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  A Capoeira Angola e o Anarquismo

     Quem conhece a SOMA, com seu conteúdo terapêutico anarquista, ou acompanha o Tesão, sabe da ligação da capoeira angola ao nosso trabalho. Já são quase 10 anos em busca dos benefícios bioenergéticos, psico-motores, sociais e políticos proporcionados através dos movimentos e do jogo da capoeira. Uma pesquisa original que coloca a SOMA numa clara posição de evolução e desenvolvimento permanente.

     Passado todo esse tempo, hoje temos a convicção que trabalhamos com algo mais que um eficiente exercício corporal. Mas como um poderoso transformador social. A pesquisa por uma Pedagogia Libertária nos levou a criar no universo da capoeira angola uma ambiente de discussão permanente da metodologia, participação coletiva, quebra das lideranças centralizadas e por aí vai...

     Utilizamos a autogestão - modo de produção tipicamente anarquista - no desenvolvimento deste processo. O respeito pela diversidade (defendido pelo mestre Pastinha na frase "cada um é cada um") é o ponto de partida para qualquer relação humana que se proponha solidária e libertária. Toda a pedagogia é autoritária. Parte do pressuposto de que alguém sabe mais do que o outro, tem um poder, mesmo que esse seja apenas o do conhecimento. A Pedagogia Libertária tem sua base na autogestão. É a tentativa de diminuição da hierarquia, sem a perda do sentido pedagógico presente no aprendizado.

     A capoeira angola como cultura popular, suas tradições e princípios, está pronta. Mas seu processo pedagógico atual precisa ser reinventado ou resgatado em sua forma original, que está ultrapassado e é autoritário. Todas as nossas pesquisas históricas apontam o aprendizado da capoeira como algo espontâneo. O interesse pelo conhecimento, levava o "discípulo" a buscar no "mestre" os referenciais da arte do jogo, sem o estabelecimento de uma institucionalização dessa relação. A perda dessa espontaneidade, gerada principalmente pela hierarquização nos grupos de capoeira, levou muitas vezes a um rígido esquema mestre/discípulo.

     Estamos desenvolvendo pesquisas junto a clientes e ex-clientes da SOMA para resgatar essa maneira de ver a relação humana dentro do aprendizado. Núcleos de pesquisa já surgem em vários estados, com o processos pedagógicos sendo liderado por terapeutas e ex-clientes que se aperfeiçoaram na capoeira. Nesses núcleos, utilizamos a dinâmica de grupo para tornar a liderança dos professores menos hierárquica. Discutimos em reuniões assuntos de interesse geral: organização do espaço, metodologia de aula, eventos, manutenção dos instrumentos, despesas e o papel de cada um dentro do coletivo. Desta forma, procuramos uma socialização dos direitos e das responsabilidades. Uma característica dos coletivos anarquistas que não encontramos na maioria dos grupos de capoeira angola.

     Não queremos mudar a essência dos rituais da capoeira angola, mas discutir e transformar os mecanismos de poder que surgem em qualquer ambiente social e pedagógico. Através de oficinas e trocas com outros grupos e capoeiristas, buscamos o permanente aperfeiçoamento do jogo da capoeira angola.

     O resgate da autonomia a da subjetividade é o que propomos no dia-a-dia da vida anarquista. Uma maneira de ver e fazer a vida em busca da liberdade pessoal e social. Ë desse jeito que procuramos fazer também a "nossa capoeira angola", a capoeira de cada um e de todos nós.

João da Mata