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  O Palhaço Voluntário

"Não me surpreendo que um homem queira ser rei de milhões de súditos. Mas não entendo o absurdo de milhões aceitarem ser súditos de um único tirano"
Discurso da Servidão Voluntária
Etienne de la Boétie
(século XVI)

     O "Discurso da Servidão Voluntária" permanece como a mais importante questão filosófica para entender uma eleição em tempos de globalização e neo-liberalismo, quando a esperança de mudança está ausente do processo eleitoral. A indignação diante dos candidatos de sempre é maior por causa da crise econômica e do desgaste ético dos políticos, mas se criou entre as pessoas uma espécie de conformismo suicida: já que somos obrigados a votar e a corrupção é inerente ao Poder, vota-se no que deve roubar menos, no menos pior. La Boétie continuaria surpreso diante da submissão dos brasileiros ao voto obrigatório.
     Já se tentou explicar a submissão com análises antropológicas e históricas. Todas são quase uma declaração mais argumentada da idéia de "pecado original", de que há algo na natureza humana que leva o Homem a dominar e explorar. Estas teses, ao contrário de La Boétie, tentam entender as relações de poder a partir de um desejo de dominação presente na espécie que leva ao autoritarismo. Assim, numa visão pessimista, acaba-se criando um sentimento de impotência diante de uma supostamente inevitável hierarquia social.
     Wilhelm Reich, quatrocentos anos depois de La Boétie, explicou a inversão que tratava o autoritarismo como conseqüência da submissão. Sua obra procurou pesquisar como a estrutura familiar tradicional, através das repressões sexual e moral, acabava ensinando as pessoas a não lutar pela satisfação de suas necessidades biológicas, delegando e mandando outros assumirem o poder que deveria ser de cada um. Reich chamou os que se entregam a servidão voluntária de "Zé Ninguém", indivíduos sem autonomia, impotentes para o amor, a criatividade e a produção. O "Zé Ninguém" se submete a família, a sociedade e ao Estado porque está bloqueado no seu desejo de liberdade e neurotizado pelo medo do risco.
     O Estado precisa de indivíduos passivos para se manter organizado. Reich compreendeu o espanto de La Boétie, ampliando o conceito de autoritarismo: as relações pessoais reproduzem e mantém as relações sociais. O voto nulo, então, não é um ato isolado de contestação e rebeldia. Para a SOMA, ele representa o desejo de não ser mais um palhaço voluntário, seja numa eleição ou em qualquer outra área de nossas vidas.

Jorge Goia