Sonhava...


Eu sonhava como se estivesse fora das coisas...

Como a luz ténue na rua
onde as carnes se tingem de loucuras
e se violam pombas brancas...

Eu sonhava como se estivesse fora das coisas...

Como a dor das entranhas
atropeladas por multidões a jacto
com desculpas entupidas...

Eu sonhava como se estivesse fora das coisas...

Como as flores a brotarem
no meio de auto-estradas
e o cheiro das palavras manchadas de sangue.

Eu sonhava como se estivesse fora das coisas...

Como o choro das crianças
dentro de canos de espingardas
e um grito de paz perdido no horizonte.

Eu sonhava como se estivesse fora das coisas...

Com um tempo estreito.
Com um mundo imperfeito.
Com um poema desfeito.

Eu sonhava coisas...
 

© Manuel Neves
(reservados os direitos de autor)

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