Selecionando

Estratégias de

Ensino-Aprendizagem

para a Administração

 

 

São Paulo

1998

  1. Introdução
  2. Selecionando Estratégias de Ensino-Aprendizagem para a Administração é um modesto aporte teórico dirigido a professores do curso de Administração. Ele inicia a instrumentalização de um trabalho de ampliação do repertório de técnicas utilizadas por professores de Administração (também aplicáveis a outras áreas, desde que se adapte o perfil desejado do egresso) - na sala de aula e fora dela.

    A seleção de estratégias visando a produção de experiências de aprendizagem é importante por diversos motivos.

    Em primeiro lugar, porque os Objetivos Educacionais fixados para o curso, exigem um repertório variado de experiências para que o aluno desenvolva os comportamentos desejados – principalmente tendo em vista o perfil e as habilidades desejadas para o Administrador, que contam com uma forte dose de requisitos atitudinais (como responsabilidade e habilidade de trabalhar em equipe, por exemplo), que não se desenvolvem apenas através da promoção de atividades de leitura e da aula expositiva (embora estas duas estratégias mais do que nunca devam estar presentes). Portanto, cada tipo de objetivo deverá contar com um ou mais tipos de estratégia que lhe serão mais adequadas.

    Em segundo lugar porque o professor, em geral, acaba por fixar-se em uma determinada técnica que lhe parece mais confortável, e que, repetida invariavelmente ao longo de seis meses ou um ano acaba por tornar os encontros com os alunos enfadonhos e repetitivos, por mais que o discurso ou a atividade possam ser convidativas ou interessantes. Não obstante o conforto e a segurança do professor na técnica devam ser levadas em consideração na escolha das atividades, a variedade e a dinâmica são fatores de estímulo à atividade de ensino-aprendizagem, aumentando a efetividade da instrução. Assim, o professor deve ser incentivado a experimentar e a inovar – devendo ser-lhe, portanto, permitido errar.

    Em terceiro lugar porque os alunos não aprendem todos da mesma maneira. O mesmo objetivo e conteúdo podem ser trabalhados em diversas etapas, aumentando o grau de assimilação e fixação do aprendizado, e permitindo que a variedade de estilos de aprendizagem presente na sala de aula seja contemplada com um leque de experiências.

    Em suma, colocando-se o foco sobre o perfil e as habilidades a serem desenvolvidas no aluno, e não num conteúdo congelado e perseguido a qualquer custo, o professor deverá notar que pode, em benefício do aprendizado, reduzir a abrangência deste conteúdo, e trabalhar mais profundamente cada tópico, variando as experiências de aprendizagem pelas quais o aluno deverá passar.

    Os princípios básicos resumidamente apresentados a seguir são extraídos do clássico trabalho de Tyler, Princípios Básicos de Currículo e Ensino, e segue-se ao tópico de elaboração de objetivos educacionais para a Administração.

  3. Experiências de Aprendizagem
  4. A primeira coisa a saber ao pensar-se estratégias de ensino-aprendizagem é conhecer o conceito de experiência de aprendizagem, e o "princípio dos princípios" das experiências de aprendizagem.

    De acordo com Ralph Tyler,

    "Experiência de aprendizagem é a interação do aluno com condições exteriores às quais ele pode reagir."

    De acordo com esta concepção, só existe uma maneira do aprendizado ocorrer: o aluno vivencia uma situação que requeira ação, ou uma situação-problema, e a partir de sua interação ativa com esta situação, ocorre o aprendizado. E este é o "princípio dos princípios" de aprendizagem:

    "O aluno só aprende a partir de suas próprias experiências de aprendizagem."

    O aluno aprende com o que faz, e não com o que faz o professor. Ainda que a experiência do professor, contada na aula, ilustre o conhecimento e possa aumentar o grau de compreensão do aluno em determinado assunto, aprender realmente em termos de mudança efetiva de comportamento, ou desenvolvimento de um comportamento ou habilidade novos, depende de o aluno viver a experiência que o coloque em contato com a realidade desconhecida (ou simulação de realidade, quando for o caso), reagir a esta realidade, e ajustar esta nova reação ao saber teórico que perfaz o conteúdo mesmo da matéria.

  5. Princípio Básico No. 1
  6. O primeiro princípio é derivado do princípio fundamental, e liga desde já a estratégia aos objetivos:

    A fim de atingir determinados objetivos, o aluno deve ter experiências que lhe dêem oportunidade de praticar a ação implicada pelo objetivo.

    Isto significa que o professor deve propiciar ao aluno a oportunidade de experimentar o comportamento que pretende desenvolver. Pode parecer óbvio, mas muitos professores apresentam ao aluno experiências inéditas no dia da prova: por exemplo, para o objetivo de "avaliar diferentes projetos com base na taxa de retorno de seus fluxos de caixa descontados", o professor dá exemplos numéricos em sala de aula, ou em exercícios para o aluno resolver em casa, e na prova oferece um caso real, no contexto de uma situação-problema. Ora, este caso mais amplo, que consiste realmente no objetivo a ser perseguido, não foi trabalhado por uma estratégia que permitisse ao aluno exercer o comportamento – portanto, não se deve inferir que o comportamento já tenha sido desenvolvido por ocasião da prova. O comportamento pode até desenvolver-se durante a prova – mas já é tarde demais para o professor perceber e avaliar.

    Assim, se o objetivo envolve "desenvolver a habilidade de resolver problemas em equipe", a estratégia deverá certamente envolver trabalhos em equipe, sem o que o comportamento não se poderá desenvolver; se envolve "desenvolver raciocínio lógico", o professor deverá observar o processo de resolução de problemas, e não apenas os resultados; e assim por diante.

  7. Princípio Básico No. 2
  8. O segundo princípio básico advém da teoria do comportamento, que afirma que o ser humano tende a repetir experiências que causam prazer, e a evitar experiências dolorosas:

    A experiência de aprendizagem deve ser de tal natureza que o estudante obtenha satisfação de seguir a ação implicada no objetivo.

    Por mais interessante que a experiência de aprendizagem pareça ao professor, ou tenha sido efetivamente estimulante para um público determinado, se para a classe em questão a experiência é por demais dolorosa, não se pode esperar que o aluno, futuramente, repita este comportamento longe da obrigatoriedade de uma disciplina. Portanto, não se deve esperar que o aprendizado ocorra. O professor deve sempre encarar sua atividade diante da perspectiva real futura da carreira do aluno, e não apenas na próxima prova. Lembramos que a prova tem uma capacidade limitada de medição do aprendizado, e na verdade apenas infere a aquisição de uma capacidade que o aluno necessitará futuramente.

  9. Princípio Básico No. 3
  10. A Cibernética considera estímulo uma interferência do ambiente sobre um sistema, dentro de determinados limites de intensidade: para ser um estímulo, a interferência deve ser forte o suficiente para ser percebida pelo sistema, mas não tão forte que destrua o sistema. De maneira análoga, quando produzimos uma experiência com o intuito de provocar uma reação no estudante, esta reação deve estar compreendida no âmbito de possibilidades reais daquele estudante.

    As reações que se têm em vista na experiência de aprendizagem dever estar incluídas no âmbito de possibilidades dos alunos aos quais se destinam.

    O professor deverá conhecer o público ao qual se dirige, de maneira a propor atividade inteligíveis, factíveis, e compatíveis com o grau de aprendizagem anterior desses alunos.

  11. Princípio Básico No. 4
  12. O princípio de eqüifinalidade de Tyler garante ao professor que ele poderá variar as estratégias de aprendizagem sem violentar-se ou perder a naturalidade e segurança na sala de aula:

    Existem muitas experiências que podem levar a um mesmo objetivo.

    Dessa maneira há a possibilidade do professor poder ao mesmo tempo adequar a estratégia à consecução dos objetivos educacionais, e escolher estratégias com as quais sinta-se confortável e possa transmitir este conforto e segurança aos alunos.

  13. Princípio Básico No. 5
  14. Uma experiência de aprendizagem é um acontecimento vivencial que provoca diversas conseqüências que podem ser úteis no desenvolvimento do educando.

    Uma experiência de aprendizagem produzirá, em regra, diversos resultados – de maneira a favorecer mais de um objetivo.

    De maneira que o bom planejamento do curso propiciará eficiência no uso do tempo e dos esforços de professor e alunos, criando experiências ricas no desenvolvimento de diversas habilidades.

  15. Próximos passos

O próximo passo a ser trabalhado é o conhecimento, pelo professor, do conteúdo específico das estratégias e técnicas de ensino-aprendizagem. O ideal é poder-se trabalhar, em workshops, com um especialista em cada técnica. Entretanto, desde já podemos sugerir uma bibliografia básica para um contato inicial:

Alencastro Veiga, Ilma Passos (org.): Técnicas de ensino: por que não?, Campinas, Papirus, 1996.

Godoy, Arilda Schmidt: Didática para o ensino superior, São Paulo, Iglu Editora, 1988.

Nérici, Imídeo G.: Metodologia do ensino, São Paulo, Atlas, 1989 (3ª Ed.).