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Obras de grandes dimensões
Fresco no Palácio de Justiça de Seia (1966)
Torneio dos Doze de Inglaterra

(Estudo)
(Antes da partida para Inglaterra, os doze cavaleiros portugueses reuniram-se em Seia)
Descrição:
(in Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo,
adaptação em prosa de João de Barros Livraria Sá da Costa)
"Iam os nossos portugueses, nesse momento, descansados e bem dispostos.
E tão descansados, tão descuidados dos possíveis perigos, que o nosso conhecido Veloso, marinheiro engraçado e esperto, a pedido dos seus companheiros começou a contar, para os distraír, a famosa história de Magriço ou dos «Doze de Inglaterra». Encostado à amurada do navio, à luz das estrelas, e enquanto a frota cortava as ondas serenas, Veloso falava, alegremente. E dizia:
«No tempo de D. João I, quando o reino de Portugal já estava sossegado e liberto dos espanhóis, deu-se na Inglaterra uma grande questão entre doze damas e doze cavaleiros.
«Tanto se envenenou essa questão, que por fim os cavaleiros declararam que as damas nem o nome de damas mereciam.
«Grande injúria, já se sabe, injúria que elas não podiam perdoar. Mas não ficou aí o feio caso! Mais afirmaram os fidalgos ingleses que se alguém quisesse defender as damas do insulto recebido, ali estavam todos para matar com lança e espada os audaciosos que a tal se atrevessem.
«E a verdade é que, entre os seus compatriotas, nenhum se atreveu a aceitar o desafio, receosos da valentia, da importância e do nome que tinham os cavaleiros insultadores...
«As pobres damas, coitadas! choravam e maldiziam a sua triste sorte!
«Não sabendo como se poderiam vingar da ofensa recebida, foram pedir conselho e ajuda ao Duque de Lencastre, guerreiro inglês que tinha combatido com os portugueses contra Castela, e cuja filha, D. Filipa, casara com D. João I.
«O Duque de Lencastre, logo lhes aconselhou que chamassem cavaleiros da nossa terra para as desagravar, tanta ousadia, boa educação e coragem tinha conhecido e apreciado nos portugueses.
«E indicou-lhes imediatamente o nome de doze bravos, seus amigos de Portugal, capazes de combaterem e morrerem por elas.
«Mandam as senhoras inglesas um emissário a Lisboa, trazendo cartas de cada uma das damas par a cada um dos nossos valentes portugueses.
«Chegam as cartas, com a notícia espantosa. E tanta indignação causou entre nós a conduta dos doze ingleses, que até o Rei D. João I desejava ir castigá-los...
«Mas o Rei é o Rei: - tem de governar o seu povo, e não sai da sua terra quando lhe apetece...
«Arma-se um navio no Porto e embarcam nele os fidalgos lusitanos.
«Mas só onze, embarcaram. O mais valente, chamado Magriço, decidiu ir por terra, prometendo, no entanto aparecer no momento próprio. Queria dar o seu passeio, antes de chegar a Inglaterra.
«Um belo dia, os onze portugueses desembarcam em Londres, onde são muito bem recebidos e tratados.
«Aproxima-se a hora do combate. Ninguém tem medo, dos nossos. Só uma coisa os preocupa: - a demora de Magriço, que anda não se sabe por onde.
«Parára na Flandres, e por lá se divertia, sempre lembrado, no entanto, do dia do torneio... Ou não fosse ele um leal e honrado português!
«Mas o dia do torneio alvoreceu, e Magriço ainda não estava em Londres! A dama, a quem ele vinha defender, veste-se de luto, certa já de que não teria paladino.
«Vai a côrte inglesa toda para o campo de combate. O Rei senta-se no seu trono e as outras pessoas à volta dele.
«Os cavalos dos combatentes espumam já.
«O sol rutila nas lanças. A ansiedade de todos é enorme.
«Mas do lado dos ingleses há doze cavaleiros, e do nosso lado - só onze!...
«Onde estaria, perguntam todos, o descuidado Magriço?
«De repente, grande alvoroço se produz e toda a gente olha para a entrada do campo.
«É Magriço que entra, montado no seu cavalo, vestido e pronto para o combate.
«Cumprimenta o Rei, fala às damas, abraça os companheiros, que rejubilam, e toma lugar ao lado deles.
«A sua dama logo ali mesmo se enfeita com luxuosos arminhos, que são adornos de festa.
«Dá sinal a trombeta do combate e os cavaleiros espoream os cavalos, largam as rédeas, abaixam as lanças.
«Faísca a terra sob as patas dos animais, que mordem os freios de ouro. O chão parece tremer todo, sacudido.
«O coração de quem olha os cavaleiros estremece, tão violenta é a luta.
«O aço das armas torna-se vermelho com o sangue do inimigo.
«Uns, caíndo, parecem voar dos cavalos até ao chão...
«Outros, derrubados e arrastados, açoitam com os penachos dos elmos as ancas dos ginetes...
«Morrem alguns. O resto fica ferido. E, depois de porfiada peleja, os portugueses vencem inteiramente os adversários, com aprumo e galhardia raras.
«A soberba inglesa sofreu assim um duro golpe, mas as damas ficaram desafrontadas da injúria sofrida, graças à coragem e audácia dos nossos, que não hesitaram em bater-se pela honra alheia...
«Mais uma vez triunfou o espírito guerreiro e cavalheiresco, e a força invencível da gente da nossa terra. O Duque de Lencastre, para lhes agradecer, albergou no seu palácio os portugueses. E, enquanto eles não regressaram a Portugal, todos os dias lhes ofereceu divertimentos, bailes e jantares, onde nunca faltavam as doze damas. À volta, segundo contam, ainda Magriço e um seu companheiro tiveram alguns desafios, o primeiro na Flandres e o segundo na Alemanha. Não deixavam nunca de pôr à prova a sua valentia e destreza no manejo das armas...»
Queria Veloso continuar a sua narração, quando o mestre do navio lhe pediu, e aos seus ouvintes, para estarem alerta...É que se anunciava já a tempestade que Baco projectara desencadear. ..
De facto, uma nuvem negra corria sobre a frota, e o vento crescia com enorme violência."
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