Hoje
Hoje acordei
sem despertar,
como se este dia fosse
apenas mais um
dia sem ser dia,
dia adiado,
uma data não datada,
um simples esquecimento
esquecido...
No entanto,
hoje é hoje
com um ontem atrás
e um amanhã pela frente,
mas será hoje realmente hoje?
Hoje, porém,
consegui mais uma vez iludir esta ilusão
de estar vivo.
Enganei mais uma vez a morte.
Sobrevivi,
apesar desta dor
de ser humano
dentro da desumanidade...
Hoje enfiei mais uma vez as vestes
dum outro ser
que fui eu.
Arregacei mais uma vez as mangas
desta fraqueza bruta
em que reforçamos a alma
com sonhos de poetas
e gracejamos o corpo
com pétalas de felicidade.
Hoje abri meu peito e cantei
aquela música antiga
em que me embalavam o berço
de outros dias
que não foram...
Hoje,
vagabundo do meu ser,
desci as escadas do mundo,
caí no poço do meu sentimento,
consegui esquecer a guerra,
esquecer
que este dia
foi apenas mais um dia que passou
sem passar...
Hoje morri de novo
e sem saber
renasci...
© Manuel Neves
(reservados os direitos de autor)