Entrevista com Millvina Dean

Extraído da Revista Manchete de 02 de Janeiro de 1998



Titanic
«Eu sobrevivi ao naufrágio»

Ela era pequena demais para viver a paixão encenada pela heroína Rose DeWitt Bukater. Mas Millvina Dean, 86 anos, é uma sobreviventede verdade. Com apenas dois meses de vida, ela estava a bordo do famoso transatlântico.

Millvina estava sendo levada pelos pais, com o irmão, para os Estados Unidos, em busca do sonho de todos os imigrantes da época: conquistar a América. O projeto de ter uma tabacaria e uma casa em Kansas City naufragou junto com o Titanic. Naquela noite fatídica e «amargamente fria», salvou-se no colo da mãe Ettie, no bote 13, no meio do Atlântico Norte. Tinha nascido há nove semanas e só foi saber que ela, o irmão Bertie e a mãe eram sobreviventes da desgraça muitos anos depois. O pai ficou para trás e seu corpo nunca foi resgatado. Integra a lista dos 1.653 mortos. A família Dean, que tinha um pequeno pub em Londres, viajava de terceira classe e muitos níveis abaixo das maravilhas mostradas nos bailes de gala do filme de Cameron.

Lúcida e falante, a sobrevivente mais nova (atualmente) do desastre garante que é saudável não beber água. Também evita se estressar rememorando o pior da história do naufrágio. Não quer nem ver o que sobrou do transatlântico fora d’água ou se recordar daquele dia através de documentários ou filmes. Millvina, inclusive, mora bem longe do mar: em New Forest, cerca de 15 quilômetros de Southampton. Mesmo assim, dois quadros com desenhos do Titanic estão pendurados na parede de sua casa.

Solteira, sem filhos, ela passou a maior parte de seus anos trabalhando como secretária em firmas de engenharia. Antes da Segunda Guerra chegou a fazer mapas cartográficos e só reviveu o drama do Titanic depois que ele foi localizado pela expedição de Robert Ballard, em 1985. Acabou se tornando a estrela principal das convenções especializadas na tragédia, organizadas por Sociedades do Titanic espalhadas pelo mundo. Uma das sete sobreviventes do navio, é a mais ativa de todas. Millvina recebeu os repórteres de MANCHETE com chá, biscoitos e sanduíches de salmão e recordou como ficou sabendo, pela mãe, que era uma sobrevivente da tragédia do Titanic.

O que exatamente ela contou?

Na noite do acidente, meus pais ouviram um estrondo e meu pai avisou para minha mãe que iria para o deque ver o que se passava. Quando ele voltou, falou que, aparentemente, o navio havia colidido com um iceberg: “Tire as crianças da cama e vá para o deque o mais rápido possível.” Foi o que minha mãe fez. Acho que foi essa pressa que nos salvou. Nós estávamos na terceira classe e muitos de lá não sobreviveram porque os privilegiados foram os primeiros a embarcar nos salva-vidas. Fomos conduzidas até o bote de número 13 e, porque eu era tão pequena, fui colocada num saco. Quando minha mãe entrou no barco percebeu que meu irmão não estava conosco. Ele tinha menos de dois anos. Ela não conseguia achá-lo e também tinha de se preocupar com meu pai. Apenas quando o navio Carpathia nos recolheu descobriu que meu irmão tinha sido salvo por outro passageiro. Então se sentiu aliviada. Ainda bem. Caso contrário, seriam duas grandes perdas.

Depois de saber que era uma sobrevivente a senhora passou a ser procurada como personagem? Tudo começou quando fui a um memorial em Southampton, em homenagem à tripulação do navio. Os americanos me conheceram e imediatamente me convidaram para ir para a América. Hoje, é isso: eu, viajando por aí, dando entrevistas e conhecendo gente por todo o canto.

A senhora é a favor da retirada do navio do oceano? Não, definitivamente não. Meu pai ainda pode estar a bordo. Pode estar lá. Me parece tão horrível. É a sua sepultura. Odeio essa idéia. Não me importo com os objetos que são encontrados no mar. Só acho que nada deve ser realmente retirado do Titanic.

O que, no seu ponto de vista, faz com que as pessoas fiquem tão fascinadas com o acidente? Primeiro, porque era o primeiro navio que se acreditava inafundável. Segundo, ele era um sonho, um luxo. Depois, havia muitos americanos milionários a bordo. Junte essas três coisas e as pessoas sempre ficam interessadas. Agora virou parte da historia. Quando fui à exibição dos objetos resgatados, há dois anos, em Londres, tinha gente de todos os lugares do mundo. Dei autógrafos para sete brasileiros.

SOUTHAMPTON ONDE TUDO COMEÇOU

«O acidente teve um impacto enorme sobre a população local. A maioria da tripulação morava em Southampton, e mais de 500 deles morreram no acidente. O efeito sobre a comunidade foi monstruoso, muitas crianças ficaram sem pais. Essa é a história que estamos interessados em colecionar», diz Donald Hyslop. Ele é curador do Museu Marítimo de Southampton — que tem em seu acervo peças como a espada do capitão do navio, Smith — e editor do recém-lançado Titanic Voices. Será o filme fiel ao drama vivido pelos moradores da cidade? «Eles tiveram a consultoria de vários historiadores. Encomendaram um número infinito de pesquisas e foram preciosistas na reconstituição. Claro que construíram uma história de amor que é fictícia, mas os detalhes são tremendos», diz Hyslop. O motivo de tanto fascínio? «O drama humano contido nesse enredo é incrível. O Titanic é como um microcosmo da sociedade daquela época.» Hyslop lembra, por exemplo, do abismo social contido no navio: enquanto uma suíte na primeira classe custava o equivalente a US$ 1.600, o salário mensal de uma comissária de bordo era, em média, US$ 7, e o do operador de rádio US$ 100 por ano.


Volta!!!!!