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O Maio em que a França Parou
Foi o movimento de massa mais original, segundo alguns historiadores. Para Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes dos estudantes franceses, os acontecimentos de maio de 68 foram resumidos numa certeza: "Queremos um mundo novo e original. Recusamos um mundo onde a certeza de não morrer de fome seja trocada pelo risco de morrer de tédio."
O início do movimento estudantil ocorreu na Faculdade de Letras de Nanterre, na noite de 22 de março, onde 300 estudantes de maioria trotsquista se reúnem num anfiteatro para protestar contra a prisão de membros do "Comitê Vietnan Nacional". Momentos depois, um grupo de militantes ocupa o pavilhão administrativo aos gritos: "NÃO À UNIVERSIDADE BURGUESA". Nos dias seguintes surgem outros slogans nas universidades de Paris: "PROFESSORES, OS SENHORES ESTÃO VELHOS E SUA CULTURA TAMBÉM" ou "TRANSFORMEM SEUS DESEJOS EM REALIDADES". Os estudantes tomam um anfiteatro na Sorbonne para ouvir colegas alemães e italianos falarem de suas realidades.
A França, desde o ano anterior, vivia uma "crise social", marcada pelo grande desemprego e inúmeras greves. O presidente da CGC, André Malterra, adverte: "Acontece sempre um momento em que os carneiros tornam-se furiosos e que as massas e as categorias se juntam diante de uma realidade. Essa hora está mais próxima do que se pode pensar". A esquerda aumenta sua força no campo político. Além disso, o país vive a crise da juventude". Entre 1967 e 1968 houve aumento considerável de universitários e as universidades não estavam preparadas para isso, sendo que filhos de agricultores e de operários não conseguiam vagas, criando o que poeticamente se dizia em Paris: "a angústia do futuro". Por outro lado era evidente o aumento da politização da juventude.
Um manifesto redigido em 1967 por estudantes situacionistas da Universidade de Strasbourg, com o título "Da miséria no meio estudantil, considerando seus aspectos econômicos, políticos, psicológicos, sexuais e notadamente intelectuais, e alguns meios para remediá-la". Esse manifesto, distribuído em panfletos, teve enorme audiência nas faculdades. Ele dizia: "a realização da natureza do Homem não pode ter sentido a não ser pela realização sem limites e pela multiplicação infinita dos desejos reais que o espetáculo provoca nas zonas distantes do inconsciente revolucionário, e que só é possível de se realizar fantasticamente no desejo onírico da publicidade". E completa: "as revoluções proletárias serão festas ou não serão nada, porque a vida que elas anunciam será a mesma criada sob o signo da festa. O jogo será a racionalização última dessa festa, viver sem tempo morto e gozar sem entraves serão suas principais regras".
Durante o mês de abril (68) surgem manifestações operárias ampliando o efeito estudantil. Em Nanterre, emerge a liderança de Daniel Cohn-Bendit, denunciado pela polícia como um alemão, portanto um estrangeiro. Isso não o afasta da participação política, continuando com o apoio dos estudantes. O governo julgava o movimento restrito a Nanterre e ao Boulevard Saint Michel (Quartier Latin). Mas o reitor da Academia de Paris, J. Roche, temendo um confronto entre estudantes esquerdistas e a extrema direita, pede a polícia para invadir Sorbonne e expulsar os estudantes. Pela primeira vez a polícia penetrou no interior da Universidade, praticando uma violação das tradições do passado. A crise tem assim sua primeira manifestação decisiva. As centrais estudantis decidem partir para uma greve ilimitada. O Quartier Latin entra em ebulição e os estudantes enfrentam a polícia nas ruas, criando barricadas. Os cursos das Universidades são suspensos e alguns estudantes são presos e condenados a dois meses de detenção.
As manifestações estudantis aumentam (a primeira 2.000 estudantes, a segunda 20.000 nas praças do Quartier Latin). Resultado: 600 feridos, 442 prisões, com 31 mantidos presos. Surgem as manifestações de estudantes do interior da França (cidades universitárias) de apoio aos estudantes de Paris. A Central Estudantil (UNEF) assume a direção do movimento e o Partido Comunista se nega a participar, apenas reclamando da ação policial. Na cabeça dos cortejos nas manifestações, sempre juntos, os seus três grandes líderes: Alain Greisnar, Jacques Sauvegeont e Daniel Cohn-Bendit.
As tentativas para os estudantes entrarem em acordo não funcionam. Os operários aderem em número crescente e em 13 de maio ocorre uma gigantesca manifestação da República (praça) até o Quartier Latin, com cerca de 200.000 pessoas (opinião da polícia) ou de um milhão de pessoas (opinião dos estudantes). Finalmente, os estudantes invadem e ocupam a Sorbonne. Lá, inicialmente, e depois no Teatro Odeon, também ocupado no dia 15, se instalam os centros para discussão sobre política ou qualquer outro assunto. Os muros do Quartier Latin estão cobertos de slogans: "A PALAVRA AOS MUROS!", "É PROIBIDO PROIBIR". A audácia da democracia direta empolga alguns professores que aderem ao movimento. Jacques Sauvegeont, líder da UNEF, evoca os quatros objetivos essenciais do movimento:
1. Instalação imediata de um poder estudantil real nas faculdades, com direito a voto absoluto sobre todas as decisões;
2. Autonomia das universidades e faculdades;
3. Extensão da luta contra o conjunto dos setores que divulgam a ideologia dominante, quer dizer, a informação;
4. Realização da junção real com as lutas dos trabalhadores e camponeses, colocando a contestação do poder que se faz nas fábricas e nas estruturas profissionais.
Os operários continuam ocupando fábricas e fazendo greves. As centrais sindicais são obrigadas a apoiá-los, queiram ou não. O Partido Comunista nega-se a apoiar "toda palavra de ordem aventureira" e George Marchais, secretário do PCF agride Cohn-Bendit no seu discurso chamando-o de "anarquista alemão".
A 20 de maio, com 10 milhões de trabalhadores em greve, a França está praticamente paralisada. O governo entra em crise depois de 10 anos no poder. NO dia 24 ocorrem novas barricadas no Quartier Latin. A CGT começa a tirar o apoio aos estudantes e a polícia nega visto de permanência na França a Cohn-Bendit.
A 30 de maio o movimento começa a perder força. O General De Gaulle, quase decidido a se afastar do poder, volta a ele de modo a permanecer e a enfrentar a situação política. Por fim, o movimento estudantil vai perdendo a força e a ordem no país se restabelece, voltando a França, após uma gigantesca manifestação na Avenida Champs-Elisées (da praça da Concórdia ao Arco do Triunfo) de apoio a Charles De Gaulle, à sua normalidade conservadora.
Roberto Freire
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