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  A Primavera do Desejo

Foram alguns anos antes do começo das pesquisas da Soma. Mas com certeza, maio de 68 influenciou muito no desenvolvimento da sua terapia anarquista. Roberto Freire assistiu tudo de perto e descobriu o tesão que movia os estudantes franceses.

     Choveu muito naquela primavera em Paris. Mas para aqueles estudantes que escaparam das universidades e ganharam a França isso pouco importou. Para eles, o sol esteve presente todos os dias. Roberto Freire também se lembra daquela sensação de primavera ensolarada.: "Era uma alegria genética, de quando a natureza descobre o seu curso natural. Eu já tinha conhecido esta alegria quando me permiti ser eu mesmo. Aqueles dias produziram uma grande euforia, mexendo com as endorfinas, era quase uma embriaguez, um estado de paixão."

NÃO MUDE DE EMPREGO, MUDE O EMPREGO DE SUA VIDA

     De férias da revista Realidade, onde trabalhava na época como repórter, Roberto continuou jornalista mesmo a passeio. Depois de ter morado em Paris durante alguns anos, sempre voltava lá quando podia. "Eu falava bem o francês e me comunicava com facilidade. Durante os acontecimentos, era tudo muito confuso e emocionante. Aquilo me marcou profundamente. Estar em outro país, em plena convulsão e não conseguir pegar o fio da meada. Mas quando eu me percebi estava numa passeata, num encontro, num debate. Me lembro de cenas de correria no Boulevard Saint Michel, meu hotel era perto dali. Foi um turismo histórico, inesquecível e irrepetível."

A PALAVRA É UM COQUETEL MOLOTOV

     "As frases pichadas nos muros eram muito inteligentes e sensibilizadoras. Um dos tons de maio de 68 foi sua grande força poética. E o poder da poesia como sensibilizador das massas. A frase que mais gostei foi "Esta noite, a imaginação tomou o poder". Estas frases produziam um encantamento e se multiplicavam. Este tom poético também estava nas conversas e quando as pessoas viam o movimento crescendo nas ruas, elas se contaminavam. Era, muito mais forte que a falada e a escrita, a poesia do comportamento.

ESTAMOS TRANQÜILOS, 2 MAIS 2 NÃO SÃO MAIS 4

     "Quando eu comecei a ler sobre o Maio de 68 vi de tudo. Ninguém sabia, todo mundo chutava. Lia interpretações psicanalíticas, sociológicas, esotéricas, o que você imaginar... Todas são válidas até um certo ponto e nenhuma é completa. Tem um historiador alemão que diz que a história é a única ciência que não adianta começar pelo começo. Ou seja, a relação causa e efeito na História as vezes é completamente impossível, não é determinista."

     "Os anarquistas franceses com quem conversei, como Maurice Joyeux, dizem mais ou menos a mesma coisa: foi um movimento libertário, porque sem que se percebesse, estava se agindo de um jeito anarquista. Dava a impressão de que todos abandonaram armas e influências políticas tradicionais para agir de uma forma espontânea. Não era um espontaneísmo gratuito. Havia um desejo de contestação do poder instituído, de todos os níveis, do familiar ao Supremo Tribunal. Sem dúvida, uma influência anarquista no comportamento da juventude, comportamento de vida, de atitudes humanas, e não comportamento político. Quando um movimento é produzido por um partido tem uma seriedade , a cara dele, as palavras de ordem criadas pelos dirigentes. E lá não era nada disso.

LEVEMOS A REVOLUÇÃO A SÉRIO, MAS NÃO NOS LEVEMOS A SÉRIO

     "As pessoas que estavam fazendo 68 não tinha a menos idéia do que poderia acontecer. Agiam com uma grande coragem por causa dos riscos que estavam assumindo e das conseqüências imprevisíveis do que estavam fazendo. Do ponto de vista da ação revolucionária era tudo muito desordenado, sem objetivos diretos, com muita confusão, com equívocos também. Mas em poucos dias, eles fizeram tudo o que quiseram."

QUANTO MAIS EU FAÇO AMOR,
MAIS EU TENHO VONTADE DE FAZER A REVOLUÇÃO
QUANTO MAIS EU FAÇO A REVOLUÇÃO,
MAIS EU TENHO VONTADE DE FAZER AMOR

     "Me lembro de reuniões na Sorbonne, no Teatro Odeon. Você via as pessoas abraçadas, discutindo a política e ao mesmo tempo agarradas. De repente, se cansava, paravam e começavam a cantar, depois dançavam. Havia muito humor, frases engraçadas durante os debates. Não tinha aquela seriedade das assembléias de estudantes dirigidas pela esquerda. Era um tom até de aparente brincadeira. O estilo da ação era jovem, na busca de soluções políticas dentro de um clima de jogos, brincadeiras, sensualidade."

A PAIXÃO DA DESTRUIÇÃO É UMA ALEGRIA CRIADORA (BAKUNIN)

     "Eu não percebi uma estratégia geral dos estudantes, mas sim táticas e ações específicas. Mas tudo que se fazia era uma coisa só no fundo: ação direta, uma arma anarquista fundamental. Tudo aconteceu por ação direta, embora não direcionada. Tinha uma canção na época, de Gilbert Becoud, "L’importante c’est la rose", que os estudantes cantavam "L’important c’est le pavé", o importante são as pedras do chão, os paralelepípedos que voavam das ruas contra a repressão policial."

SEJAMOS REALISTAS, QUE SE PEÇA O IMPOSSÍVEL

     "E pensar que tudo começou com a pedrada de algum estudante contra a polícia... Este gesto individual que serviu de estopim para que toda a juventude da frança se movimentasse foi igual ao do homem que pensou um dia "vou fazer uma roda para rolar as coisas". São representações mentais de criatividade que as pessoas fazem sem imaginar que estão modificando a história da humanidade. Os gestos espontâneos de um inconsciente que acende o inconsciente de todos."

EU DECRETO O ESTADO DE FELICIDADE PERMANENTE

     Outra característica nitidamente anarquista, pelo menos do anarquismo que procuramos viver na Soma, é a presença da alegria. Não tendo comando, não tendo hierarquia, as nasciam espontâneas e sempre num clima de companheirismo e de molecagem."

REVOLUÇÃO, EU TE AMO

     "A experiência que eu vivi lá, me fez acreditar muito mais na possibilidade de uma revolução. Eu percebi e comprovei que sem prazer não há ação revolucionária. O tesão que a Soma busca é o prazer daqueles jovens."

Jorge Goia