5. A Apresentação do Eu no espaço da Internet.
Nesta sessão pretendo apresentar questionamentos
e argumentações sobre como a comunicação eletrônica tem colocado um novo
alcance nos quadros de interação pessoal, com o desenvolvimento de novas
convenções e comportamentos na apresentação do Eu (Self). Mesmo sendo aparentemente
mais limitada e menos rica que interações "face-a-face", este novo tipo
de espaço de interação cria novos problemas e novas oportunidades dentro
da questão da apresentação do Eu na teoria social, a qual se propõe à compreensão
do sujeito nos contextos sociais que o constróem e que por ele são construídos.
Uma das coisas necessárias para as interações entre pessoas é a apresentação
de si como uma pessoa aceitável naquele contexto. As pessoas possuem técnicas
e recursos disponíveis que lhes permitem realizar este processo. Elas normalmente
desejam realizar uma efetiva e bem sucedida apresentação de si para minimizar
os embaraços de uma apresentação falha (que não segue os padrões do espaço),
no entanto, outros participantes da interação são também motivados a ajudar
em sua performance por causa do desejo deles de evitar o embaraço que sentem
diante da falha do outro e das suas próprias. Logo, na maior parte do tempo,
nós interagimos num manto de convenções. Por esta noção, nossos Eus são
apresentados para o propósito da interação com outros e também são desenvolvidos
e mantidos com a cooperação de todos os atores presentes na interação. No
contexto da Internet, a aparente espontaneidade de interações entre atores
que supostamente não se conhecem em profundidade é desmistificada quando
é feito um aprofundamento nos processos de sociabilidade dos diversos grupos
que se formam através do mesmo. Um exemplo dessa mudança de atitude (aparente
espontaneidade para atuação elaborada) pode ser apreciada através da observação-participante
em grupos de discussão, que, ao receber um novo membro, logo introduz na
vida desse novo ator as regras e convenções que regem a manutenção das interações
do grupo. No mais das vezes, não de uma forma direta, mas, através do convívio
inicial, o novo participante vai perceber que temas são permitidos através
da resposta ao estímulo inicial (uma mensagem sobre um assunto não concernente
ao grupo pode ser simplesmente ignorada, fazendo assim notar que o indivíduo
deve usar um outro meio, provavelmente mais particular, para fazer aquele
tipo de comunicação) ou mesmo que tipo de linguagem lhe é permitida usar
em prol do bom convívio no grupo. Logo, o modo como o ator se apresenta
em grupos desse tipo também depende de regras que não são anunciadas, geralmente,
mas que fazem parte da manutenção da interação. Nas relações face-a-face,
muitas informações sobre o Eu são comunicadas de maneira incidental e algumas
são comunicadas involuntariamente. Goffman faz distinção entre informação
"dada", isto é, pretensa e manuseada de alguma maneira, e informação "tirada",
a qual "escapa" sem qualquer intenção (não observadas, é claro, as interpretações
psicológicas deste tipo de evento). Ele também aponta diferenças entre o
"centro principal" da interação e outros centros, que são, naquele momento,
menos aparentes. Se um amigo fala comigo ao telefone, eu posso discutir
algum problema de trabalho com ele e preparar uma xícara de café simultaneamente,
ambas as ações transcorrendo cooperativamente e interativamente com a outra
pessoa, mas geralmente fica claro que o centro principal da interação é
a discussão sobre trabalho, e não o processo de fazer café; mesmo que no
meio da conversa eu deixe transparecer que estou realizando uma outra atividade
(um barulho, por exemplo, pode ser denunciador, mas isso não afeta o centro
principal, ou mesmo uma fala direta: "Que droga, derrubei o açúcar!"). Devo
deixar claro que nas interações no espaço da Internet este tipo de separação
entre "expressão e impressão" e "centro e periferias" também pode ser amplamente
encontrada, embora dentro de suas características particulares. Um sujeito
pode se apresentar de uma certa maneira via e-mail (expressão), mas alguns
elementos de sua linguagem não confirmam o que ele apresenta (impressão).
A apresentação do Eu, como já disse, pode ser bem menos espontânea que no
"face-a-face", mas tanto a elaboração do emissor quanto a interpretação
do receptor podem ser mais atentas, a depender do espaço de interação. Num
Chat (bate-papo), por exemplo, não se pode ser tão atento a certas coisas
devido a sua característica de "tempo real" (resposta imediata). Em geral,
os centros de atenção dos interlocutores podem ser múltiplos, o que também
faz variar o jogo entre elaboração e interpretação; podemos notar duas gradações:
em primeiro lugar temos um centro (tema ou assunto), do qual nada impede
que outros temas se desenvolvam dentro da mesma interação; a outra gradação
diz respeito ao fato de que durante a interação no espaço da Internet (seja
no Chat, no Fórum ou na Lista de E-mail), o indivíduo pode estar realizando
outra atividade fora do espaço da Internet; a interferência desta na interação
pode ser relevante ou não para a mesma, depende da própria natureza da atividade.
Por exemplo, assistindo TV ao mesmo tempo em que participa de um Chat. Desenvolvendo
esta discussão para os recursos disponíveis à apresentação do Eu no espaço
da Internet, apresentaremos os mesmos em conjunto num processo comparativo
com as relações face-a-face e assim trabalhá-los de maneira que coopere
para a nossa compreensão da construção do Eu neste contexto. As principais
formas de apresentação do Eu no espaço da Internet são através das ferramentas/sub-espaços
de interação já vistas na sessão anterior: E-mail, Fóruns, Chat e o ICQ
e similares. Considerando a apresentação do Eu um embate entre expressividade
e convenções ou vontades e regras, veremos que tanto nas interações face-a-face
quanto nas interações no espaço da Internet existe este mesmo embate. Cabe-nos
desenvolver o questionamento sobre as especificidades do mesmo em cada um
dos seus "sub-espaços" de interação. Ao nos expressarmos face-a-face tentamos
garantir a manutenção do entendimento, das aparências do convencimento,
da sedução, das convenções, ou de qualquer que seja a nossa intenção na
interação. Tentamos ser claros, educados e respeitosos para que sejam o
mesmo conosco. Tenta-se passar uma noção do que somos e do que queremos
(papéis) para tentar alcançar intenções, mesmo que essa seja simplesmente
"parecer mais atraente", e se falhamos nessas tentativas, tenta-se contornar
o problema (o embaraço) para manter a interação; sendo este um processo
recíproco entre os interlocutores.
5.1- No e-mail:
Baseado mais estritamente na escrita, os e-mails podem ser considerados
também o principal material de trocas no espaço da Internet; isso porque
uma de suas características mais fortes é o fato da troca em si. A base
de apresentação do Eu via e-mail acontece de maneira mais gradual. Por e-mail
a expressividade se desenvolve aos poucos, na medida, ritmo e afinidade
com que é levada pelos interlocutores da interação. Num caso de pessoas
que se conheceram em algum outro sub-espaço da Internet e começaram a se
comunicar por e-mails, muito provavelmente a intenção dessa troca foi aprofundar
mais suas apresentações respectivas de Eus. Não devemos ignorar que podem
existir casos estritamente profissionais ou funcionais de uso do e-mail,
o que não tira os efeitos da reciprocidade e expressividade, apenas os deixam
menos visíveis ou mesmo interessantes para o nosso propósito. O desenvolvimento
escrito desses Eus podem ser colocados como tendo duas características básicas
e interligadas advindas tanto do fato de serem por escrito, quanto do fato
de não serem em "tempo real", isto é, as respostas não são imediatas. Essas
características são: maior elaboração nas apresentações e maior atenção
nas interpretações. Um jogo entre as categorias utilizadas por Goffman:
a expressão e a impressão. Enquanto que face-a-face, ao nos expressarmos
deixamos impressões (informações passadas sem intenção) em nossos interlocutores
por causa de falhas na apresentação, na troca de e-mails, tanto o emissor
pode elaborar melhor sua mensagem, quanto o receptor pode oferecer uma maior
atenção a mesma e daí captar impressões. Nesse jogo de leituras de Eus estabelecido
pela interação via e-mail, resta perceber as variações de possibilidades
dessas trocas até atingir sua saturação (ou passando para outras formas
de interação: telefone, face-a-face , etc.; ou simplesmente terminando,
se não, deixando de ser intenso o fluxo); estas variações podem ser esboçadas
aqui do seguinte modo: Um dos atores da interação tem facilidade no uso
da escrita como forma de apresentação (manipulação?) do Eu e o outro não
é tão atento; o segundo pode interpretar (impressão) o primeiro de uma forma
excessivamente idealizada. Um dos atores escreve muito (quer se expressar
muito), mas não é cuidadoso na sua escrita (em sua apresentação), no entanto,
seu interlocutor é bastante atento, nota contradições no discurso (falha
na apresentação), deduz ansiedades (pressa?); este interlocutor pode tanto
utilizar estas impressões para guiar sua apresentação de modo a parecer
mais elaborada que a do outro, e por isso causar maior impacto (especialmente
nas trocas entre sexos opostos), quanto pode não ter despertado o interesse
por uma continuidade da interação. Devo acrescentar também que uma certa
gama de convenções está presente nas interações baseadas na troca de e-mails,
que, a depender dos rumos possíveis tomados pelos atores, podem colocar
limites tanto nos temas quanto na linguagem presentes nas mensagens trocadas.
Uma boa apresentação também depende da atenção a essas convenções, que servem
acima de tudo para a boa convivência no espaço da interação .
5.2- Nos Fóruns:
A apresentação do Eu nos Fóruns e nas listas de discussão por e-mail é,
realmente, menos complexa que nas outras formas de apresentação, uma vez
que há no centro de ambos sub-espaços um tema a ser tratado pelos usuários
(seja política internacional, uso de drogas ou simples trocas de piadas),
não deixando muito espaço para a elaboração de Eus. As impressões causadas
nos leitores das mensagens passadas por cada um poderá vez por outra suscitar
reações mais próximas das interações vistas antes, mas, pela natureza temática
do espaço, esta reação poderá (ou deverá) se transformar numa forma de interação
mais pessoal, em geral, via e-mail, que funcionaria do modo como foi descrito
no tópico anterior. Os aspectos sobre a escrita, a elaboração e a atenção
dada a mesma, referidos quando discorremos sobre a apresentação do Eu via
e-mail continuam válidos aqui.
5.3- Nos Chats:
Imaginando que a linguagem utilizada nos Chats é também, prioritariamente,
escrita, poder-se-ia pensar que segue exatamente os mesmos princípios do
E-mail ou do Fórum, no entanto, uma característica específica dos Chat altera
consideravelmente esta proposição: o Chat se dá em tempo real. O jogo de
expressão e impressão preconizado por Goffman se torna mais veloz, quase
como nas interações face-a-face. As formações (elaborações) de Eus através
dos textos e frases no Chat se tornam menos capazes tanto de uma maior elaboração
quanto de uma maior atenção do interlocutor durante a interação. A necessidade
de respostas imediatas que mantenham a atenção do interlocutor num ambiente
onde múltiplas "vozes" tomam lugar é o que dá a oportunidade desta interação.
Aqui, o jogo de construção do Eu se complexifica mais ainda, já que um mesmo
indivíduo pode estar sendo vários Eus num mesmo espaço de interação primário:
1) o nick no Chat, 2) as conversas abertas, 3) as conversas reservadas e
4) a pessoa por trás da tela do computador. A particularidade desses Eus
apresentados vai então depender da agilidade e talento do indivíduo e também
do tipo de receptividade do interlocutor (aqui retorna o jogo de elaboração/expressão
versus atenção/impressão). Muitas vezes, ao se perceber que o interlocutor
está interagindo com muitas pessoas ao mesmo tempo (muitos erros de digitação,
demora em responder às interpelações, etc.), perde-se o interesse em manter
a interação; faltou agilidade/talento de um e interesse/atenção do outro.
E assim um Chat "rola" (analogia com a "barra de rolamento" da "janela"
do programa de navegação utilizado). Sucessões de trocas, construindo um
tipo de sociabilidade e apresentações de Eus contínuas, mas não necessariamente
regulares. Falaremos agora sobre a escolha dos nicks (apelidos) num chat.
Escolher um nome já é um passo muito importante para a construção de Eus;
de fato, se pensarmos bem, não são muitas as oportunidades práticas para
um indivíduo poder formular uma apresentação de si antes de estar na interação,
e mesmo estando nela, muito do que for desenvolvido depende da própria interação.
Em geral, a escolha do nome envolve o fato de já se querer passar algo sobre
si mesmo. Não vou entrar nos temas da Onomástica , mas devo considerar que
se, por exemplo, entro num Chat com meu nome verdadeiro (Fabiano), isso
não será uma informação a priori para ninguém, a não ser se já for conhecido
daquele espaço e por aquele nome, coisa que pode também acontecer. Mas,
se quero passar uma idéia do que sou, das minhas intenções específicas ou
até mesmo de como sou, então, será mais prático (e mais interessante do
ponto de vista do estudo da apresentação do Eu no espaço da Internet) formular
um nome que já o diga . Então, retornando ao nosso contexto do espaço da
Internet, num Chat, a escolha do nick pode ser extremamente carregada de
sentido simbólico para a apresentação do Eu, o que já desenvolve o que queremos
dizer. O uso do imaginário coletivo contemporâneo em agrupamentos da Internet
como o grupo Galera ZAZ reforça a característica do partilhamento de símbolos
coletivos; cuja utilização vai além da escrita e assume um caráter não só
oral, como também audiovisual, que povoa as mentes dos indivíduos do grupo,
numa forma peculiar de auto-nomeação, conforme veremos em nossa Etnografia.
Por enquanto notemos alguns nomes/nicks retirados de Chats reais, que chamam
a atenção para algo específico que quer ser transmitido pelo indivíduo:
NetSex33, Loira22, Solteiro40, WhiteMan32 (Homem Branco), Gata22, Poeta
X, Solitário, Anônimo, Tiazinha, Macho, Alone (Sozinho ou Só), Tristonho,
Abandonada... (os números são idades). Estes, e muitos outros apelidos,
provocam interpretações a partir das impressões transmitidas. Pode ter haver
com a aparência, com características intelectuais, com a moda do momento,
e vai muito depender da conjunção de aspectos que levam os indivíduos a
entrar/freqüentar o Chat (intenções, motivações, ambiência, interlocutores,
linguagem corrente, etc.). Não há, no primeiro momento muita abertura para
uma interpretação além do que está expresso, pois é o que o indivíduo quer
transmitir de si ou de seu estado e deve ser interpretado dessa maneira
para atrair interlocutores com afinidades (momentâneas ou prolongadas) semelhantes.
Muitas vezes um nome/nick já utilizado e conhecido num Chat pode receber
um complemento que indique, além da identificação como aquela pessoa específica
e da informação sobre si que se quer expressar, um estado emocional momentâneo;
por exemplo: Loira22nervosa, Solteira40 cheia de tesão, Tiazinha de chicote
cansado, etc. Esse complemento no apelido pode ser também um complemento
na apresentação do Eu naquele momento e que também é um desenvolvimento
do jogo expressão/impressão somente que re-atualizado num novo contexto,
onde permanecem as interpretações anteriores sobre o Eu e mais renovadas
características da nova interação.
5.4- No ICQ:
A participação do ICQ e similares nesta sessão sobre a apresentação do
Eu no espaço da Internet nos serve como exemplo de um processo expansivo
de possibilidades nas interações no espaço da Internet. As pessoas que já
se conhecem (face-a-face ou não) estão em estado constante de possível conexão,
já que sempre sabe-se que o outro está presente no espaço, disponível para
interação (ou não), mas é um Eu presente ali no ritual simbólico de "estar
conectado". Sem dúvida, tem sido um passo além no processo de maior intimidade
entre indivíduos no espaço da Internet, pois já leva a carga de apresentações
de Eu anteriores (Chat, Fórum, E-mail ou até face-a-face) e pode ter o significado
de um maior desenvolvimento deste mesmos; principalmente porque no ICQ tanto
pode se usar mensagens (instantâneas ou não) ou um Chat particular em tempo
real. Os critérios de linguagem, escrita, velocidade, etc., permanecem,
porém, o que há de acréscimo é o fato do maior conhecimento de ambos os
interlocutores sobre o outro e por isso um maior aprofundamento do jogo
expressão - impressão: quanto mais se sabe sobre o outro mais impressões
podemos tirar das expressões desse outro, e por isso o aprofundamento ou
até mesmo o desvelamento de máscaras bem construídas, mas que não puderam
se sustentar por muito tempo; especialmente a uma exposição mais prolongada
ao interlocutor atento.
5.5- Nos sites de encontros:
Existem ainda os sites especializados em encontros, onde o usuário publica
um perfil de si para poder ser contatado e também pode procurar perfis que
lhe atraiam para fazer contato. A apresentação do Eu neste espaço é baseada
no formulário de construção do perfil. Produzido pelo provedor do site e
preenchido pelo usuário, é uma forma bastante niveladora de apresentação
de Eus, padronizada, pois os perfis terminam por parecerem todos semelhantes.
A busca de afinidades se restringe às semelhanças estéticas (se a aparência
descrita é atraente ou não, etc.). E o desenvolvimento de qualquer forma
de intimidade posterior possível se dá através da troca de e-mails (e outras
ferramentas e espaços: ICQ, telefone, face-a-face, etc.), cujas formas de
apresentação de Eu já vimos.
Resumindo as diferenças e semelhanças entre a apresentação do Eu nas interações
face-a-face e no espaço da Internet, podemos dizer que nas interações no
espaço da Internet há sempre a presença explícita de mediações técnicas,
sendo a escrita a mais presente para a expressividade dos indivíduos, enquanto
que no face-a-face as mediações técnicas são restritas, isto é, temos a
linguagem, mas ela está diretamente apresentada. A segunda diferença seria
o uso dos nicks (apelidos). A escolha intencional de nomes para a identificação
do Eu que está sendo apresentado. Disso podemos apresentar mais uma diferença,
mas que também é uma semelhança; tanto num espaço quanto no outro existem
os jogos de máscaras, no entanto, enquanto no face-a-face os jogos de máscaras
são restritos à própria apresentação do Eu, no espaço da Internet pode-se
ocultar infinitas características (físicas - idade, cor, aparência, etc.
- ou de comportamento) ao se forjar uma máscara. Outra diferença é a multiplicidade
de possibilidades de interação, que pode levar a uma maior superficialidade
nas interações; enquanto que no face-a-face é mais difícil ser completamente
superficial, mesmo que num contexto múltiplo. Acrescentamos outra diferença
curiosa, que é o fato de se poder abordar temas e insultar pessoas de uma
maneira bem mais aberta que nas relações face-a-face. Já faz parte das convenções
do espaço da Internet que a distância e o anonimato podem proporcionar ao
indivíduo uma série de possibilidades de expressão mais livre, contudo,
a recíproca é a mesma: deve-se estar pronto para suportar muita coisa "ruim"
dos outros. No entanto, é também verdade que o processo para se ignorar
alguém indesejado é muito mais simples que no face-a-face; o que já forma
outra diferença. E de semelhante, o que podemos formular até aqui é que
há uma aparente busca por intimidade, tanto num espaço quanto no outro de
interação, porém por vias diferentes, como vimos. O que faz da apresentação
do Eu no espaço da Internet certamente particular, mas não totalmente estranha
das características da mesma no face-a-face, especialmente quando da maior
complementaridade das mesmas em certas situações, como é o caso do grupo
Galera ZAZ estudado, cujos espaços de interação e as apresentações de Eus
se complementam mutuamente e continuamente. Enfim, o espaço da Internet
traz na interpretação de suas especificidades, todas as possibilidades de
atividade interacional; desde a noção que têm-se do mesmo, como espaço particular,
até seus usos e sub-espaços que proporcionam a construção da sociabilidade
na mesma. Tema do qual estaremos tratando nos capítulos seguintes.
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