puro e é preciso rezar. O fruto da oração é
o aprofundamento da fé. O fruto da fé é o amor. E o fruto do amor é o
serviço ao próximo. Isso nos conduz à paz. - "UMBRALES"
Fonte: Sem Fronteiras Nº 247 - Dezembro 96 - pág. 05
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