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A Mutação da Vida
Maio de 68 foi uma evolução do inconsciente humano, de um processo de mutação que o homem vem passando e que acabou influenciando sua ação social. Isto mostra que há uma mutação acima do controle político e social. E também explica a perplexidade diante do movimento dos estudantes.
As transformações históricas e culturais na vida social se operam por evoluções revoluções e mutações. As ocorridas em Maio de 68 na França e no mundo foram por mutação no comportamento político, cultural e mental na massa humana. Pode-se dizer, uma mutação cultural e social da espécie. Atribui-se importância nesse fenômeno às duas grandes guerras no começo do século (18 e 45). O pós-guerra de 45 evidenciava profundo sofrimento e miséria, exigindo mudanças de comportamento social.
Na década de 50 na França, houve um crescimento vertiginosos do número de jovens. De 1958 a 1968, enquanto a população cresceu cerca de 10%, o número de estudantes elevou-se cerca de 250%, Os jovens nascidos logo após o fim da última grande guerra tinham de 18 a 23 anos em 1968. O aumento de estudantes também foi muito explosivo nos Estados Unidos.
Nesse mesmo período, o mercado passava pelo que se costuma chamar de "revolução científica e tecnológica". É um fato que os sábios e pesquisadores fizeram mais descobertas entre 1945 até o fim da década de 60 que a humanidade fez desde o início de sua criatividade sobre a Terra até 1945. Grandes exemplos: Max Planck e a teoria dos quanta e Albert Einstein e a teoria da relatividade, transplante de coração e viagem à lua.
De uma maneira geral, pode-se dizer que foi a própria lógica do regime capitalista ocidental em seu conjunto que acabou levando ao paroxismo na década de 60. Sua idéia de que o sucesso estava fundado na produção levou a tornar os meios como fins: produzir e ainda produzir, o que implica o dever de consumir tão intensamente, não importa de que maneira estimulante (sistema de crédito, publicidade, etc.).
Toda a vida social se transformou, bem como a maneira de pensar. Essas coisas acabaram por alterar as estruturas mentais. A verdadeira revolução neste campo foi a da "mass media", mais precisamente no que diz respeito ao audio-visual. Marshall McLuhan: "A mídia que uma sociedade utiliza no processo de comunicação determina a personalidade da base, da mesma forma que o comportamento do homem desta sociedade." Assim, para ele, as transformações das modalidades de comunicação produzem uma revolução no domínio da percepção e, portanto, das próprias estruturas mentais. Essa revolução foi através de mensagens simplificadas pelo rádio e televisão, mas em escala planetária.
Foram mutações que afetaram as estruturas mais fundas do pensamento. As artes sempre são precursoras nestes fenômenos em relação às formas clássicas, como ocorreu com a música dodecafônica e a arte abstrata. Com o surgimento da música social, da pop arte ou do happening, colocou-se em questão o conceito de "normalidade" (também desenvolvido sistematicamente e num outro domínio pela Antipsiquiatria).
Esta mutação de grande amplitude se concentrou em um questionamento global de todos os valores culturais e espirituais do ocidente. Isso não foi observado em nenhum outro momento. Toda a História da civilização prova que uma sociedade não pode sobreviver sem seu próprio ideal ou projeto ideológico.
Os Estados Unidos faziam seu capitalismo influenciar todo o mundo ocidental através do "american way of life". As velhas gerações responderam de duas maneiras a isto. Rejeição total a esta sociedade tecnológica e desumanizada, ou a aceitação do sistema, o que foi mais freqüente. As novas gerações, que haviam passado pelo horror da guerra, não pareciam poder aceitar os mitos do crescimento e do consumo, herdeiros do capitalismo liberal bem como dos restos dos grandes ideais de justiça, de liberdade e de caridade emanados de um cristianismo quase bi-milenar e decadente. E a juventude os rejeitos visceralmente. Ela procurava valores e ideais novos. Para ela, as velhas gerações não os descobriram, além de delinearem dois atrozes holocaustos em menos de vinte e cinco anos, revelando assim vocação genocida.
A juventude será sempre considerada a idade privilegiada para os questionamentos. A juventude da década de 60 não podia aceitar um sistema sentado em múltiplas alienações, de repressões e de injustiças. Os Estados Unidos, depois da década de 50, exportava exemplo de comportamento universitário político de caráter lúdico e hedonista. Mas, ao mesmo tempo, os universitários americanos afirmavam o seu desejo de sair do circuito consumista e reacionário através de comportamentos agressivos e até violentos (hard) nas suas contestações. Como aquele que produziu a revolta do "free speach movement" de Berkeley na Califórnia (fim de 64) e mesmo aos graves incidentes na universidade de Kent. Outras vezes estas manifestações estudantis adquiriram um caráter pacifista, como as comunidade hippies, surgidas na Califórnia em 1963/64, propondo o "flower-power".
O pensamento de Herbert Marcuse, crítico e corrosivo em relação a civilização industrial, mas sobretudo esperando o surgimento e uma sociedade fundada sobre a libertação das instituições repressivas foi muito difundido entre os estudantes. Houve também o ressurgimento do movimento beatnik (on the road - anos 50) e a voga da folcksong: Joan Baez e Bob Dylan. Não se pode esquecer a influência neste período do orientalismo e da droga. O hinduísmo, as viagens a Katmandu, a maconha e, principalmente o LSD (Thimothy Leary e seu livro "A Política do Êxtase"). E nunca se sublinhará o suficiente o papel catalisador da guerra do Vietnã nas sublevações dos campos americanos.
Na França, o movimento da juventude tem formas originais. De uma maneira geral, é bem mais politizado do que em qualquer outro lugar. Por que essa politização particular na França? Nesse período havia uma forte distorção entre uma máquina econômica que não parava de se modernizar e estruturas mentais reacionárias e retardatárias a esse desenvolvimento. Essa distorção foi um dos principais bloqueios da sociedade francesa nessa época. Mas o presidente Charles De Gaulle criou bloqueios políticos e institucionais em seu governo duro e fechado às idéias novas.
A França parecia uma panela de pressão política. A juventude francesa sentia de modo insuportável e sem saída esses bloqueios. Ao mesmo tempo, as novas idéias eram publicamente abertas e disponíveis. Ao contrário dos Estados Unidos, onde havia fissuras nos bloqueios políticos, a juventude podia se manifestar de alguma forma, os franceses se sentiam bloqueados completamente e com as idéias em efervescência cada vez maior. Recebiam também forte influência das lutas do terceiro mundo, sobretudo de Cuba, de Che Guevara (1965-1966), fazendo surgir em Paris o movimento maoísta.
A esquerda francesa entrava em choque com o Partido Comunista que seguia a linha de Moscou, ou seja, de pouca ação revolucionária. Esta esquerda era formada pelos trotsquistas, os maoístas e os anarquistas. Desses últimos, o grupo situacionista, criado em 1957 por artistas "experimentais" e por militantes influenciados pela tradição dadaísta e rimbaudiana. Eles pretendiam não somente salvar o mundo, mas sobretudo "mudar a vida", segundo a expressão de Arthur Rimbaud. Faziam uma crítica sistemática da vida cotidiana.
Segundo seus teóricos como E. Debord ("A Sociedade do Espetáculo") ou R. Vaneigue ("Tratado do Saber Viver Para Uso das Próximas Gerações"), uma palavra chave define nossa sociedade atual: alienação. O homem não faz outra coisa que apenas sobreviver, sua vida real está resumida a apenas um espetáculo. O viver está resumido numa representação, não apenas na troca de mercadorias mas em todas as relações humanas.
Cada vez mais a sociedade moderna nos afasta da emancipação. Marcusse tem teorias análogas em "O Homem Unidimensional". A teoria situacionista trabalha principalmente ao vivido e ao que é dado em termos do possível e do realizável. Ligando constantemente a vida cotidiana e a teoria revolucionária clássica, eles dão muita importância a "subjetividade" e a liberação dos desejos, seguindo nisso algumas idéias de Wilhelm Reich. Os situacionistas tiveram papel determinante na eclosão das "idéias de maio".
Maio de 68 acabou porque a mutação cultural e social ainda está em processo. O número de pessoas modificadas foi insuficiente para levar adiante o movimento. Hoje, a capitalismo está hegemônico e começa a gerar problemas, com crises econômicas nos países mais desenvolvidos. E uma próxima ação direta virá quando o número de desempregados chegar a um ponto insuportável. Aí, terá que ocorrer uma mudança estrutural. E quem vai estar na frente? Com certeza, serão os mutantes do futuro a novamente abrir caminho para a humanidade.
Roberto Freire
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