O Instrutor - Clemente de Alexandria

Clemente traz uma ampla visão do que seja o Logos, ou a Mente de Deus no mundo.  Esse documento valiosíssimo é profundo e de inspiração sem par quando associa o ensino à prática.  Muito útil para aquele que ensina.

 

Livro 1 - Capítulo I - O Ofício do Instrutor

Existem essas três coisas no que diz respeito ao homem, os hábitos, as ações, e as paixões; os hábitos compõem o ministério apropriado para o discurso exortativo, que leva à piedade, a qual, como a base de sustentação de um navio, é posta sob o edifício da fé; na qual, alegrando-nos excessivamente, e renunciando nossas antigas opiniões, através da salvação, nós renovamos nossa juventude, cantando hinos proféticos, "Quão bom é Deus para Israel, a todos que são retos de coração!".  Todas as ações, da mesma maneira, compõem a perspectiva do discurso; o discurso persuasivo, porém, serve para sarar as paixões.  É esta a mesmíssima palavra, a que resgata o homem dos costumes deste mundo no qual foi criado, e o habilita para a salvação pela fé em Deus.

Quando, pois, o guia celestial, o Verbo, chamava os homens à salvação, o apelo da exortação foi bem aplicado a Ele: sua própria palavra era o maior motivo (o todo de uma parte).  Pois toda a piedade é exortativa, produzindo na conhecida faculdade da razão um intenso desejo pela verdadeira vida de agora e a porvir.  Contudo, agora, sendo ao mesmo tempo sarador e instrutivo, ao seguir os Seus passos, Ele faz o que havia sido determinado como objeto de persuasão, prometendo a cura das paixões em nosso interior.  Designemos, pois, este Verbo apropriadamente pelo único nome de Tutor (ou Pedagogo, ou Instrutor).

O Instrutor sendo prático, não teórico, tem como objetivo aperfeiçoar a alma, não ensinar, mas sim, exercitá-la a uma vida virtuosa, não a uma vida intelectual.  Embora esta mesma palavra possa ser didática, neste momento, ela não o é.  A palavra que, em termos de doutrina, explica e revela, é aquela cuja vocação é o ensino.  Mas, nossos educadores sendo práticos, primeiro exortam a fim de alcançar boa disposição de ânimo e o bom caráter, em seguida nos persuade a uma prática vívida dos nossos deveres, encarregando-nos dos mandamentos puros, e apresentando-nos por exemplo àqueles que andam atrás de espetáculos daqueles que anteriormente vagavam no erro.  Ambos são de muita utilidade - aquele que assume a forma de conselheiro da obediência, e aquele que é apresentado como exemplo, os quais são de dois tipos, conforme a antiga dualidade - o que tem por fim que escolhamos e imitemos o bem, e o outro que rejeitemos e fujamos do oposto.

Daí, segue-se a cura das nossas paixões, em virtude do abrandamento daqueles exemplos; o Pedagogo fortalece nossas almas, e por Seus mandamentos benignos, como que por medicamentos suaves, levando o enfermo ao perfeito conhecimento da verdade.  Há uma larga diferença entre a saúde e o conhecimento; o conhecimento é produzido pelo saber, a saúde pela cura.

Aquele que está doente, não aprenderá coisa alguma até que esteja bem.  Pois nem aos aprendizes, nem aos doentes fica cada prescrição expressa invariavelmente com semelhanças; mas ao aprendiz de forma a levá-lo ao conhecimento, e ao doente à saúde.  Assim, para aqueles de nós que estão enfermos no corpo, precisa-se de um médico, da mesma maneira, aqueles que estão doentes na alma, precisam de um pedagogo para curar seus males; assim, o professor, para educar e guiar a alma a todo conhecimento necessário, quando se pode admitir a revelação da Palavra, fica ele com desejo ardente para nos aperfeiçoar, guiando-nos passo a passo para a salvação, por meio de disciplina eficaz que se constitui em belo arranjo, e é observado pelo todo-benigno Verbo, que primeiro exorta, depois educa, e finalmente ensina.

Continua...

J. Marques

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